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domingo, 20 de maio de 2012

Leituras Recentes 2

   Pessoal, mais uma vez estou aqui para comentar algumas leituras recentes que fiz, ou melhor, as leituras depois do primeiro post Leituras Recentes. Espero poder fornecer boas descrições das obras, ao mesmo tempo tentando não matar a história nem fazer spoiler, de tal forma que eu possa contribuir para a escolha de vocês sobre os próximos quadrinhos que querem ler (ou aqueles que não querem ler de jeito nenhum).





O Chinês americano
   Tomei conhecimento e tive interesse em ler essa obra porque foi uma das comentadas na I Jornada de Romances Gráficos (na UnB), assim como The Arrival (comentada também neste post). Dificilmente uma história em quadrinhos me surpreendeu tanto. Não esperava muito dela, apenas uma história interessante. Quando li, reparei que é uma história em quadrinhos com muita profundidade, que equilibra muito bem simplicidade e qualidade. São três enredos que se desenrolam conjuntamente: o do rei macaco (o macaco que queria ser mais que um macaco), o de Jin Wang (o Chinês que se mudou para os EUA e queria ser como seus colegas) e o de Danny e seu primo Chin-Kee (que é a paródia do arquétipo de um chinês, feita em formato de sitcom). Os três enredos, cada um a sua maneira, fala sobre o mesmo tema: o desejo de pertencer, a vontade de se sentir parte da comunidade onde se está. O Chinês americano é uma obra muito interessante e bem-humorada.



Jogos de poder volume 1
   Comprei Jogos de poder faz tempo, e sempre acabava lendo outra coisa antes, deixando-o para depois. Não sei exatamente por quê... não sei exatamente por que comprei também. O importante é que finalmente li. Achei legal. Não é uma obra excepcional, dessas que ficam pra sempre gravadas em nossa mente com aquela impressão de que gostamos muito. Mas é legal, valeu a pena ter lido. Uma dessas histórias de espionagem, com conspirações, tramoias e aquele velho conflito entre o agente e seu chefe e algumas surpresas no caminho. É um leitura bem dinâmica, rapidamente se lê a história toda. O volume 2 já saiu, já comprei o meu e estou esperando a hora em que a revista vai me chamar para que eu a leia.



Invasão dos mortos
   Invasão dos mortos é um desses quadrinhos em preto e branco de suspense, terror. Porém, esqueça zumbis se multiplicando por toda a cidade. A invasão é um tanto invisível, com possibilidade até de ser apenas uma armação de pessoas decididamente vivas. É nesse clima de mistério que uma trama bizarra, com personagens um tanto peculiares - como o próprio protagonista -, se desenrola. Leitura rápida e de qualidade.

Coleção DC 75 anos
   Essa coleção é um conjunto de quatro encadernados com histórias da DC. Cada uma delas representa um dos quadro períodos das histórias em quadrinhos de super-heróis. Começa pela Era de Ouro, onde constam as primeiras história de grandes ícones da DC, como Super-homem, Batman, Lanterna Verde  e Mulher Maravilha. No encadernado da Era de Prata vemos as histórias mais lúdicas e aventurescas dos personagens, também período em que o Flash passou a fazer mais sucesso. Na Era de Bronze, temos um tom mais sério e reflexivo de histórias maduras, como aquela em que Ricardito - ajudante do Arqueiro Verde - se envolve com drogas. Finalmente, na Era Moderna vemos o tom mais adulto e sombrio que os quadrinhos ganharam, onde se apresentam histórias do Monstro do Pântano de Allan Moore, Sandman e trechos do Cavaleiro das Trevas, entre outras. Cada encadernado vem com algumas páginas de explicação sobre esses períodos dos quadrinhos e seus marcos. Eu diria que são obras essenciais para quem gostaria de conhecer um pouco sobre a História das histórias em quadrinhos e ler bons exemplos de histórias publicadas em cada período, para perceber a grande diferença de estilos que os caracterizam.


The umbrella academy: a suíte do apocalipse

   Umbrella academy: a suíte do apocalipse é algo... diferente. Difícil até de explicar... Digamos que a a estrutura narrativa dela seja mais emocional do que racional. Eu sei que estou sendo vago, mas como disse, é difícil explicar. Minha impressão é a de que a obra é mais centrada nos sentimentos dos personagens, em seus conflitos (internos e com os outros), do que em coisas explicadinhas. Tem um pé na poesia e o outro na ludicidade. Tudo isso dentro de uma trama com super-heróis e vilões exóticos. Confesso que, com os comentários que eu havia ouvido sobre o Umbrella Academy, minha expectativa foi um tanto alta, e não correspondida. Porém, posso dizer que foi uma leitura que valeu a pena, dada a sua peculiaridade. Já saiu sequência, ainda estou decidindo se vou comprar... 


Camelot 3000
   Li Camelot 3000 por ser uma história muito bem comentada. Ela já ganha crédito pela originalidade do enredo: em um futuro distante (ano 3000), uma grande ameaça alienígena paira sobre o planeta Terra. Nesse momento, cumpre-se a profecia de que o Rei Arthur voltaria à Inglaterra quando a terra mais precisasse dele. Ele então parte em busca das encarnações dos heróis da távola redonda. Diferente, né? Quanto ao desenvolvimento da trama, vale lembrar que a história é relativamente antiga. Alguns aspectos dela são ainda um tanto inocentes, mas de uma maneira geral é boa. Levando também em consideração o tempo em que foi lançada, entendo porque foi tão aclamada: trouxe a tona temas sobre os quais não se falava na época. Veja por exemplo o caso de Tristão, que encarnou em um corpo feminino, mas tem a alma masculina. Só recentemente outros direcionamentos sexuais passaram a ser abordados em histórias da Marvel e DC. Já em 82 o tema foi abordado nesta história, e com que simbolismo mais refinado! Acredito que seja uma obra interessante para os leitores de quadrinhos em geral, e indispensável para quem se interessa por ler história clássicas, que estavam a frente de sua época, e para quem gosta bastante da lenda dos cavaleiros da távola redonda. E, é claro, da belíssima arte de Brian Bolland.



Ao coração da tempestade
   Uma história bem legal sobre um dos mais ilustres quadrinistas do mundo. Ao coração da tempestade é uma autobiografia de Will Eisner. Enquanto viaja no trem rumo a Segunda Guerra Mundial, o autor relembra toda a sua vida, desde a infância (quando se mudou de bairro e logo passou a ser perseguido pelos garotos da rua por ser judeu, estigma que gerou vários outros problema ao longo dos anos). A história aborda a maneira como ele enxergava seu pai, as dificuldades financeiras pelas quais sua família passou, sua perseguição pela arte da pintura e desenho, até conseguir se tornar um quadrinista, quando foi convocado para a guerra. Indispensável para quem gosta do gênero biográfico em quadrinhos, tão em voga ultimamente.




