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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Milagres, Maravilhas e plágios

ENTENDA DE UMA VEZ POR TODAS TODO O CASO MIRACLEMAN/MARVELMAN!

Era uma vez um personagem chamado Capitão Marvel. Assim como a grande maioria dos assim recém-nomeados "super-heróis", ele tinha à sua disposição um leque de poderes que incluía a famosa trindade voo/superforça/invulnerabilidade*. Porém, diferentemente das dezenas de outros super-heróis surgidos durante a Era de Ouro, o Capitão Marvel apresentava um desafio à altura do primeiro deles, Super-Homem, pois o alter ego de Billy Batson vendia, e muito - mais até que o Homem de Aço à época! Devido a isso, a National Comics (que depois se tornaria a famosa DC Comics) impetrou uma ação na justiça acusando o Mortal Mais Poderoso da Terra de plágio do Super, e assim a Fawcett Comics, que publicava o Capitão Marvel, não tendo tanto dinheiro como a National (DC), parou de publicá-lo (e toda a Família Marvel) em 1953.

Enquanto isso, no Reino Unido, a L. Miller & Son, responsável por publicar a Família Marvel na Inglaterra, não estava disposta a desistir de sua maior fonte de renda. Assim, solicitou ao criador Mick Anglo que achasse um substituto. A revista Capitão Marvel #24 foi sucedida no mês seguinte pela revista Marvelman #25. Numa jogada de mestre, Mick Anglo retirou a capa do personagem, mudou seu cabelo para loiro e alterou a frase de poder Shazam para Kimota (a aliteração de Billy Batson se manteve em Micky Moran). E assim nascia um novo super-herói. A revista Marvelman durou até 1963. Marvelman chegou a ser publicado no Brasil, juntamente com Capitão Marvel, mesmo durante as décadas de 50 e 60, e aqui nas terras tupiniquins recebeu o nome de Jack Marvel (?!?) - com as iniciais "MM" de seu peito muitas vezes apagadas.


Aproveitando o lapso deixado pelo nome e a marca, a editora Marvel Comics, durante a Era de Prata, pegou o nome "Capitão Marvel" e lançou seu próprio personagem, o herói alienígena da raça Kree que durante algum tempo trocava de corpos com o adolescente Rick Jones**. Desde 1967, a Marvel Comics é detentora dos direitos de estampar na capa uma revista chamada "Capitão Marvel". Para não perder os direitos do nome, a Marvel Comics sempre lança, periodicamente, alguma revista, minissérie ou personagem novo com o mesmo título, Captain Marvel no original (por isso a quantidade exagerada de personagens na editora que já dividiram o mesmo nom de guerre, incluindo algumas personagens femininas até).

Devido a isso, quando, em 1972, a DC Comics conseguiu comprar o personagem mítico da Fawcett Comics, não pode estampar seu nome nas capas das revistas em que era publicado, em seu lugar decidindo estampar o nome Shazam! E foi desta forma que o personagem da DC ficou conhecidíssimo, principalmente no Brasil, não como Capitão Marvel, mas como Shazam, como se este fosse seu verdadeiro nome. ***

Durante o início da década de 80, um escritor inglês debutante apaixonado pela Era de Ouro foi chamado pela revista britânica Warrior para trabalhar sobre um antigo personagem. Foi assim que Alan Moore começou sua legendária fase reidealizando Marvelman. Moore repaginou o personagem, imaginando um envelhecido Michael Moran tendo sonhos sobre antigas aventuras passadas há quase duas décadas nas quais tinha poderes sobre-humanos e a capacidade de voar. Dentro da história de Moore, o personagem Marvelman havia deixado de existir como tal em 1963 (ano da última publicação do personagem), recuperando sua memória e antigos poderes por volta de 1980 (quando começava a nova história), desconstruindo-o e reconstruindo-o totalmente. Alan Moore criou todo um background novo para explicar não só o sumiço do personagem neste ínterim como também para trazer uma noção mais realista ou verossímil das origens e poderes da Era de Ouro de acordo com visão moderna de super-heróis.


Ao mesmo tempo em que isso se dava, Moore também ficou a cargo das histórias do personagem Capitão Bretanha (ou, como ficou mais conhecido, Capitão Britânia) para a Marvel UK, divisão britânica da editora. Em uma de suas primeiras histórias, Alan Moore e Alan Davis fizeram uma homenagem ao personagem e o inseriram nas aventuras do Capitão Britânia, apenas para matá-lo logo em seguida. Para evitar problemas, nomearam esta aparição especial de Miracleman.


Esta mesma Marvel Comics que empregava Alan Moore para escrever Capitão Britânia entrou com um processo contra a Warrior impedindo que a revista estampasse a palavra "Marvel" em suas capas, e os donos da pequena Warrior não tinham dinheiro para ir legalmente contra a toda-poderosa editora americana.

