sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal

O blog do Ficção HQ deseja a todos um feliz Natal e um ano novo cheio de realizações e surpresas positivas!

domingo, 20 de novembro de 2011

Quadrinhos na Cultura

   Ano passado participei do evento Quadrinhos na Cultura, quando aliás apresentei uma palestra sobre o tema O Simbolismo dos Super-heróis. Este ano o evento ocorrerá no período de 24 a 27 de Novembro (quinta à domingo), na Livraria Cultura do CasaPark. A proposta está diferente: diversos autores falarão sobre suas obras, o que não só  aproxima leitores e autores, como valoriza a produção nacional. Presença em massa da editora Barba Negra, com três autores na programação.
  
Quinta-feira


   O evento começará às 19h.30min., com André Dahmer comentando seu mais recente livro: Rei Emir Saad - O monstro de Zazanov. Trata-se de uma coletânea de tirinhas de humor negro sobre um "ditador à moda antiga", no fictício Ziniguistão. Na sequência, o autor abrirá uma sessão de autógrafos, assim como os demais autores presentes no evento.
   




Sexta-feira

  Será realizada uma palestra, com subsequente oficina, sobre o uso do Diário Gráfico em diversas artes. Ambas serão ministradas por Renato Alarcão.





Sábado

  A programação será cheia:
- 15h. Os vendedores da Cultura, fantasiados de personagens de quadrinhos, contarão histórias para a criançada.
- 16h. O quadrinista Carlos Ferreira comentará sua obra Kardec, um biografia em quadrinhos de Allan Kardec.
- 20h. Nestablo Ramos, responsável tanto pela história quanto pela arte na obra Zoo, já foi falado aqui no blog em mais de um post. No evento, ele comentará e autografará Zoo 2. Uma breve entrevista com esse autor de Brasília pode ser lida no post anterior.



Domingo

   A programação no domingo começará às 15h., com uma oficina de história em quadrinhos para crianças a partir de 7 anos. E o evento terminará com bate-papo com Gabriel Góes, às 16h., sobre a obra 1000-1, uma coletânea de história mudas feitas por diversos autores brasileiros.




   
A descrição completa das atividades pode ser acessada no site da Livraria Cultura, assim como na página do facebook do evento. Fica a dica!


sábado, 8 de outubro de 2011

Tá pra sair... Zoo 2


Já comentei aqui, em post anterior, aquela que considero a melhor história em quadrinhos de Brasília que já li, também uma das melhores nacionais: Zoo. A sequência da trilogia, publicada pela HQM editora, será lançada na 18ª Fest Comix, evento que ocorrerá em São Paulo, nos dias 14, 15 e 16 de Outubro. Como já estamos próximos da realização do evento, resolvi publicar aqui uma entrevista, concedida por Nestablo Ramos, o autor de Zoo (história e ilustrações), que serve como uma prévia para aqueles que, assim como eu, estão só esperando o lançamento para dar continuidade à leitura.
Sendo assim, vamos ao que interessa:

FICÇÃOHQ - A Zoo 1 terminou de uma forma um tanto enigmática, deixando os leitores curiosos acerca do que aconteceria em seguida. A Zoo 2 começa no ponto onde termina a primeira?

NESTABLO RAMOS - Não. A história começa 3 meses depois, com o chimpanzé Sims desaparecido. No livro 1, ele descobre que as respostas que procura estão fora de Zoo, então decide ir atrás a qualquer custo. Mostrarei o que o espera em seu destino misterioso. Com os personagens que ficaram para trás, suas relações continuam bem tensas, principalmente entre Sabu e Naiana.

FICÇÃOHQ - Pelo visto, personagens da Zoo 1 voltam a aparecer na 2... O foco na história gira mais em torno de algum deles?

NESTABLO RAMOS - Sim, os personagens do primeiro estão de volta para o segundo livro, mas novas caras vão surgir, umas não muito boas e outras piores ainda! (risos). O foco será nos personagens que ficam em Zoo, como eles estão lidando com o sumiço de Sims e o que farão em relação aos fatos ocorridos no primeiro livro, especialmente Sabu e Naiana.

FICÇÃOHQ - Estou vendo que a história do Sabu com a Naiana promete. Mas e o Sims, que é personagem central da história? Ele não aparece na 2? Ou haverá alguma novidade em relação a ele?

NESTABLO RAMOS - Sim, o leitor vai descobrir mais sobre o passado dele, seus princípios e motivações. Perguntas sobre a paternidade dele com a Jiyan serão respondidas, mas não de forma direta. Espero que fiquem todos atentos! (risos).

FICÇÃOHQ - E quanto a essas caras novas que você mencionou? Existe algum personagem novo que você criou e que terá mais destaque na Zoo 2?



NESTABLO RAMOS - Sim, Hardock é uma das caras novas que vai pintar. Por hora só posso dizer que ele é um lutador de Vale-Tudo e que chegou pra arrebentar! Literalmente! (risos). Tem também Sabin, um babuíno sinistro com intenções misteriosas. Só lendo pra ver, cara! (risos).


FICÇÃOHQ - Atiçando a curiosidade da galera, hein? Para terminar, na minha opinião, a primeira Zoo foi marcada por algumas reviravoltas, a partir de revelações que foram feitas ao longo da história. Existem muitas revelações na Zoo 2? Que mudam o que o leitor está acreditando acerca da história?


NESTABLO RAMOS - Sim, existem reviravoltas e muitas surpresas, marca registrada de Zoo. Algumas revelações sobre o primeiro livro serão mostradas, é preciso estar atento a tudo, pois algumas estão nas entrelinhas. Para quem gosta de mistérios, é uma boa hora de deixar o Sherlock interior vir à tona! (risos). Está na hora de pensarem mais sobre suas teorias e formular algumas novas, se colocar no lugar dos personagens e pensar no que fariam no lugar deles. Acho que é bem por aí!


FICÇÃOHQ - Mais alguma coisa que queira dizer aos leitores?