Batman anual 3 - a origem sangrenta do Coringa
   Esse encadernado traz uma outra versão da origem do Coringa, diferente daquela a que estamos acostumados desde a Piada Mortal (Allan Moore), que também serviu de referência para o primeiro filme do Batman. Em A origem sangrenta do Coringa, vemos o vilão antes de se tornar o palhaço do crime. Vemos o quanto ele é naturalmente talentoso em roubos e com armas. E vemos a ascensão e constante popularização de um herói encapuzado dando sentido, aos poucos, à existência de um criminoso que não encontrava rival. Ao mesmo tempo, a história mostra (ou antecipa) o impacto que o vilão terá na vida do homem morcego. Para quem gosta de Batman, para quem gosta do Coringa, para quem gosta de origens... este encadernado é uma boa opção.


Batman - a queda do morcego (volume 1)


   Republicação do arco de histórias do Batman que aparentemente inspirou o terceiro filme da franquia, o volume 1 (e por enquanto, o único relançado) narra os planos de Bane para cansar, na verdade, estafar o homem-morcego, física e psiquicamente, deixando-o totalmente suscetível a uma derrota pelo vilão. A história é boa, demonstra - pra mim - a única forma de vencer o herói.




Batman (de Grant Morrison)
   Normalmente, só comento os encadernados, quando muito minisséries. História em quadrinhos mensal, não. Mas abro uma exceção, porque Grant Morrison realmente é um escritor diferenciado. Tenho que dar razão ao Rodrigo quando ele diz que é um dos melhores autores de quadrinhos. Seu trabalho com o Batman é bom em tantos aspectos que o espaço aqui fica pouco para comentá-lo. Acredito que a característica mais marcante para mim foi a tal da hipercontinuidade: Morrison não considera que existem histórias escritas do Batman que, na verdade, nunca aconteceram. Muito embora aquele Batman da Era de Prata já não tenha nada a ver com o Batman pós Frank Miller, Morrison abraça todo o seu passado, todas as suas histórias (inclusive de outras mídias, como os filmes do morcego atuais e antigos) para compor, de alguma forma, sua história agora. Ele traz diversos elementos do passado do vigilante, mesmo aqueles não compatíveis com a versão sombria de agora. E faz uma verdadeira ode ao personagem, tratando-o como um personagem extremamente icônico, praticamente sacro. Quem ainda tiver a oportunidade de comprar as revistas em lojas especializadas, em sebos de quadrinhos ou lojas virtuais que mantêm números antigos (ou mesmo pedir números atrasados na sua banca predileta), vale muito a pena (li e estou sugerindo aqui as edições de 58 a 89). Um conselho: leia as revistas acessando informações sobre elas em blogs que comentem as histórias número a número, porque muitas referências podem passar batidas mesmo para um fã de longa data.




Madman comics 1 - curso-relâmpago para quem quer se divertir
   As histórias de Madman comics 1 têm uma boa dose de ação e mistério, permeada por ironias e situações inusitadas. Por um lado, tenho a impressão de que as histórias tiram um bom sarro do modelo clássico de quadrinhos de super-heróis, por outro acho que podem ser consideradas também homenagens, mas honestamente fico na dúvida. Imagine um herói tendo uma epifania sobre suas motivações, seus medos, sobre a existência e o julgamento divino... enquanto luta contra um brutamontes sem pele chamado Homem-músculo. É por aí... Mas não espere rir. Na minha avaliação não é o tipo de humor que faz a gente rir, e sim aquele que faz a gente ver graça, ou ironia, sem dar risadas.




Lex Luthor - homem de aço
   Nesta história vemos Lex Luthor sem ser naquela visão maniqueísta de mente maligna, gênio do mal. Vemos em Lex Luthor - homem de aço o impacto psicológico que a existência e aparição de um ser como o Super-homem gerou em uma pessoa como ele. A desconfiança, o medo natural que se sente diante de um ser tão poderoso, e uma total falta de capacidade de aceitar que um alienígena seja eleito o herói dos humanos. Vemos na história, curta e sem muita ação, mais focada na psicologia, uma possível razão para que ele tenha se transformado no temível vilão.


Fracasso de Público 2 - desencontro de titãs
   O encadernado Fracasso de público 2 - desencontro de titãs trata de histórias mais realistas, com pessoas normais, naturalmente cheias de defeitos, dificuldades e extravagâncias. Está repleta de metalinguagem e de muitos enquadramentos interessantes e originais dos painéis dos quadrinhos. Desde as personagens (uma delas acredita piamente que outra é uma vilã totalmente polarizada, mas lembre-se: é uma história realista) até os enredos em si, sendo que um deles é justamente sobre um autor que criou um personagem em quadrinhos no qual foi inspirado um grande sucesso de uma grande editora, só que o criador nunca recebeu um centavo por isso. Ele continua lutando por seus direitos, mas também não é nenhum especialista em direito, tampouco conta com a bondade de um excelente advogado cego que o ajude voluntariamente. Os outros enredos envolvem problemas com os vizinhos, romance, ciúmes e coisas da vida normal, retratados com humor e uma boa dose de sensibilidade. 





Zoo 2 - Jogos de caçadores
   A aguardada continuação de Zoo, que já comentei em outro post como uma das melhores histórias quadrinhos nacionais que já li. Zoo 2 também conta com uma entrevista com autor aqui no blog, às vésperas de seu lançamento nacional. O que posso comentar dessa obra é que Nestablo Ramos se superou. Aprofundou-se ainda mais nesse mundo onde os animais são a raça dominante e os humanos, bichinhos de estimação, usados também em testes químicos, como   fonte de alimento e suas partes usadas em roupas. Uma história extremamente reflexiva, cuja continuação supera a primeira edição em elaboração, sutileza e complexidade, afinal o tema é aprofundado, enredos correm paralelos dentro da trama principal e existem dicas que se conectam com a primeira edição e vão desvendando os mistérios de toda a história, além dos novos e interessantes personagens. Agora só falta a terceira e última edição, que certamente terá reviravoltas e as muitas surpresas características das duas obras já publicadas.