Mas eis que uma editora americana conhecida como Eclipse Comics passou a publicar o personagem, agora em cores, em solo americano, renomeando-o - adivinhem - como Miracleman para evitar possíveis processos judiciais. E foi assim que o personagem teve 24 edições publicadas, as 16 primeiras por Alan Moore, e as seguintes escritas por Neil Gaiman. Houve ainda algumas edições apócrifas, e o leque total de participantes (entre escritores e desenhistas) é invejável, figurando Mark Buckingham, um incipiente Alex Ross, Gary Leach, Alan Davis, Rick Veitch, John Totleben, Kurt Busiek, Matt Wagner, James Robinson e outros. A fase da Eclipse, sob o nome Miracleman, foi a pela qual o personagem mais ficou conhecido. Infelizmente, a editora faliu antes de concluir toda a saga proposta para o herói.

As questões legais de publicação do personagem nos Estados Unidos apenas com a alteração do nome para Miracleman foi um dos motivos pelos quais Alan Moore declarou nunca mais trabalhar para a Marvel Comics. Outros fatores foram a editora republicar sem sua permissão histórias do Capitão Bretanha (e algumas do Dr. Who) e usar uma chamada para atrair leitores com o slogan "Marvel tem Moore", mas referindo-se ao escritor John Francis Moore.

Na DC Comics, no entanto, Alan Moore fez diversos trabalhos, entre os quais um dos mais marcantes e conhecidos foi Watchmen, revisitando e repaginando antigos heróis da Charlton Comics, editora recém-comprada pela DC, mas alterando seus nomes e personalidades e poderes (Capitão Átomo virou Dr. Manhattan, Besouro Azul virou o Coruja, Questão virou Rorschach etc.). Porém, esta mesma obra foi o motivo pelo qual Alan Moore decidiu também deixar de trabalhar para a editora de Super-Homem. Pelas cláusulas contratuais, Watchmen e seus personagens pertencem à DC Comics, só passando a serem de Alan Moore e Dave Gibbons um ano após a editora parar de publicá-los. Ocorre que Watchmen nunca parou de ser publicada desde 1986, deixando seus direitos para sempre nas mãos da DC. Moore jurou nunca mais escrever tanto para a DC quanto para a Marvel. ****

Este litígio entre os detentores de direitos de personagens foi um dos motivos responsáveis pelo chamado "X-odus", o êxodo de diversos artistas, principalmente da Marvel Comics, para fundar a Image Comics. Entre eles, estavam Jim Lee e Todd Mcfarlane. Todd inventou o personagem Spawn, e em determinado momento chamou alguns escritores de peso para escreverem edições com o Soldado do Inferno. Alan Moore e Neil Gaiman estavam entre os convidados. Na edição número 9, Neil Gaiman introduziu três personagens ao universo do Spawn: Spawn Medieval, Cogliostro e a famosa Ângela. Todd Mcfarlane nunca pagou a Neil Gaiman o devido pelo uso destes personagens em outras publicações e outras mídias. Neil Gaiman entrou então com um processo na justiça para ter direitos sobre os personagens que criou.

Neste ínterim, Todd Mcfarlane comprou os espólios da Eclipse Comics, e se sentiu no direito de incluir os personagens da extinta editora em suas histórias do Spawn, chegando inclusive a lançar uma estatueta do personagem Miracleman com a seguinte inscrição abaixo: "Miracleman is a trademark of Todd McFarlane Productions, Inc. The Miracleman action figure is (copyright) 2003 Todd McFarlane Production". As decisões foram unânimes em favor de Neil Gaiman, e Todd - ironicamente cofundador da Image Comics num momento de reivindicação dos direitos dos personagens - transformou a figura que havia aparecido em sua linha Spawn rebatizado como Man of Miracles (?!?).

Neil Gaiman, para conseguir dinheiro para manter a causa na justiça, escreveu a minissérie 1602 para a Marvel Comics e fundou a Marvels and Miracles LLC. Assim, ficou-se acordado que os direitos sobre os personagens que Neil fez para Spawn permaneceriam com Todd, e em troca Neil deteria os direitos sobre Miracleman. Ao que parece, Neil e Alan Moore concordaram em doar todos os valores relativos ao personagem para Mick Anglo e sua família. Finalmente, o personagem voltou a seu criador.