NESTABLO RAMOS - Espero que Zoo esteja trazendo novas perspectivas a todos sobre os temas abordados e que seja apreciado com o mesmo carinho que foi criado. Abração a todos e nos vemos na Zoo 2!!!








Agradeço a colaboração de Nestablo Ramos, respondendo nossas perguntas e disponibilizando algumas imagens inéditas de divulgação do novo álbum: Zoo - Jogos de caçadores. 

sábado, 1 de outubro de 2011

Nona Arte

Conforme adições à classificação das artes segundo Ricciotto Canudo , os quadrinhos (banda desenhada, comics, fumetti) receberam a nona posição na numeração. Hoje em dia, assim como o cinema às vezes é chamado de Sétima Arte, os quadrinhos se identificam com o título de Nona Arte.
Dito isto, foi boa a proposta da Marvel, em 2009, de aproximar mais seu principal produto às grandes artes clássicas, no caso a pintura, quando do aniversário de 35 anos de um de seus mais conhecidos personagens: Wolverine.
Neste post rápido, muito mais imagético que palavreado, vou expor algumas capas que a editora lançou, cada uma homenageando um quadro, um pintor ou um estilo de pintura.
EXILES #1 Wolverine Art Appreciation variant cover by Jason Chan in the style of Rene Magritte
Wolverine em homenagem ao belga René Magritte, com o rosto coberto aludindo ao quadro Le Fils de l'Homme e à ideia do autor de que tudo o que vemos esconde outra coisa - aquilo que queremos ver que é escondido pelo que vemos -, assim como a um tema recorrente do mesmo, o guarda-chuvas. Logan é um personagem que possui muitos mistérios ocultos em seu vasto passado, apesar de atualmente os roteiristas só se aproveitarem de seu lado mais combativo e violento e se esquecerem do interessante recurso de que têm à disposição.
AMAZING SPIDER-MAN #592 Wolverine Art Appreciation variant cover by Paolo Rivera in the style of Salvador Dali
Homenagem clara ao excelente e excêntrico surrealista Salvador Dali, com elementos de seu famosíssimo quadro La persistencia de la memoria - quadro também utilizado em Watchmen, por Moore e Gibbons -, bem como uma imagem de um ovo, outro motivo apreciado por Dali em suas obras. Reza a lenda que a inspiração para os relógios derretendo veio ao pintor quando este viu, numa tarde de verão, um queijo camembert derretendo à temperatura ambiente. O metal derretido nesta imagem remete ao adamantium líquido que foi utilizado para cobrir seus ossos e garras, tornando-os indestrutíveis. Há ainda a sutil referência à origem de Logan com a folha de maple tree sobre sua máscara.
MOON KNIGHT #29 Wolverine Art Appreciation variant cover by Juan Doe in the style of Pablo Picasso
Outro famoso pintor a ser homenageado foi o compatriota de Dali, Pablo Picasso, com seu estilo cubista característico que veio bem a calhar com o personagem retratado, denotando toda a tensão e a raiva contida do mutante canadense invocado. Os tons vermelhos lembram todo o sangue que o baixinho invocado derramou em sua história de fúria e incompreensão. Talvez a psiquê fraturada de seus anos com memórias falsas implantadas também seja evocada com a perspectiva fraturada do desenho acima.
X-MEN: LEGACY #223 Wolverine Art Appreciation variant cover by Morry Hollowell, using the art of Frank Miller, in the style of A
A pop art de Andy Warhol foi captada nesta capa, que remete a seus trabalhos mostrando personalidades famosas como Marilyn Monroe ou Che Guevara. Esta capa é bastante icônica, pois Wolverine é, atualmente, um dos super-heróis mais conhecidos do mundo, possivelmente alçando o status de popstar atualmente (mas deixemos o processo de wolverinização para um próximo post). A imagem escolhida, por sua vez, também é uma ilustração bastante conhecida feita por Frank Miller. Warhol é querido pelo mundo dos quadrinhos, tendo aparecido, entre outros, também no filme Watchmen, mostrando um quadro do Coruja, e como personagem do excelente Miracleman, quando Neil Gaiman esteve à frente deste (infelizmente) obscuro personagem.
UNCANNY X-MEN #508 Wolverine Art Appreciation variant cover by Laura Martin in the style of Vincent Van Gogh
Neste exemplo a ironia toma ares de humor negro. Fazendo referência ao famoso autorretrato de Vincent Van Gogh, a capa utiliza uma das características mais marcantes de Wolverine, suas garras, para trazer à tona um fato infeliz da biografia do pintor neerlandês: cerca de um ano antes de seu suicídio, Van Gogh se automutilou, retirando a própria orelha. Pena não dispor das mesmas propriedades regenerativas do X-Man aqui retratado...
RUNAWAYS #9 Wolverine Art Appreciation variant cover by David Lafuente in the style of Alphonse Mucha
Apresento agora um talvez desconhecido do grande público, Alfons Mucha, um checo dos mais influentes no movimento Art Nouveau. Seu estilo é imitado em diversas capas, principalmente de heroínas (Promethea, Voodoo) e algumas do Dr. Estranho e outras desenhadas por Joe Quesada, e uma de suas pinturas foi referenciada em Sandman ao retratar o próprio Lorde Morpheus: o pôster da peça Gismonda, com Sarah Bernhardt.