A box of bunny suicides

   Poucas coisas são perturbadoramente tão engraçadas quanto Bunny Suicides. O princípio é muito simples: coelhinhos fofinhos suicidas, que se empenham em morrer (com toda a calma e serenidade do mundo) das formas mais inusitadas e mirabolantes possíveis. Eu sei, falando assim parece morbidez sádica... Mas os coelhinhos são muito criativos. Elaboram verdadeiros planos de morte, bem originais e criativos. Na maior parte das vezes basta uma página, de um único desenho, sem balões. E as mortes muitas vezes não chegam a aparecer, ficam apenas deduzíveis. É difícil explicar como isso pode se tornar engraçado, então dê uma "lida" na imagem abaixo e veja se pega o espírito da coisa.





Necronauta - o soldado assombrado e outras histórias
   Já que comentei acima Zoo, vou falar também de Necronauta, outra obra que foi produzida pela HQM. Este encadernado reúne histórias publicadas pelo autor, Danilo Beyruth, normalmente de forma independente. As histórias são de leitura bem rápida e quase todas são em preto e branco. O conceito do personagem é, na minha visão, seu ponto forte: Necronauta é uma espécie de salva-vidas de espíritos, que por algum motivo ainda não chegaram à luz. Cada história narra o que prendeu o espírito ao limbo (ou de que forma ele se perdeu ali) e qual abordagem o "herói" usa para salvá-los. Vale a pena ler para conhecer.


 Projeto Superpowers
   Uma história de Alex Ross e Jim Krueger, com um monte de personagens da década de 30, aqui revitalizados e remodelados. Um encadernado com arte muito bem feita e uma história envolvente, mostrando o que aconteceu no mundo depois que esses heróis venceram os vilões. Bem, nem todos... Os personagens da história são bastante marcantes e a trama muito bem desenvolvida, começando com o Combatente Ianque - um dos muitos heróis patrióticos do período - já velho, questionando seu passado. Um mistério abre a história, pois não sabemos exatamente que grande pecado ele cometeu, nem o que ele deve fazer para reverter esse quadro. Considero Projeto Superpowers uma das leituras  recentes mais agradáveis que fiz, dessas que dá um sensação de "que pena!" quando a história acaba. Ouvi dizer que a história tem continuação. Espero que tenham a sensatez e a boa vontade de continuar publicando no Brasil. Curiosidade: quem tiver o encadernado de Tom Strong - No Final dos Tempos pode tentar encontrar alguns personagens retratados tanto nesta quanto naquela obra.




Vigor Mortis Comix
   Taí um revista inusitada. Trata-se de uma espécie de terrir erótico, com histórias bastante originais. A primeira, por exemplo, fala sobre um zumbi em busca de um relacionamento com uma mulher, embora sempre fique no dilema entre manter essa ligação e comer seu cérebro. Em outra história, o protagonista, em fuga, atropela o cafetão de algumas prostitutas. Agradecidas, elas criam uma espécie de harém, que também serve como fortaleza: quando os mafiosos vêm atrás dele, elas pegam suas metralhadoras e defendem-no sem medo. Dá pra acreditar nessas histórias? Entre elas, também existe uma metalinguagem em tom tragicômico sobre pessoas que trabalham ou gostam de quadrinhos, além da criativa forma em que cada história se interliga sutilmente com outra. Para quem está procurando uma leitura bem diferente, Vigor Mortis Comix é uma ótima opção. 


Namor - as profundezas

  Esse encadernado ganhou minha admiração logo na primeira página (retratada ao lado). A imagem do submarino, imerso nessa grande escuridão, dá uma verdadeira impressão das profundezas do oceano, onde certamente a luz já não chega, e o silêncio é dominante. Como a história de Namor - as profundezas conta sobre um grupo de exploradores que se veem totalmente isolados do restante do mundo (e fragilizados mentalmente por conta disso), nada mais representativo do que essa imagem. Namor mesmo é personagem coadjuvante dela. O protagonista é um pesquisador, desses que desmistificam lendas, tentando provar que Namor é apenas um mito. A trama não é nada aventuresca, e sim tem uma pegada bem puxada para o suspense e até terror, onde nosso conhecido personagem é retratado como aquele que provoca o medo. A cena em que, rodeado pelo negrume do abismo profundo, o casco de aço frio do navio contrasta com um vislumbre do peito nu do Príncipe Submarino é excelente! Nunca gostei muito do Namor, nem de suas histórias, mas é o que sempre digo: bons escritores são capazes de fazer boas histórias com qualquer personagem. 


Transmetropolitan 2 - tesão pela vida
   No leituras recentes 1 comentei sobre o primeiro volume, falando das características gerais da obra. Então... no segundo volume elas se mantêm. Spider Jerusalém continua no grande centro urbano que ele adora (re-re-re, só pra ir na onda de sarcasmo do protagonista. Ele detesta cidade), em sua vida de jornalista bonzinho (re-re-re-re). O futuro não é exatamente um lugar legal, e Warren Ellis explora bem tudo de ruim que pode acontecer com a sociedade. Transmetropolitan 2 vem com mais 6 histórias (e a Panini está seguindo a cronologia de lançamento original, diferente de como foi feito anteriormente), sendo que a primeira metade traz três histórias meio que fechadas, ácidas mas em algum sentido também tocantes. A segunda metade envolve um moleque sem cabeça que diz ser filho do nosso delicado repórter (re-re-re-re-re-re-re-re) e um cachorro-policial em busca de vingança por ter perdido seu pau grande e precioso devido a uma encrenca com o Spider. E você pensando que o Warren Ellis não conseguiria degradar mais o futuro da raça humana...

The arrival
   Este é um encadernado particularmente muito interessante. The Arrival narra a história de um estrangeiro chegando em um país estranho. Aliás, talvez seja mais adequado dizer que a obra mostra essa chegada. Digo isso porque não há um balão de fala ou pensamento em todo o encadernado, o que o torna bem compatível com seu propósito: não importa que versão você compre dele (americana, francesa...), não importa a língua que você fala, você pode "ler" essa HQ. Tampouco importa de onde você seja: as imagens retratadas na história são completamente alienígenas, você capta a impressão de estranheza que o protagonista sente independente de seu país. Ao mesmo tempo, é tudo mais ou menos familiar. E ainda passa a impressão não de que se está chegando a outro planeta, mas de que é uma história de época, que ocorreu no passado. Isso porque o livro é todo desenhado como se fosse um álbum de fotografias antigo. Tantas qualidades assim em um quadrinhos que não tem uma fala me obrigam a dizer que é uma história em quadrinhos sem igual. Tanta adequação da forma e conteúdo ao tema aproxima o encadernado de uma poesia, me obrigando a qualificá-lo como uma verdadeira obra de arte. 