Em 2009, durante a San Diego Comic Con, Joe Quesada deu a bombástica informação: a Marvel Comics havia adquirido os direitos sobre Miracleman diretamente de Mick Anglo. Assim, o personagem voltou ao seu antigo nome, tornando-se mais uma vez Marvelman. No final de 2011, Mick Anglo, criador do herói, faleceu. A expectativa agora é que a Marvel Comics, além de relançar todos as histórias antigas, relance ainda a fase de Alan Moore e Neil Gaiman escrita na década de 80 e de 90. Os fãs aguardam ansiosamente a publicação deste material de forma completa. Quem sabe, com Neil Gaiman escrevendo material inédito, as famosas fases Bronze Ages e Dark Ages que já havia previsto para o personagem e que nunca pôde concretizar.

* Apenas por curiosidade, pegue o encadernado de Projeto Superpowers e jogue na internet o nome de todos

os heróis da Era de Ouro que lá aparecem para comparar seus poderes. Cerca de 80% deles compartilha a

trindade voo/superforça/invulnerabilidade.

** Entenda todas as semelhanças/dessemelhanças entre os Capitães Marvel aqui em: http://ficcaohq.blogspot.com/2010/10/irreverencia-ou-copia.html

*** Agora em janeiro de 2012 o escritor Geoff Johns declarou que, como o público em geral já associa a palavra Shazam ao personagem Capitão Marvel, e para cortar qualquer ligação ao nome "marvel", no novo universo DC o alter ego de Billy Batson vai se chamar definitivamente SHAZAM.

**** Um dos estúdios fundadores da Image Comics, WildStorm, foi o responsável por publicar algumas das mais recentes HQs de Alan Moore, dentre as quais Promethea, Top10, Tom Strong e Liga Extraordinária, por meio do selo America´s Best Comics. Porém, com a venda da WildStorm para a DC Comics em 1999, indiretamente Alan Moore passou a escrever para a DC novamente, mesmo sem o saber.

Mais Miracleman / Marvelman em breve aqui no Ficção HQ!




Links sugeridos para saber mais a história toda:

http://www.worldsgreatestcritic.com/miraclemansaga.html

http://miraclemen.info/history/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Marvelman

http://www.sedentario.org/colunas/miracleman-%E2%80%93-nada-se-cria-tudo-se-copia-comics-addicted-5-1673

http://omelete.uol.com.br/quadrinhos/miracleman-o-plagio-que-deu-certo/

http://www.marvunapp.com/Appendix/miracl.htm

http://www.leylander.org/intercom/marvelman/

terça-feira, 8 de março de 2011

Mulheres de Ficção e de HQs

   Bem-vindos a mais um Dia Internacional das Mulheres aqui no Ficção HQ. Assim como no ano passado prestamos uma homenagem a algumas beldades do sexo feminino nos quadrinhos, neste falarei um pouco sobre algumas outras, menos conhecidas, que ficaram de fora, mas que poderiam muito bem estar presentes na minha primeira lista, e o porquê de eu gostar delas.
Sue Dibny_ única coadjuvante a ser membro integral da Liga da Justiça, esta personagem foi marcante para aqueles que se lembram da versão Europa da Liga da Justiça Internacional. A esposa do Homem-Elástico era uma mulher forte, decidida, independente, perspicaz e sagaz, e -para mim pelo menos - sua morte foi o verdadeiro impacto da série Crise Identidade (sim, mais impactante até que as memórias apagadas). Nada mais a dizer, exceto a frase de seu marido, abaixo:


Outra esposa de super-herói que também apoia (ou apoiava; maldito Joe Quesada e seu One More Day) o marido sempre é Mary Jane Watson, a modelo internacional com que todo nerd gostaria de se casar. Bom, MJ é a MJ, e a ruivinha de covinhas merece um post só pra ela, por isso não vou me alongar mais aqui.

Promethea_ tudo o que a Mulher-Maravilha deveria ser mas não consegue, a mulher ideal (e quando falo ideal me refiro exatamente ao conceito platônico do Mundo das Ideias, ou sua versão alanmooreana: Imatéria). Heroína, deusa, mito, inspiração, musa, mulher. Essa personagem consegue reunir em si todas essas personas, e muito mais, por isso a pus nesta lista. Precisa falar mais?

Emma Frost_ talvez aqui eu entre em polêmica, mas vamos lá. Originalmente uma vilã para rivalizar o caráter docente de Charles Xavier, compartilhando com o professor os mesmos poderes, Grant Morrison a trouxe para o lado dos X-Men e a fez uma das mocinhas. Pior (ou melhor) ainda, tornou-a amante de Ciclope, e fez a personagem desbancar Jean, acabando com um dos relacionamentos mais engessados da história dos quadrinhos americanos. A partir de então o caráter dúbio da moça só evoluiu: amadureceu Scott tanto emotiva quanto sexualmente, tomou as rédeas do próprio Instituto, ocupou o lugar de Xavier como seu representante, mais recentemente apareceu fazendo parte da Cabala, a resposta vilanesca ao grupo dos Illuminati. Parabéns, Emma, conseguiu dividir os fãs dos mutantes entre aqueles que a odeiam e aqueles que a adoram, bem jus à sua própria dubiedade enquanto personagem fictícia. Eu sou do time pró-Emma, uma das grandes responsáveis por balançar e revolucionar o status quo mutante. E sua roupa a la dominatrix também ajuda...