SECRET WARRIORS #3 Wolverine Art Appreciation variant cover by Gerald Parel in the style of Gustav Klimt
Outro artista que também teve homenagem rendida nas páginas de Sandman foi o austríaco Gustav Klimt, cujo estilo foi tomado emprestado nesta capa, reconhecível através (sim, literalmente "através") das roupas e dos padrões de tecido das figuras neste desenho, que por sua vez remete-nos à ligação de Logan-san com o Japão.
AGENTS OF ATLAS #3 Wolverine Art Appreciation variant cover by Gerald Parel in the style of Edvard Munch
O norueguês Edvard Munch foi homenageado com esta capa acima. Munch é conhecido mundialmente pelo seu quadro expressionista O Grito, obra que revela angústia e desespero existencial, talvez como o que Logan vivencia quando deixa seu lado fera dominar seu lado humano, ou quando não tem certeza sobre quais memórias suas são reais e quais são meros implantes inventados.
AMAZING SPIDER-MAN #590 Wolverine Art Appreciation variant cover by Paolo Rivera in the style of C.M. Coolidge
Outro norte-americano, assim como Warhol, homenageado, foi C.M. Coolidge. Na verdade, sua série de obras, conhecidas coletivamente como Dogs Playing Poker, é que são homenageadas, fazendo uma brincadeira com algumas aparências e alguns uniformes que Wolverine teve ao longo destas três décadas e meia de existência. O mais curioso desta capa é que, diferentemente das obras originais na qual foi baseada, em que se mostrava cães antropomorfizados em seus comportamentos e hábitos (inclusive os mais péssimos hábitos humanos) jogando e fumando, Logan, um fumante inveterado e contumaz, não é apresentado em nenhuma versão com seu habitual charuto.
Mais algumas homenagens podem ser acessadas aqui, no site da Marvel Comics. Lá pode-se descobrir ainda nas capas de quais revistas mensais saiu cada uma destas homenagens. Mostrei aqui apenas algumas das quais mais gostei e mais achei representativas, de um modo ou outro. Relembrando a reflexão levantada por Magritte na primeira imagem deste post, La Trahison des Images, conforme Scott McCloud bem lembrou em seu ótimo livro Desvendando os Quadrinhos, nenhuma destas capas se liga diretamente aos respectivos quadros originais, mas são somente imagens digitalizadas das cópias impressas dos desenhos representativos das cópias de cada arte original.
Mas são arte.
A 9ª Arte.




- Quadros e pinturas sugeridas: TODAS as de todos os autores aqui apresentados
(Magritte, Picasso, Dali, Warhol, Van Gogh, Mucha, Klimt, Munch, Coolidge).

terça-feira, 19 de julho de 2011

O Tempo nas Histórias em Quadrinhos: subvertendo a ordem de leitura



“Não há futuro. Não há passado. Percebe? O tempo é simultâneo, uma joia intrincada que os humanos insistem em enxergar um lado por vez, embora a estrutura toda seja visível em todas as facetas.”
- Dr. Manhattan


Tive a oportunidade de dar uma palestra para a II Jornada de Romances Gráficos da UnB versando sobre Tempo nos Quadrinhos e Subversão da Ordem de Leitura. A apresentação foi um apanhado de alguns assuntos já comentados neste blog aqui e ali, mais alguns acréscimos que fiz especialmente para ela. Abaixo, tentarei transcrever um pouco do que apresentei; então, para os leitores do blog, perdoem-me se em algum momento me repetir o que já disse ou mostrei emposts anteriores. Para quem viu a palestra, perdoem-me se deixar de expor aqui algum comentário que fiz ao vivo (ao fim do post, acrescentei mais informações a partir de sugestões obtidas após a palestra). E obrigado por terem comparecido! Vamos lá (lembrando que os exemplos aqui não são exaustivos, mas meramente ilustrativos da infinidade de possibilidades existentes).


A frase que abre este post é retirada do capítulo IX de Watchmen. Dr. Manhattan se refere a sua própria percepção do tempo, mas eu digo que esta frase na verdade pode se referir a esta mídia específica chamada (no Brasil) de histórias em quadrinhos e diz respeito tanto à sua ordem de leitura quanto à sua passagem do tempo.



Segundo Scott McCloud, em seu livro Desvendando os Quadrinhos, nos quadrinhos a percepção da passagem do tempo se dá espacialmente. Explicarei isto melhor mais adiante. Neste excerto de Quadrinhos e Arte Sequencial acima, de Will Eisner, retiramos duas valiosas informações sobre o formato. A primeira informação é sobre o que chamamos de ordem canônica de leitura de quadrinhos (pelo menos no mundo ocidental, pois em mangás, por exemplo, rege a ordem exatamente inversa), da esquerda para a direita e de cima para baixo, algumas vezes desenhando essa marca do Zorro visível acima. A segunda informação, menos óbvia que a primeira, mas bastante interessante, é o que gosto de chamar de metaquadrinho: a página como um todo, responsável por conter todos os quadrinhos propriamente ditos em seu interior. Isto será visto mais à frente também.



Inicialmente, ao tratar da passagem no tempo nos quadrinhos, vamos falar da forma utilizada por Fernando Gonsales para alongar o tempo em uma de suas tiras de Níquel Náusea. Em vez de utilizar o padrão de três ou quatro painéis, o autor preferiu pegar um deles e dividi-lo em seis quadros menores, aumentando o "espaço" a ser percorrido pelo olhar do leitor, fazendo-o, assim, demorar-se mais enquanto acompanha quadro a quadro toda a trajetória lentamente percorrida pelo caramujo. O alongamento do tempo se dá devido à contemplação individual de cada leitor em cada painel desenhado.





Utilizando um exemplo de los hermanos argentinos, neste caso de Liniers, podemos verificar um caso em que a leitura não segue o padrão canônico apresentado por Eisner no início deste post. Nesta tirinha, chamada sugestivamente de Esquina, os dois personagens caminham em sentidos opostos até se encontrarem no meio. O tempo, neste exemplo, seguiria então a direção das bordas para o centro, onde o passado restaria nos extremos esquerdo e direito da tirinha, sendo o presente encontrado no centro de atenção do metaquadro. Ao leitor caberia a oportunidade de, prostrando-se de frente ao desenho por inteiro, voltar seu olhar tanto para a esquerda quanto para a direita, e desta forma acompanhar a trajetória de cada um dos personagens ao longo do tempo, do presente para o passado ou do passado até o fatídico beijo eternizado na esquina da diagramação proposta.