Logicomix
   Logicomix é um desses quadrinhos mais ou menos biográficos, mais ou menos didáticos. E interessante, no início da história um dos autores já começa falando com os leitores, dizendo que não é um manual de introdução à Lógica, é uma narrativa. Essa metalinguagem permanece durante toda história, que é entrecortada pelos encontros dos próprios autores e pessoas envolvidas na produção da obra (que está bem em suas mãos). O  eixo central é uma palestra de Russel (um dos grandes nomes da Matemática e da Lógica) sobre o uso da lógica nas relações humanas, às vésperas de estourar a Segunda Guerra Mundial. Ele discorre sobre sua vida, sobre a matemática, sobre Lógica, sobre pessoas, sobre loucura... Um prato cheio para quem gosta de refletir, principalmente sobre as certezas e incertezas da vida. E para quem gostaria de conhecer um pouquinho sobre a história da Lógica, ainda que (assim como eu) não entenda muito de matemática (imagino que para os que entendem, deve ser mais apreciada ainda). Muito bom!


Vikings - a viúva do inverno
   Esse encadernado é composto por uma história fechada (ou aparentemente) dentro da obra Northlanders, que aqui no Brasil ficou conhecida como Vikings, a partir do momento em que foi publicada pela revista Vertigo. A viúva do inverno é ambientada em uma pequena cidade que decide fechar suas portas para evitar o contágio da Peste Negra. Parece uma decisão óbvia, né? Acontece que fechar as portas no início do inverno significa que haverá racionamento dos mantimentos, pessoas insatisfeitas e atritos internos. Em meio a tudo isso, a protagonista, que acabou de perder o marido, tenta criar sua filha. Essa história não é um épico medieval. Embora guarde algumas das características desse gênero, o ponto central no enredo é a sobrevivência em meio a dificuldades extremas.


   À medida que for lendo mais quadrinhos, vou comentando aqui com vocês. Tenho aqui na minha prateleira, ainda esperando para ser lido: Daytripper,   dos irmãos Bá e Moon; Jimmy Corrigan - o menino mais esperto do mundo; Retalhos e Cicatrizes. Depois que ler eu comento.

sábado, 8 de outubro de 2011

Tá pra sair... Zoo 2


Já comentei aqui, em post anterior, aquela que considero a melhor história em quadrinhos de Brasília que já li, também uma das melhores nacionais: Zoo. A sequência da trilogia, publicada pela HQM editora, será lançada na 18ª Fest Comix, evento que ocorrerá em São Paulo, nos dias 14, 15 e 16 de Outubro. Como já estamos próximos da realização do evento, resolvi publicar aqui uma entrevista, concedida por Nestablo Ramos, o autor de Zoo (história e ilustrações), que serve como uma prévia para aqueles que, assim como eu, estão só esperando o lançamento para dar continuidade à leitura.
Sendo assim, vamos ao que interessa:

FICÇÃOHQ - A Zoo 1 terminou de uma forma um tanto enigmática, deixando os leitores curiosos acerca do que aconteceria em seguida. A Zoo 2 começa no ponto onde termina a primeira?

NESTABLO RAMOS - Não. A história começa 3 meses depois, com o chimpanzé Sims desaparecido. No livro 1, ele descobre que as respostas que procura estão fora de Zoo, então decide ir atrás a qualquer custo. Mostrarei o que o espera em seu destino misterioso. Com os personagens que ficaram para trás, suas relações continuam bem tensas, principalmente entre Sabu e Naiana.

FICÇÃOHQ - Pelo visto, personagens da Zoo 1 voltam a aparecer na 2... O foco na história gira mais em torno de algum deles?

NESTABLO RAMOS - Sim, os personagens do primeiro estão de volta para o segundo livro, mas novas caras vão surgir, umas não muito boas e outras piores ainda! (risos). O foco será nos personagens que ficam em Zoo, como eles estão lidando com o sumiço de Sims e o que farão em relação aos fatos ocorridos no primeiro livro, especialmente Sabu e Naiana.

FICÇÃOHQ - Estou vendo que a história do Sabu com a Naiana promete. Mas e o Sims, que é personagem central da história? Ele não aparece na 2? Ou haverá alguma novidade em relação a ele?

NESTABLO RAMOS - Sim, o leitor vai descobrir mais sobre o passado dele, seus princípios e motivações. Perguntas sobre a paternidade dele com a Jiyan serão respondidas, mas não de forma direta. Espero que fiquem todos atentos! (risos).

FICÇÃOHQ - E quanto a essas caras novas que você mencionou? Existe algum personagem novo que você criou e que terá mais destaque na Zoo 2?



NESTABLO RAMOS - Sim, Hardock é uma das caras novas que vai pintar. Por hora só posso dizer que ele é um lutador de Vale-Tudo e que chegou pra arrebentar! Literalmente! (risos). Tem também Sabin, um babuíno sinistro com intenções misteriosas. Só lendo pra ver, cara! (risos).


FICÇÃOHQ - Atiçando a curiosidade da galera, hein? Para terminar, na minha opinião, a primeira Zoo foi marcada por algumas reviravoltas, a partir de revelações que foram feitas ao longo da história. Existem muitas revelações na Zoo 2? Que mudam o que o leitor está acreditando acerca da história?


NESTABLO RAMOS - Sim, existem reviravoltas e muitas surpresas, marca registrada de Zoo. Algumas revelações sobre o primeiro livro serão mostradas, é preciso estar atento a tudo, pois algumas estão nas entrelinhas. Para quem gosta de mistérios, é uma boa hora de deixar o Sherlock interior vir à tona! (risos). Está na hora de pensarem mais sobre suas teorias e formular algumas novas, se colocar no lugar dos personagens e pensar no que fariam no lugar deles. Acho que é bem por aí!


FICÇÃOHQ - Mais alguma coisa que queira dizer aos leitores?


NESTABLO RAMOS - Espero que Zoo esteja trazendo novas perspectivas a todos sobre os temas abordados e que seja apreciado com o mesmo carinho que foi criado. Abração a todos e nos vemos na Zoo 2!!!








Agradeço a colaboração de Nestablo Ramos, respondendo nossas perguntas e disponibilizando algumas imagens inéditas de divulgação do novo álbum: Zoo - Jogos de caçadores. 

terça-feira, 19 de julho de 2011

O Tempo nas Histórias em Quadrinhos: subvertendo a ordem de leitura



“Não há futuro. Não há passado. Percebe? O tempo é simultâneo, uma joia intrincada que os humanos insistem em enxergar um lado por vez, embora a estrutura toda seja visível em todas as facetas.”
- Dr. Manhattan


Tive a oportunidade de dar uma palestra para a II Jornada de Romances Gráficos da UnB versando sobre Tempo nos Quadrinhos e Subversão da Ordem de Leitura. A apresentação foi um apanhado de alguns assuntos já comentados neste blog aqui e ali, mais alguns acréscimos que fiz especialmente para ela. Abaixo, tentarei transcrever um pouco do que apresentei; então, para os leitores do blog, perdoem-me se em algum momento me repetir o que já disse ou mostrei emposts anteriores. Para quem viu a palestra, perdoem-me se deixar de expor aqui algum comentário que fiz ao vivo (ao fim do post, acrescentei mais informações a partir de sugestões obtidas após a palestra). E obrigado por terem comparecido! Vamos lá (lembrando que os exemplos aqui não são exaustivos, mas meramente ilustrativos da infinidade de possibilidades existentes).


A frase que abre este post é retirada do capítulo IX de Watchmen. Dr. Manhattan se refere a sua própria percepção do tempo, mas eu digo que esta frase na verdade pode se referir a esta mídia específica chamada (no Brasil) de histórias em quadrinhos e diz respeito tanto à sua ordem de leitura quanto à sua passagem do tempo.



Segundo Scott McCloud, em seu livro Desvendando os Quadrinhos, nos quadrinhos a percepção da passagem do tempo se dá espacialmente. Explicarei isto melhor mais adiante. Neste excerto de Quadrinhos e Arte Sequencial acima, de Will Eisner, retiramos duas valiosas informações sobre o formato. A primeira informação é sobre o que chamamos de ordem canônica de leitura de quadrinhos (pelo menos no mundo ocidental, pois em mangás, por exemplo, rege a ordem exatamente inversa), da esquerda para a direita e de cima para baixo, algumas vezes desenhando essa marca do Zorro visível acima. A segunda informação, menos óbvia que a primeira, mas bastante interessante, é o que gosto de chamar de metaquadrinho: a página como um todo, responsável por conter todos os quadrinhos propriamente ditos em seu interior. Isto será visto mais à frente também.



Inicialmente, ao tratar da passagem no tempo nos quadrinhos, vamos falar da forma utilizada por Fernando Gonsales para alongar o tempo em uma de suas tiras de Níquel Náusea. Em vez de utilizar o padrão de três ou quatro painéis, o autor preferiu pegar um deles e dividi-lo em seis quadros menores, aumentando o "espaço" a ser percorrido pelo olhar do leitor, fazendo-o, assim, demorar-se mais enquanto acompanha quadro a quadro toda a trajetória lentamente percorrida pelo caramujo. O alongamento do tempo se dá devido à contemplação individual de cada leitor em cada painel desenhado.





Utilizando um exemplo de los hermanos argentinos, neste caso de Liniers, podemos verificar um caso em que a leitura não segue o padrão canônico apresentado por Eisner no início deste post. Nesta tirinha, chamada sugestivamente de Esquina, os dois personagens caminham em sentidos opostos até se encontrarem no meio. O tempo, neste exemplo, seguiria então a direção das bordas para o centro, onde o passado restaria nos extremos esquerdo e direito da tirinha, sendo o presente encontrado no centro de atenção do metaquadro. Ao leitor caberia a oportunidade de, prostrando-se de frente ao desenho por inteiro, voltar seu olhar tanto para a esquerda quanto para a direita, e desta forma acompanhar a trajetória de cada um dos personagens ao longo do tempo, do presente para o passado ou do passado até o fatídico beijo eternizado na esquina da diagramação proposta.




Falando em direções subversivas da ordem de leitura, remeto-me novamente ao super-herói curitibano O Gralha, cujas histórias podem apresentar tom de humor, aventura ou mesmo de experimentação pura. Como o caso exposto aqui por Antonio Eder, em que o herói parte em perseguição a um vilão, e esta corrida dita a ordem de leitura a ser seguida no decorrer da página. Reparem que, em determinado momento, o autor divide essa ordem de leitura quando os protagonistas se separam no decurso da narrativa, o vilão descendo do elevador um andar acima de onde sai o Gralha, mas logo mais à frente se encontram para continuar a perseguição em outra página (não mostrada agora mas já mostrada anteriormente no blog). Outro ponto curioso é a escolha do autor em preencher inclusive quadrinhos não utilizados pelo seguimento da história, como evidenciado pela janelas onde dois pássaros cantam um para o outro frente a frente.




Voltando para a obra de Scott McCloud, no capítulo de seu livro em que trata sobre o tempo nos quadrinhos, o autor nos apresenta esta imagem bastante alegórica acima. Todo o desenrolar dos eventos ao longo deste quadro único é desencadeado por um flash disparado pela máquina fotográfica do Tio Henry. Esta foto causa a reação do casal fotografado, o que por sua vez gera o comentário da senhora com o champanhe em mão, que por sua vez ocasiona a intervenção de sua filha, culminando no apontamento maldoso de um dos senhores jogando xadrez. Digo alegórica porque, apesar de à primeira vista este quadro aparentar, como uma fotografia, um momento congelado no tempo, na verdade não se trata de um momento único, mas sim de vários eventos capturados na mesma imagem, cada um com sua duração distinta do outro (denotada pelos balões de fala e o tempo gasto pelo leitor para ler cada um). Neste quadro específico, o leitor possui a capacidade de, tal qual o Dr. Manhattan, perceber no mesmo instante vários momentos diferentes, da esquerda para a direita, sendo exposto ao mesmo tempo ao passado e ao futuro, tanto à causa quanto a seus efeitos. Esta é uma característica marcante dos quadrinhos, a capacidade de expor uma narrativa tanto sequencial como simultaneamente.




Outros exemplos do caráter simultâneo e sequencial desta mídia, mas bem mais antigos, de 1934, são de páginas dominicais de uma tirinha chamada Gasoline Alley, de Frank King. O autor escolheu ambientalizar sua história num mesmo cenário, fixo, em que se transcorreria toda sua narrativa (um buraco de piscina, no primeiro caso, e uma construção, no segundo) e inseriu seus personagens percorrendo todo o metaquadrinho ao longo do tempo (no segundo exemplo, um casal sendo perseguido* por um sujeito de chapéu). Importante salientar que, enquanto o segundo caso se foca na sequencialidade da perseguição, no primeiro há pequenas historietas autocontidas e fechadas em cada quadrinho, havendo o enfoque na simultaneidade. Neste último, novamente é como se o leitor, imbuído da percepção temporal única do Dr. Manhattan, percebesse simultaneamente os vários instantes percorridos pelos três amigos num mesmo espaço.