Falando em direções subversivas da ordem de leitura, remeto-me novamente ao super-herói curitibano O Gralha, cujas histórias podem apresentar tom de humor, aventura ou mesmo de experimentação pura. Como o caso exposto aqui por Antonio Eder, em que o herói parte em perseguição a um vilão, e esta corrida dita a ordem de leitura a ser seguida no decorrer da página. Reparem que, em determinado momento, o autor divide essa ordem de leitura quando os protagonistas se separam no decurso da narrativa, o vilão descendo do elevador um andar acima de onde sai o Gralha, mas logo mais à frente se encontram para continuar a perseguição em outra página (não mostrada agora mas já mostrada anteriormente no blog). Outro ponto curioso é a escolha do autor em preencher inclusive quadrinhos não utilizados pelo seguimento da história, como evidenciado pela janelas onde dois pássaros cantam um para o outro frente a frente.




Voltando para a obra de Scott McCloud, no capítulo de seu livro em que trata sobre o tempo nos quadrinhos, o autor nos apresenta esta imagem bastante alegórica acima. Todo o desenrolar dos eventos ao longo deste quadro único é desencadeado por um flash disparado pela máquina fotográfica do Tio Henry. Esta foto causa a reação do casal fotografado, o que por sua vez gera o comentário da senhora com o champanhe em mão, que por sua vez ocasiona a intervenção de sua filha, culminando no apontamento maldoso de um dos senhores jogando xadrez. Digo alegórica porque, apesar de à primeira vista este quadro aparentar, como uma fotografia, um momento congelado no tempo, na verdade não se trata de um momento único, mas sim de vários eventos capturados na mesma imagem, cada um com sua duração distinta do outro (denotada pelos balões de fala e o tempo gasto pelo leitor para ler cada um). Neste quadro específico, o leitor possui a capacidade de, tal qual o Dr. Manhattan, perceber no mesmo instante vários momentos diferentes, da esquerda para a direita, sendo exposto ao mesmo tempo ao passado e ao futuro, tanto à causa quanto a seus efeitos. Esta é uma característica marcante dos quadrinhos, a capacidade de expor uma narrativa tanto sequencial como simultaneamente.




Outros exemplos do caráter simultâneo e sequencial desta mídia, mas bem mais antigos, de 1934, são de páginas dominicais de uma tirinha chamada Gasoline Alley, de Frank King. O autor escolheu ambientalizar sua história num mesmo cenário, fixo, em que se transcorreria toda sua narrativa (um buraco de piscina, no primeiro caso, e uma construção, no segundo) e inseriu seus personagens percorrendo todo o metaquadrinho ao longo do tempo (no segundo exemplo, um casal sendo perseguido* por um sujeito de chapéu). Importante salientar que, enquanto o segundo caso se foca na sequencialidade da perseguição, no primeiro há pequenas historietas autocontidas e fechadas em cada quadrinho, havendo o enfoque na simultaneidade. Neste último, novamente é como se o leitor, imbuído da percepção temporal única do Dr. Manhattan, percebesse simultaneamente os vários instantes percorridos pelos três amigos num mesmo espaço.




E, assim, remeto-os novamente ao exemplo já comentado aqui, da história de Greyshirt em Tomorrow Stories - promoção relâmpago não sei até quando na Comix, seis edições por apenas R$ 14,90 aqui --, por Alan Moore e Rick Veitch (acima). Trata-se de um edifício apresentado no metaquadrinho geral da página, em que cada andar situa-se numa época diferente, distante um do outro por exatas duas décadas. Fora alguns elementos gráficos usados para situar o leitor no período em que cada andar (ou cada painel da página) se encontra, como a marcação do ano à esquerda ou mesmo calendários, jornais e cartazes dentro dos quadrinhos, há ainda um elemento constante: a figura caricata de uma pessoa vestida sempre de verde com seus óculos de aros redondos. Dependendo de que ano está (ou em que painel aparece), esta pessoa encontra-se na sua infância, adolescência, adultez ou senescência. Nesta bem contada "ginástica narrativa", os autores entregam o poder de decidir a ordem de leitura para seus leitores, permitindo-os percorrer a história seja verticalmente, através das décadas (ou dos painéis), ou horizontalmente, mantendo-se sempre estacionado em um mesmo ano (ao longo das páginas). Mais uma vez, o leitor tem a capacidade de decidir a ordem da passagem do tempo que deseja, vislumbrando o todo nos distantes 60 anos que separam o primeiro painel do último e escolhendo se quer percorrê-los sincrônica ou diacronicamente.

*Curioso observar como os temas "perseguição" e "prédio" são recorrentes neste exemplos...

Para finalizar, apresento uma imagem, também bastante simbólica, de Promothea, por Alan Moore e o sempre excelente J.H.Williams. As duas personagens percorrem uma certa passarela em forma da Alça de Möbius (ou lemniscata), que representa o símbolo do infinito. Em determinado instante, uma das personagens percebe a sua presença em outro ponto da calçada, mas alguns minutos atrás, e chega a apontar para si mesma do passado. A outra personagem, noutro momento, comenta estar tendo uma sensação de déjà vu por achar já ter passado por aquele caminho antes. Cabe ao leitor, se assim o decidir, escolher ativamente mudar de página ou ficar revisitando este loop, apresentado tanto em sua totalidade (simultaneidade) quanto em suas particularidades (sequencialidade). Finalmente, uma das personagens se dá conta de que este loop em que se encontram serpenteia não só pelo espaço, como pelo tempo. E assim o ciclo se fecha, pois a metalinguagem presente neste metaquadrinho aponta diretamente à mídia em que se encontra, uma mídia cujo tempo se apresenta como espaço, e vice-versa, permitindo infinitas possibilidades àqueles autores que ousarem subverter e brincar com a passagem do tempo nos quadrinhos.


-THE END-



ADENDO:
Graças à sugestão da (também palestrante) Raquel Perrine, acrescento neste post passagens de outra obra de Alan Moore: Do Inferno. No início de seu segundo capítulo, há uma página inteira completamente no escuro (deixando também o leitor exatamente "no escuro"), com quadrinhos aparentemente non sequitur, havendo uma única constante: a misteriosa indagação "O que é a quarta dimensão?".