E, assim, remeto-os novamente ao exemplo já comentado aqui, da história de Greyshirt em Tomorrow Stories - promoção relâmpago não sei até quando na Comix, seis edições por apenas R$ 14,90 aqui --, por Alan Moore e Rick Veitch (acima). Trata-se de um edifício apresentado no metaquadrinho geral da página, em que cada andar situa-se numa época diferente, distante um do outro por exatas duas décadas. Fora alguns elementos gráficos usados para situar o leitor no período em que cada andar (ou cada painel da página) se encontra, como a marcação do ano à esquerda ou mesmo calendários, jornais e cartazes dentro dos quadrinhos, há ainda um elemento constante: a figura caricata de uma pessoa vestida sempre de verde com seus óculos de aros redondos. Dependendo de que ano está (ou em que painel aparece), esta pessoa encontra-se na sua infância, adolescência, adultez ou senescência. Nesta bem contada "ginástica narrativa", os autores entregam o poder de decidir a ordem de leitura para seus leitores, permitindo-os percorrer a história seja verticalmente, através das décadas (ou dos painéis), ou horizontalmente, mantendo-se sempre estacionado em um mesmo ano (ao longo das páginas). Mais uma vez, o leitor tem a capacidade de decidir a ordem da passagem do tempo que deseja, vislumbrando o todo nos distantes 60 anos que separam o primeiro painel do último e escolhendo se quer percorrê-los sincrônica ou diacronicamente.

*Curioso observar como os temas "perseguição" e "prédio" são recorrentes neste exemplos...

Para finalizar, apresento uma imagem, também bastante simbólica, de Promothea, por Alan Moore e o sempre excelente J.H.Williams. As duas personagens percorrem uma certa passarela em forma da Alça de Möbius (ou lemniscata), que representa o símbolo do infinito. Em determinado instante, uma das personagens percebe a sua presença em outro ponto da calçada, mas alguns minutos atrás, e chega a apontar para si mesma do passado. A outra personagem, noutro momento, comenta estar tendo uma sensação de déjà vu por achar já ter passado por aquele caminho antes. Cabe ao leitor, se assim o decidir, escolher ativamente mudar de página ou ficar revisitando este loop, apresentado tanto em sua totalidade (simultaneidade) quanto em suas particularidades (sequencialidade). Finalmente, uma das personagens se dá conta de que este loop em que se encontram serpenteia não só pelo espaço, como pelo tempo. E assim o ciclo se fecha, pois a metalinguagem presente neste metaquadrinho aponta diretamente à mídia em que se encontra, uma mídia cujo tempo se apresenta como espaço, e vice-versa, permitindo infinitas possibilidades àqueles autores que ousarem subverter e brincar com a passagem do tempo nos quadrinhos.


-THE END-



ADENDO:
Graças à sugestão da (também palestrante) Raquel Perrine, acrescento neste post passagens de outra obra de Alan Moore: Do Inferno. No início de seu segundo capítulo, há uma página inteira completamente no escuro (deixando também o leitor exatamente "no escuro"), com quadrinhos aparentemente non sequitur, havendo uma única constante: a misteriosa indagação "O que é a quarta dimensão?".

A medida que o capítulo transcorre, o leitor percebe que esta primeira página apresenta glimpses da vida do personagem William Gull, cada painel representando uma passagem ou momento específico que ele vivenciou. A repetição da pergunta indica ao leitor como o tempo está sendo manipulado aqui, retratado espacialmente numa única página. Mais à frente, é mostrada a teoria de C. Howard Hinton, filho de um dos personagens do diálogo abaixo, apresentada numa monografia intitulada O que é a quarta dimensão? Segundo ela, o tempo seria uma ilusão humana, pois "todas as eras coexistiriam no todo estupendo da humanidade", como "padrões quadridimensionais no interior do Monolito da Eternidade". A quarta dimensão, para Gull, seria uma espécie de arquitetura do tempo, dentro da qual diferentes níveis temporais seriam relacionados a outros. Quase como a estrutura da página de um quadrinho e sua relação com outros quadrinhos na história.

O Monolito da Eternidade nos remete, novamente, à joia intrincada preconizada por Dr. Manhattan no início deste post. Assim, recomendo também, obviamente, a leitura do capítulo IV de Watchmen, que dá ao leitor uma mostra (e um gostinho experimentá-lo) de como o Dr. Manhattan vê o mundo e percebe a passagem do tempo, num jogo de enquadramentos cuja experiência só os quadrinhos podem passar.

Agradecimentos:
À organização da Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos da UnB, o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, pela oportunidade.
À minha esposa, Úrsula, pela paciência e ajuda com os slides.
À Gabi, pela ajuda com o power point.
Ao Guilherme, brother in arms deste blog (que também apresentou uma palestra, vide o post anterior), por ter me metido nesta enrascada.
Ao Ciro I. Marcondes, do Raio Laser (também palestrante), pela sugestão do livro Narrativa Cinematográfica.
A todos que assistiram a palestra, meu muitíssimo obrigado!


Quadro sugerido: Paradise, de Lucas Cranach der Ältere.
Trabalho acadêmico sugerido: Alan Moore and Graphic Novel: confronting the fourth dimension, disponível aqui.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Algumas leituras recentes

Fazia um tempo que não escrevia aqui, mas estou de volta. Vou aproveitar para comentar as histórias que li nesse período de ausência, partindo do princípio que sempre tem alguém que vê um encadernado nas lojas e gostaria de ter uma opinião. Bom, pelo menos eu sou assim. E como existem revistas novas e outra antigas nesse grupo de potenciais compras, vou simplesmente comentar tudo o que li nesses meses.

Oceano
Oceano é a primeira da lista porque foi a que mais gostei. Há que se considerar que eu já estava com vontade de comprá-la há um tempo, que eu gosto da estética do espaço sideral e que gosto de Warren Ellis. Mas nem por isso quer dizer que não teria senso crítico em relação a obra, além do que minha expectativa já estava alta, somando todos os fatores.
Para quem gosta de ficção futurista, principalmente as que se passam no espaço, essa é uma boa história, que no caso está no formato de quadrinhos. Poderia ser um livro, poderia ser um filme. Aliás, a linguagem que o autor usa nessa história é bastante cinematográfica. As imagens estão bem bonitas, souberam aproveitar a beleza do espaço sideral e dar a ele seu devido espaço (desculpe o trocadilho infame) nas páginas do encadernado. O tema é interessante: uma história de mistério entremeada por uma visão de futuro, da exploração espacial e da humanidade. Recomendo muito esse encadernado!