A medida que o capítulo transcorre, o leitor percebe que esta primeira página apresenta glimpses da vida do personagem William Gull, cada painel representando uma passagem ou momento específico que ele vivenciou. A repetição da pergunta indica ao leitor como o tempo está sendo manipulado aqui, retratado espacialmente numa única página. Mais à frente, é mostrada a teoria de C. Howard Hinton, filho de um dos personagens do diálogo abaixo, apresentada numa monografia intitulada O que é a quarta dimensão? Segundo ela, o tempo seria uma ilusão humana, pois "todas as eras coexistiriam no todo estupendo da humanidade", como "padrões quadridimensionais no interior do Monolito da Eternidade". A quarta dimensão, para Gull, seria uma espécie de arquitetura do tempo, dentro da qual diferentes níveis temporais seriam relacionados a outros. Quase como a estrutura da página de um quadrinho e sua relação com outros quadrinhos na história.

O Monolito da Eternidade nos remete, novamente, à joia intrincada preconizada por Dr. Manhattan no início deste post. Assim, recomendo também, obviamente, a leitura do capítulo IV de Watchmen, que dá ao leitor uma mostra (e um gostinho experimentá-lo) de como o Dr. Manhattan vê o mundo e percebe a passagem do tempo, num jogo de enquadramentos cuja experiência só os quadrinhos podem passar.

Agradecimentos:
À organização da Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos da UnB, o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, pela oportunidade.
À minha esposa, Úrsula, pela paciência e ajuda com os slides.
À Gabi, pela ajuda com o power point.
Ao Guilherme, brother in arms deste blog (que também apresentou uma palestra, vide o post anterior), por ter me metido nesta enrascada.
Ao Ciro I. Marcondes, do Raio Laser (também palestrante), pela sugestão do livro Narrativa Cinematográfica.
A todos que assistiram a palestra, meu muitíssimo obrigado!


Quadro sugerido: Paradise, de Lucas Cranach der Ältere.
Trabalho acadêmico sugerido: Alan Moore and Graphic Novel: confronting the fourth dimension, disponível aqui.

sábado, 2 de julho de 2011

Representação e representatividade no mundo dos super-heróis

Nesta semana, entre dos dias 29 e 30 de Junho, aconteceu, na UnB - Universidade de Brasília - o evento II Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos. Entrou em debate temas como figuras femininas nos quadrinhos, os sons das palavras, relações entre quadrinhos e literatura, quadrinhos e identidade, heróis em foco e houve até a participação do cartunista Laerte. Além disso, o Rodrigo apresentou o tema Tempo nos Quadrinhos: subvertendo a ordem de leitura (que está sendo transcrito e será o próximo post), relacionado a posts anteriores dele aqui do blog, l'esprit d'escalier, (des)construção e card-comics e material inédito ainda.
Também apresentei um tema, sobre representação e representatividade nos quadrinhos dos super-heróis. Meu plano era o de escrever um post relacionado ao tema da palestra, já estava até com um rascunho quase pronto. Porém, como o Rodrigo não pôde estar na palestra e pediu para que filmasse, pensei: já que tenho a apresentação inteira gravada, posso fazer um post diferente. Em vez de texto e imagens, como sempre fizemos, áudio e filmagem. Sendo assim, coloco aqui para vocês a palestra na íntegra, que dura 21 minutos.









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Meus agradecimentos à coordenação do evento, pela oportunidade, e meus parabéns, pelo sucesso. Lembrando que o evento contou com o apoio do Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Pós-Graduação em Literatura da UnB, e foi organizado pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, cujo site é http://www.gelbc.com.br/ . Lá podem ser lidos os artigos referentes à I Jornada, e dentro de um pouco mais que um mês poderão ser lidos, no site, artigos dos palestrantes sobre os temas abordados na II Jornada.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Musa Nerd



Natalie Portman. Nascida há exatos 30 anos, em Jerusalém, como Natalie Hershlag. Oscar de melhor atriz de 2011 e vencedora do Globo de Ouro do mesmo ano, pelo excelente trabalho em Cisne Negro. Musa.
Neste post vou mostrar algumas razões que me levam a elegê-la Musa Nerd absoluta. Não só pela beleza, advinda da miscigenação tão própria de um estado como Israel (e o que a aproxima da beleza métis do Brasil também), mas também pelo seu trabalho.
Ainda bem novinha, perto dos 12 anos, conquistou o público na pele da pequena e eternamente lembrada Mathilda, contracenando ao lado de Jean Reno no cult filme O Profissional (1994). Mathilda era uma menina com uma trágica história que, ao ver toda a sua família assassinada, tem a forte presença de espírito de seguir em frente e fingir não conhecer ninguém. Assim ela acaba indo parar na casa de León, um matador profissional que a adota, o que leva a menina a seguir seus passos e querer se tornar ela mesma uma assassina profissional.

Na luta entra a manutenção da infância e a súbita passagem à vida adulta, Natalie nos mantém com maestria a tensão de menina-mulher na personagem de Mathilda. Ali a menina já dizia para o que veio, mostrando a ótima atriz que era (e que continuaria a ser).
Logo mais Natalie seria conhecida como a Princesa Amidala, que se envolveria com Anakin e se tornaria futuramente mãe de Leia e Luke Skywalker. Neste momento a jovem atriz chamaria a atenção do mundo nerd ao se lançar como a "nova Princesa Leia" no imaginário masculino de uma nova geração de cultuadores do universo de Guerra nas Estrelas (Star Wars).

Ao invés de se deixar levar pela fama, a atriz decidiu se afastar um tempo das telas e frequentou a prestigiada Harvard, onde cursou e se formou em Psicologia em 2003. Durante esse período, toda a experiência vivida e o conhecimento adquirido só a ajudaram a montar e compor seus futuros personagens. Um trabalho publicado pela menina pode ser lido aqui, em que aparece como coautora com seu nome verdadeiro, Natalie Hershlag (o sobrenome Portman ela retirou de sua avó), investigando a relação entre a consciência visual de crianças e o lóbulo frontal de seus cérebros. Segundo a moça, em entrevista dada à Rolling Stones, "Freud e seus seguidores são uma fraude."

Natalie, vegetariana desde a infância, viaja pelo mundo em campanhas sociais contra preconceito e pobreza, para ajudar mulheres, e também dando palestras sobre terrorismo. Vi certa vez uma entrevista dela falando sobre máscaras e todas suas alegorias e implicações, e ela demonstrou domínio do que falava, tudo bem embasado. Bonita, inteligente e engajada!

Depois de mostrar ao mundo como já estava bem crescidinha em Closer (2004), Natalie arrebatou também um monte de marmanjo não necessariamente ligado em cultura pop com sua provocante personagem stripper, sem deixar de mostrar todo seu talento artístico numa outra belíssima e marcante atuação no filme baseado numa peça de Patrick Marber.
"Saint spidersense, Spidey (ou 'santa espiadela, Tobey')!"

O carisma da moça só veio a aumentar quando, retornando ao mundo nerd, faz o papel da inglesa - com direito a sotaque e tudo - Evey na adaptação de V de Vingança (2006). Demonstrando coragem e maturidade, Natalie encarou a famosa cena em que raspa todo o cabelo. Não são todas as mulheres que conseguem ficar bem de cabelo curto, e Natalie ainda conseguiu se manter bela como sempre mesmo quase careca.

Após figurar ao lado da também belíssima Scarlett Johansson (que viria a fazer uma aparição marcante como Viúva Negra em Homem de Ferro 2) em A Outra (2008), recentemente a atriz voltou a figurar na mídia mundial ao encarnar a bailarina frágil e delicada que se transfigura em seu nêmesis numa bela interpretação em Cisne Negro, que lhe rendeu o Oscar e o Globo de Ouro como melhor atriz. Mais que merecido no papel que mostra as angústias e obstinações por trás do glamour do mundo do balé*.


Em maio último, a atriz apareceu como Jane Foster, a mortal que fisgou o coração do Deus do Trovão no filme do Thor. Para aumentar ainda mais sua ligação com o mundo geek, um fato pouco sabido por muitos é que a personagem Queda (Freefall) do Gen13, de acordo com seu cocriadorJ. Scott Campbell, teve sua aparência baseada em Natalie Portman. Na revista Gen13Zine (publicada pela Wildstorm) foi mostrado, inclusive, que as medidas da personagem são idênticas às medidas da atriz.
Natalie Portman se lançou neste ano ainda como garota-propaganda da Dior, num comercial veiculado aqui no Brasil durante os intervalos do Oscar. Vocês podem conferir o belíssimo vídeo apresentando a atriz em toda sua beleza e carisma nas sugestões abaixo.
A atriz comemora hoje seu aniversário de 30 anos - o mesmo dia do aniversário de minha mãe - , tendo nascido, coincidentemente, no mesmo ano em que eu mesmo nasci. Parabéns, Natalie. Parabéns, mãe!





Vídeo sugerido1: comercial da Dior estrelado por Natalie.
Vídeo sugerido 2: trailer com a cena não censurada de Natalie Portman.
* Livro sugerido: Dicionário de Nomes Próprios, de Amélie Nothomb.


terça-feira, 24 de maio de 2011

Algumas leituras recentes

Fazia um tempo que não escrevia aqui, mas estou de volta. Vou aproveitar para comentar as histórias que li nesse período de ausência, partindo do princípio que sempre tem alguém que vê um encadernado nas lojas e gostaria de ter uma opinião. Bom, pelo menos eu sou assim. E como existem revistas novas e outra antigas nesse grupo de potenciais compras, vou simplesmente comentar tudo o que li nesses meses.

Oceano
Oceano é a primeira da lista porque foi a que mais gostei. Há que se considerar que eu já estava com vontade de comprá-la há um tempo, que eu gosto da estética do espaço sideral e que gosto de Warren Ellis. Mas nem por isso quer dizer que não teria senso crítico em relação a obra, além do que minha expectativa já estava alta, somando todos os fatores.
Para quem gosta de ficção futurista, principalmente as que se passam no espaço, essa é uma boa história, que no caso está no formato de quadrinhos. Poderia ser um livro, poderia ser um filme. Aliás, a linguagem que o autor usa nessa história é bastante cinematográfica. As imagens estão bem bonitas, souberam aproveitar a beleza do espaço sideral e dar a ele seu devido espaço (desculpe o trocadilho infame) nas páginas do encadernado. O tema é interessante: uma história de mistério entremeada por uma visão de futuro, da exploração espacial e da humanidade. Recomendo muito esse encadernado!

Transmetropolitan
Já que comecei com uma obra de Warren Ellis, vou dar sequência com outras. Transmetropolitan também se passa no futuro, mas esqueça as belas visões dos planetas e estrelas... Aqui o tema central é a Terra, mais precisamente uma imensa cidade, para a qual o protagonista é forçado a voltar após anos de isolamento. Os desenhos são sujos, representando a visão de futuro retratada, principalmente no que tange centros urbanos, diferenças econômicas e sociais, megaempresas, seitas religiosas (ou pseudorreligiosas)... Aparentemente Ellis dá vazão a todo o seu pessimismo em relação ao futuro da humanidade nessa história, e através da voz de Spider Jerusalem liberta todo o seu criticismo em relação aos asssuntos abordados. Boa história, aguardo a continuação...

RED
Também li RED, do mesmo autor. Trata-se de uma revista em 74 páginas sobre um ex-agente secreto, ex-mercenário ou ex-algo-do-tipo que tava quieto, curtindo uma folga, até mexerem com ele. Foi a história na qual se basearam para fazer o filme de mesmo nome (que, confesso, ainda não assisti). Bom, é uma história legal, mas é bem rápida. Em uma sentada você lê inteira. Não tem a mesma profundidade e riqueza que as obras do Ellis em geral têm, mas é divertida.