Transmetropolitan
Já que comecei com uma obra de Warren Ellis, vou dar sequência com outras. Transmetropolitan também se passa no futuro, mas esqueça as belas visões dos planetas e estrelas... Aqui o tema central é a Terra, mais precisamente uma imensa cidade, para a qual o protagonista é forçado a voltar após anos de isolamento. Os desenhos são sujos, representando a visão de futuro retratada, principalmente no que tange centros urbanos, diferenças econômicas e sociais, megaempresas, seitas religiosas (ou pseudorreligiosas)... Aparentemente Ellis dá vazão a todo o seu pessimismo em relação ao futuro da humanidade nessa história, e através da voz de Spider Jerusalem liberta todo o seu criticismo em relação aos asssuntos abordados. Boa história, aguardo a continuação...

RED
Também li RED, do mesmo autor. Trata-se de uma revista em 74 páginas sobre um ex-agente secreto, ex-mercenário ou ex-algo-do-tipo que tava quieto, curtindo uma folga, até mexerem com ele. Foi a história na qual se basearam para fazer o filme de mesmo nome (que, confesso, ainda não assisti). Bom, é uma história legal, mas é bem rápida. Em uma sentada você lê inteira. Não tem a mesma profundidade e riqueza que as obras do Ellis em geral têm, mas é divertida.

O Invencível Homem de Ferro: Extremis
Para fechar a sequência de obras do Warren Ellis, Extremis. OK, trata-se de uma história do Homem de Ferro, personagem que nunca me agradou muito nos quadrinhos, com exceção de uma certa saga da armadura viva. Acredito que escritor bom pega qualquer personagem e faz uma boa história. É o caso em Extremis. Não existe nada de muito diferente das histórias comuns do Homem de Ferro, no que tange a ambientação, mas tem a pegada do Ellis. Além disso, ele realmente transformou o Tony Stark em um verdadeiro homem-máquina. Não quero estragar a surpresa para quem ainda não leu...

Tocha Humana: Recriando uma Lenda

Saio das obras de Ellis, mas como falei no Homem de Ferro, começo a sequência Marvel, já com um grande autor, que é Alex Ross. Comentei em post anterior a qualidade de suas obras em uma das minhas favoritas, que é Os maiores super-heróis do mundo. Em Tocha, a arte não é dele, nem o roteiro, mas a história foi escrita por ele e Mike Carey. Não sei se por influência do pintor de quadrinhos ou não, a história ficou bem legal. Ele tira da sepultura (embora não tenha sido o primeiro) o Tocha Humana original (aquele da Segunda Guerra Mundial, que lutou ao lado do Capitão América e Namor) e remonta o quebra-cabeça de sua origem. Dá um novo ar ao personagem, que não retornou com sua compaixão, e um drama especial em relação a sua própria longevidade, além de colocá-lo dentro de uma história, no mínimo, peculiar. Vale a pena essa minissérie em duas edições, mesmo para aqueles que não acompanharam a história do Tocha original ou não se interessam muito pelo personagem, como eu.

Mitos Marvel
Falando em origens, o encadernado Mitos Marvel apresenta uma releitura dos mais famosos heróis da Marvel, como Quarteto Fantástico e Homem-Aranha. Trata-se de um releitura mais atualizada, moderna... legal, mas também não traz nada de novo ou muito original. Para quem não conhece muito bem o mundo dos super-heróis da Marvel e estiver interessado em uma leitura sobre suas origens, é uma boa compra.


Magneto: Testamento
Um outro caso é Magneto: Testamento. Sua origem é remontada com bastante precisão histórica. Todos sabem que Magneto foi um refugiado judeu dos campos de concentração nazista, mas nunca tinham parado para contar como ele realizou essa proeza, principalmente levando em conta que só foi desenvolver seus poderes muito tempo depois. Na minha opinião, a maior qualidade da obra pode ser considerada também seu maior defeito. Como disse, Magneto não desenvolveu seus poderes no período. Então, os leitores que estiverem esperando o vilão fantasiado, ou mesmo um momento de fúria em que seus poderes se manifestam temporiamente, vão se frustrar. Por outro lado, a história é bem verossímil e poderia ser muito bem a narração de sobrevivência de um judeu qualquer, sem poderes.

Wolverine: Inimigo de Estado
Boa história. Ambientada no cenário mais atual da Marvel, com a retomada do conceito Wolverine: máquina de matar. Um tanto exagerada, como não é raro nos roteiros de Mark Millar. Enredo bem amarrado, conta com a participação também de outros personagens do universo Marvel e consegue prender a atenção e interesse do leitor. Fazia tempo que eu não lia Wolverine. Desde que ele se tornou o personagem megapop da Marvel, tendo história própria, nos X-Men e também nos Vingadores, enjoei um pouco. Wolverine: Inimigo de Estado, porém, valeu a pena.

Enciclopédia Marvel: Surfista Prateado
Achei a leitura um pouco cansativa. E também houve uma quebra de expectativa, pois esperava ler as primeiras histórias do Surfista: o planeta sendo tomado por Galactus, ele se transformando em seu arauto, o ataque do devorador de mundos à Terra, a revolta do Surfista e sua prisão ao nosso planeta. Só que a Enciclopédia Marvel: Surfista Prateado narra exatamente a fase posterior a isso, ou seja, ele preso à Terra e tentando escapar dela. Aparentemente foi o período de maior sucesso do personagem. As reflexões dele sobre os terráqueos também foram legais. Contudo, achei seus constantes pensamentos melodramáticos um tanto chatos, e as histórias não fluem muito bem. Enfim, essa leitura eu não recomendo, a não ser aos fãs incondicionais do Surfista Prateado, ou àqueles que conhecem essa fase específica e gostariam de ler.

Liga da Justiça por Grant Morrison
Muito boas as histórias desse encadernado. Bem ao estilo Liga da Justiça mesmo - grandiosas, ameças cataclísmicas -, com o estilo do Grant Morrison, autor que eu particularmente gosto. É verdade que só li as histórias porque foram escritas por ele (eu e o Rodrigo, atualmente, compramos mais pelos nomes dos autores do que pelos personagens da capa). Histórias de aventura, também um tanto exageradas, em uma formação da Liga com alguns dos personagens mais marcantes da DC. Já li algumas edições posteriores, que vão além do encadernado, e vejo que vale a pena. Tomara que não interrompam a publicação dos encadernados no Brasil, que a Liga da Justiça de Grant Morrison não fique apenas no volume 1.