O Invencível Homem de Ferro: Extremis
Para fechar a sequência de obras do Warren Ellis, Extremis. OK, trata-se de uma história do Homem de Ferro, personagem que nunca me agradou muito nos quadrinhos, com exceção de uma certa saga da armadura viva. Acredito que escritor bom pega qualquer personagem e faz uma boa história. É o caso em Extremis. Não existe nada de muito diferente das histórias comuns do Homem de Ferro, no que tange a ambientação, mas tem a pegada do Ellis. Além disso, ele realmente transformou o Tony Stark em um verdadeiro homem-máquina. Não quero estragar a surpresa para quem ainda não leu...

Tocha Humana: Recriando uma Lenda

Saio das obras de Ellis, mas como falei no Homem de Ferro, começo a sequência Marvel, já com um grande autor, que é Alex Ross. Comentei em post anterior a qualidade de suas obras em uma das minhas favoritas, que é Os maiores super-heróis do mundo. Em Tocha, a arte não é dele, nem o roteiro, mas a história foi escrita por ele e Mike Carey. Não sei se por influência do pintor de quadrinhos ou não, a história ficou bem legal. Ele tira da sepultura (embora não tenha sido o primeiro) o Tocha Humana original (aquele da Segunda Guerra Mundial, que lutou ao lado do Capitão América e Namor) e remonta o quebra-cabeça de sua origem. Dá um novo ar ao personagem, que não retornou com sua compaixão, e um drama especial em relação a sua própria longevidade, além de colocá-lo dentro de uma história, no mínimo, peculiar. Vale a pena essa minissérie em duas edições, mesmo para aqueles que não acompanharam a história do Tocha original ou não se interessam muito pelo personagem, como eu.

Mitos Marvel
Falando em origens, o encadernado Mitos Marvel apresenta uma releitura dos mais famosos heróis da Marvel, como Quarteto Fantástico e Homem-Aranha. Trata-se de um releitura mais atualizada, moderna... legal, mas também não traz nada de novo ou muito original. Para quem não conhece muito bem o mundo dos super-heróis da Marvel e estiver interessado em uma leitura sobre suas origens, é uma boa compra.


Magneto: Testamento
Um outro caso é Magneto: Testamento. Sua origem é remontada com bastante precisão histórica. Todos sabem que Magneto foi um refugiado judeu dos campos de concentração nazista, mas nunca tinham parado para contar como ele realizou essa proeza, principalmente levando em conta que só foi desenvolver seus poderes muito tempo depois. Na minha opinião, a maior qualidade da obra pode ser considerada também seu maior defeito. Como disse, Magneto não desenvolveu seus poderes no período. Então, os leitores que estiverem esperando o vilão fantasiado, ou mesmo um momento de fúria em que seus poderes se manifestam temporiamente, vão se frustrar. Por outro lado, a história é bem verossímil e poderia ser muito bem a narração de sobrevivência de um judeu qualquer, sem poderes.

Wolverine: Inimigo de Estado
Boa história. Ambientada no cenário mais atual da Marvel, com a retomada do conceito Wolverine: máquina de matar. Um tanto exagerada, como não é raro nos roteiros de Mark Millar. Enredo bem amarrado, conta com a participação também de outros personagens do universo Marvel e consegue prender a atenção e interesse do leitor. Fazia tempo que eu não lia Wolverine. Desde que ele se tornou o personagem megapop da Marvel, tendo história própria, nos X-Men e também nos Vingadores, enjoei um pouco. Wolverine: Inimigo de Estado, porém, valeu a pena.

Enciclopédia Marvel: Surfista Prateado
Achei a leitura um pouco cansativa. E também houve uma quebra de expectativa, pois esperava ler as primeiras histórias do Surfista: o planeta sendo tomado por Galactus, ele se transformando em seu arauto, o ataque do devorador de mundos à Terra, a revolta do Surfista e sua prisão ao nosso planeta. Só que a Enciclopédia Marvel: Surfista Prateado narra exatamente a fase posterior a isso, ou seja, ele preso à Terra e tentando escapar dela. Aparentemente foi o período de maior sucesso do personagem. As reflexões dele sobre os terráqueos também foram legais. Contudo, achei seus constantes pensamentos melodramáticos um tanto chatos, e as histórias não fluem muito bem. Enfim, essa leitura eu não recomendo, a não ser aos fãs incondicionais do Surfista Prateado, ou àqueles que conhecem essa fase específica e gostariam de ler.

Liga da Justiça por Grant Morrison
Muito boas as histórias desse encadernado. Bem ao estilo Liga da Justiça mesmo - grandiosas, ameças cataclísmicas -, com o estilo do Grant Morrison, autor que eu particularmente gosto. É verdade que só li as histórias porque foram escritas por ele (eu e o Rodrigo, atualmente, compramos mais pelos nomes dos autores do que pelos personagens da capa). Histórias de aventura, também um tanto exageradas, em uma formação da Liga com alguns dos personagens mais marcantes da DC. Já li algumas edições posteriores, que vão além do encadernado, e vejo que vale a pena. Tomara que não interrompam a publicação dos encadernados no Brasil, que a Liga da Justiça de Grant Morrison não fique apenas no volume 1.


Pixu
Pixu está numa linha mais alternativa de quadrinhos. Publicado pela Devir Livraria, narra uma história de terror com arte em preto e branco. Ou melhor, preto, branco e tons de cinza. Quando digo arte em preto, branco e tons de cinza, quero dizer que ela foi feita assim mesmo, nada a ver com aquelas versões econômicas de material estrangeiro. O uso dessa arte é, aliás, um de seus pontos fortes: dar um ar mais sombrio à obra. O enredo é interessante, original (bom, pelo menos para mim, mas não sou grande conhecedor de histórias de terror). O tipo de terror que eu gosto, em que o foco é na tensão, no suspense, no mistério. E é a história que te deixa apreensivo, não a quantidade de sangue. Leitura rápida também. Uma boa parte dos quadrinhos não tem texto, e mesmo que você passe lentamente por eles, não deve demorar mais que duas sentadas para terminar a leitura. Mas vale a pena.


EntreQuadros #1
Essa eu encontrei, por acaso, em um banca muito específica daqui de Brasília. Publicação independente de Mário César, com o selo Quarto Mundo. Algumas histórias curtas e divertidas, um tanto inusitadas e com uma boa dose de humor. Leitura rápida, bem rápida. De preço acessível, bem acessível (R$5,00). Não deve ser fácil encontrá-la em qualquer lugar para compra, por isso indico o site do Mário, http://www.masquemario.net/, a quem estiver interessado.

Zoo
Outra obra que li mais ou menos no mesmo período que as demais foi Zoo, de Nestablo Ramos, um autor aqui de Brasília. Porém, como já escrevi um post só sobre ela, quem quiser saber minha opinião sobre a obra pode ler o post mais antigo. Aqui, basta dizer que a obra ganhou o troféu Bigorna e que aguardo ansiosamente a continuação (prevista para Outubro, na Festcomics). E, como já me perguntaram onde comprar, em Brasília só vi a obra sendo vendida na Livraria Cultura. Indico também o site http://projetozoo.blogspot.com/, que tem um banner para compra.

Eu sou Legião
História de conspiração, envolvendo nazismo e o sobrenatural. Trama intrigante, bem amarrada, que mistura eventos totalmente verossímeis com o sobrenatural de uma maneira muito bem arquitetada. Um monte de personagens e bastante informação. Eu sou Legião é o tipo do encadernado que tem que ler com atenção aos detalhes, e preferencialmente ler mais de uma vez, para que após o final, algumas outras peças se encaixem na releitura. Leitura densa, mais lenta. Só não gostei muito das quebras de página, mas isso é um detalhe muito técnico, que de forma nenhuma prejudica a qualidade da obra.


Um Sinal do Espaço
Muito bom. Apesar de antiga, a história é bem interessante, envolvente. Tem lá suas limitações ligadas ao tempo em que foi produzida, mas não deixa de ser atual. Praticamente um policial, com uma dose de conspiração. Vi algumas semelhanças com essa história e Contato (o filme. Ainda não li o livro, embora já o tenha. Me disseram que são bem diferentes...). O enredo flui e vai gerando uma curiosidade em relação ao próximo capítulo. Destaque especial para arte de Eisner, que trabalha sua técnica de não utilizar a divisão em "requadros rígidos" (o quadrinho convencional) de maneira inigualável. Em diversas páginas ele usa o que chama, no seu livro Quadrinhos e Arte Sequencial, de "página como metaquadrinho". Aí vemos coisas fantásticas, como o desenho de um túnel ou formato do interior de um avião sendo usados como delimitação do quadrinho, no lugar dos quadrinhos convencionais.
Pequenos Milagres
Will Eisner também, então já é de se esperar algo de qualidade. Em Pequenos Milagres, o autor narra quatro histórias que se passam em um bairro judeu. Como ele mesmo diz, na abertura do romance gráfico, "os contos neste livro se parecem com as histórias que meus pais chamavam de 'meinsas'. E, embora sem apócrifos, eles foram destilados das minhas lembranças, que eram um patrimônio comum da nossa família". Quatro histórias interessantes e, de alguma maneira, tocantes. Leitura rápida, e de boa qualidade.

The Spirit: As Novas Aventuras
The Spirit: as novas aventuras reúne histórias do personagem The Spirit, mas não as escritas por Eisner, seu criador. A proposta foi justamente pegar grandes nomes dos quadrinhos atuais para que eles pudessem escrever histórias com o personagem, em uma espécie de homenagem. Trata-se de uma compilação de histórias interessantes, com destaque especial para as primeiras, escritas por ninguém menos que Alan Moore. Não é preciso já conhecer The Spirit nem ter lido nada dele. Vale a pena!

The Boys: o Nome do Jogo
Uma visão completamente diferente dos super-heróis. Ou melhor, dos seres com superpoderes que se intitulam super-heróis, mas na verdade são pessoas muitas vezes vaidosas e prepotentes, quando não mimadas, que estão apenas interessadas no retorno de vendas dos seus produtos. E os "garotos" que dão o nome a obra, no caso, formam uma equipe com a incumbência de segurar esse pessoal. Para quem está afim de novidade, de um enfoque diferente sobre um planeta com superseres, The Boys é uma boa pedida.

Os escapistas
Taí uma revista que trabalha a metalinguagem já em sua proposta. Trata-se de uma história em quadrinhos sobre alguém que faz história em quadrinhos. A história real de sua luta incansável para produzir quadrinhos. Em determinados momentos, trechos do Escapista - personagem que ele resgatou do fundo do baú - em situações que representam o próprio autor, tentando se livrar das dificuldades e problemas que apareceram no caminho. Os escapistas retrata o verdadeiro sonho de muitos leitores de quadrinhos, que não é o impossível "ser um herói com superpoderes", e sim o de trabalhar com quadrinhos, ou criar seu próprio personagem e que ele faça sucesso. De quebra, ainda é uma miniautobiografia (acho que bati meu recorde de prefixos nessa) do autor. Recomendo para leitores que tenham esse sonho.

Então é isso! No momento estou lendo Do Inferno, não sei se vou escrever sobre essa obra, porque pretendo ainda fazer um post só sobre Alan Moore. Tenho aqui, além dele, o terceiro volume da Liga Extraordinária. Então, quem sabe em um post futuro eu comente essas duas obras, e outras que estão na minha prateleira, só esperando para serem lidas, tais como Jogos de Poder, The umbrella academy: A Suíte do Apocalipse, Camelot 3000, O Chinês Americano... Se alguém quiser que eu comente uma obra específica, diga o nome nos comentários que se eu já tiver lido ou um dia ler, comento em outro post.