Pixu
Pixu está numa linha mais alternativa de quadrinhos. Publicado pela Devir Livraria, narra uma história de terror com arte em preto e branco. Ou melhor, preto, branco e tons de cinza. Quando digo arte em preto, branco e tons de cinza, quero dizer que ela foi feita assim mesmo, nada a ver com aquelas versões econômicas de material estrangeiro. O uso dessa arte é, aliás, um de seus pontos fortes: dar um ar mais sombrio à obra. O enredo é interessante, original (bom, pelo menos para mim, mas não sou grande conhecedor de histórias de terror). O tipo de terror que eu gosto, em que o foco é na tensão, no suspense, no mistério. E é a história que te deixa apreensivo, não a quantidade de sangue. Leitura rápida também. Uma boa parte dos quadrinhos não tem texto, e mesmo que você passe lentamente por eles, não deve demorar mais que duas sentadas para terminar a leitura. Mas vale a pena.


EntreQuadros #1
Essa eu encontrei, por acaso, em um banca muito específica daqui de Brasília. Publicação independente de Mário César, com o selo Quarto Mundo. Algumas histórias curtas e divertidas, um tanto inusitadas e com uma boa dose de humor. Leitura rápida, bem rápida. De preço acessível, bem acessível (R$5,00). Não deve ser fácil encontrá-la em qualquer lugar para compra, por isso indico o site do Mário, http://www.masquemario.net/, a quem estiver interessado.

Zoo
Outra obra que li mais ou menos no mesmo período que as demais foi Zoo, de Nestablo Ramos, um autor aqui de Brasília. Porém, como já escrevi um post só sobre ela, quem quiser saber minha opinião sobre a obra pode ler o post mais antigo. Aqui, basta dizer que a obra ganhou o troféu Bigorna e que aguardo ansiosamente a continuação (prevista para Outubro, na Festcomics). E, como já me perguntaram onde comprar, em Brasília só vi a obra sendo vendida na Livraria Cultura. Indico também o site http://projetozoo.blogspot.com/, que tem um banner para compra.

Eu sou Legião
História de conspiração, envolvendo nazismo e o sobrenatural. Trama intrigante, bem amarrada, que mistura eventos totalmente verossímeis com o sobrenatural de uma maneira muito bem arquitetada. Um monte de personagens e bastante informação. Eu sou Legião é o tipo do encadernado que tem que ler com atenção aos detalhes, e preferencialmente ler mais de uma vez, para que após o final, algumas outras peças se encaixem na releitura. Leitura densa, mais lenta. Só não gostei muito das quebras de página, mas isso é um detalhe muito técnico, que de forma nenhuma prejudica a qualidade da obra.


Um Sinal do Espaço
Muito bom. Apesar de antiga, a história é bem interessante, envolvente. Tem lá suas limitações ligadas ao tempo em que foi produzida, mas não deixa de ser atual. Praticamente um policial, com uma dose de conspiração. Vi algumas semelhanças com essa história e Contato (o filme. Ainda não li o livro, embora já o tenha. Me disseram que são bem diferentes...). O enredo flui e vai gerando uma curiosidade em relação ao próximo capítulo. Destaque especial para arte de Eisner, que trabalha sua técnica de não utilizar a divisão em "requadros rígidos" (o quadrinho convencional) de maneira inigualável. Em diversas páginas ele usa o que chama, no seu livro Quadrinhos e Arte Sequencial, de "página como metaquadrinho". Aí vemos coisas fantásticas, como o desenho de um túnel ou formato do interior de um avião sendo usados como delimitação do quadrinho, no lugar dos quadrinhos convencionais.
Pequenos Milagres
Will Eisner também, então já é de se esperar algo de qualidade. Em Pequenos Milagres, o autor narra quatro histórias que se passam em um bairro judeu. Como ele mesmo diz, na abertura do romance gráfico, "os contos neste livro se parecem com as histórias que meus pais chamavam de 'meinsas'. E, embora sem apócrifos, eles foram destilados das minhas lembranças, que eram um patrimônio comum da nossa família". Quatro histórias interessantes e, de alguma maneira, tocantes. Leitura rápida, e de boa qualidade.

The Spirit: As Novas Aventuras
The Spirit: as novas aventuras reúne histórias do personagem The Spirit, mas não as escritas por Eisner, seu criador. A proposta foi justamente pegar grandes nomes dos quadrinhos atuais para que eles pudessem escrever histórias com o personagem, em uma espécie de homenagem. Trata-se de uma compilação de histórias interessantes, com destaque especial para as primeiras, escritas por ninguém menos que Alan Moore. Não é preciso já conhecer The Spirit nem ter lido nada dele. Vale a pena!

The Boys: o Nome do Jogo
Uma visão completamente diferente dos super-heróis. Ou melhor, dos seres com superpoderes que se intitulam super-heróis, mas na verdade são pessoas muitas vezes vaidosas e prepotentes, quando não mimadas, que estão apenas interessadas no retorno de vendas dos seus produtos. E os "garotos" que dão o nome a obra, no caso, formam uma equipe com a incumbência de segurar esse pessoal. Para quem está afim de novidade, de um enfoque diferente sobre um planeta com superseres, The Boys é uma boa pedida.

Os escapistas
Taí uma revista que trabalha a metalinguagem já em sua proposta. Trata-se de uma história em quadrinhos sobre alguém que faz história em quadrinhos. A história real de sua luta incansável para produzir quadrinhos. Em determinados momentos, trechos do Escapista - personagem que ele resgatou do fundo do baú - em situações que representam o próprio autor, tentando se livrar das dificuldades e problemas que apareceram no caminho. Os escapistas retrata o verdadeiro sonho de muitos leitores de quadrinhos, que não é o impossível "ser um herói com superpoderes", e sim o de trabalhar com quadrinhos, ou criar seu próprio personagem e que ele faça sucesso. De quebra, ainda é uma miniautobiografia (acho que bati meu recorde de prefixos nessa) do autor. Recomendo para leitores que tenham esse sonho.

Então é isso! No momento estou lendo Do Inferno, não sei se vou escrever sobre essa obra, porque pretendo ainda fazer um post só sobre Alan Moore. Tenho aqui, além dele, o terceiro volume da Liga Extraordinária. Então, quem sabe em um post futuro eu comente essas duas obras, e outras que estão na minha prateleira, só esperando para serem lidas, tais como Jogos de Poder, The umbrella academy: A Suíte do Apocalipse, Camelot 3000, O Chinês Americano... Se alguém quiser que eu comente uma obra específica, diga o nome nos comentários que se eu já tiver lido ou um dia ler, comento em outro post.