Vespa_ dona de um poder bosta, a ex-mocinha cabeça vazia que só servia para ser resgatada pelos outros acabou tornando-se líder dos Vingadores, e uma de suas principais lideranças depois do Capitão América. Apanhou do marido, numa excelente mostra do amadurecimento dos quadrinhos de super-heróis e sua ligação com a realidade, e deu a volta por cima. Sua versão Ultimate é ótima, como representante mutante dos Supremos, embora mais dondoquinha, e suas características orgânicas expostas pelo marido num momento de fúria foi um ponto alto no primeiro arco dos "Vingadores militaristas pós-11 de setembro" que são os Supremos. Janet van Dyne ainda ostenta o recorde de possuir o maior número de uniformes da história dos quadrinhos!

Elektra_ uma filha de um milionário grego que é... ninja! Independente, sedutora, pancou quatro superskrulls sozinha durante a Invasão Secreta, controla o Tentáculo, encarou no mano a mano o Wolverine assassino durante o arco Inimigo do Estado, uma artista marcial excelente que

não precisa ter superpoderes para figurar entre os maiorais da Marvel. Elektra é um mistério perigosamente instigante...


Miraclewoman_ quem conhece a versão de Alan Moore e de Neil Gaiman para o personagem Miracleman (que é leitura OBRIGATÓRIA para qualquer um que goste de quadrinhos adultos de super-heróis) vai perceber que ela é a verdadeira cabeça por trás do Olympus e da Golden Age trazidos pelos heróis-deuses perfeitos, pois é a Miraclewoman quem controla Miracleman, o homem mais poderoso do mundo. Isso lhe dá um caráter duvidoso de heroína e vilã ao mesmo tempo, ao vermos como ela é manipuladora e titereira. Mas não forçada ou propositadamente, ela apenas o é, como muitas mulheres da vida real o são. Fisicamente perfeita, inteligente, com pensamentos "fora da caixa", foi a idealizadora do conceito testado na Terra para acabar com a eterna rixa entre as raças alienígenas dos Qys e dos Warpsmiths: "(ao invés das labutas estúpidas de uma guerra inútil) não seria melhor fazer sexo?" A vênus de "dedos que poderiam esmagar carvão até torná-lo diamante" e de "lábios que poderiam sugar o coração de uma estrela", criadora do voo nupcial - que abordarei em um post futuro - fala mais sobre isso ao lado...




Magia_ a irmã caçula de Colossus sempre foi uma personagem que me trouxe fascínio. Eu apreciava seu conceito de lado negro escondido, da bela moça virginal dos Novos Mutantes que escondia um lado perverso e demoníaco em seu interior, por conta de seu conturbado desenvolvimento de criança para mulher no Limbo quando foi raptada pelo demônio Belasco. Gostava também de seu caráter um pouco sexualizada, misto de infância junto com corrupção. Uma verdadeira metáfora para a adolescência em si, como é o aparecimento dos poderes mutantes no universo do homo superior da editora. Para quem conheceu a Illyana Rasputin no início, quando ainda era uma menininha que gostava que Kitty Pryde lhe contasse histórias de ninar, conhecê-la na forma de Magia, senhora e rainha do Limbo, onde seu poder era supremo, foi uma evolução marcante da personagem, que trouxe todos esses aspectos conflitantes à tona. Pena que ela nunca foi tão bem aproveitada quanto poderia...

Da mesma forma vejo Adaga, dona de um dos mais belos uniformes femininos, com sua relação esquisita fraterna/sexual/simbiótica e de codependência com Manto, misto de antagonismo e afeto recíproco, também uma metáfora para as drogas, fonte inclusive de seus poderes. Uma personagem triste, urbana, real, sem muito do glamour que geralmente acompanha as super-heroínas.

Cristal_ uma heroína geralmente deixada a escanteio, mas que certa época foi protagonista nos X-Men, a loirinha é uma cantora de sucesso, com um poder que tanto serve no combate ao crime quanto nas suas performances nos palcos (Cristal é muuuuito poderosa), o que poucos no Brasil tiveram a chance de saber é que, durante um curtíssimo período de tempo, Alison Blaire já foi arauto do próprio Galactus, que a escolheu por ser capaz de gerar luz dentro de um buraco negro. Além do mais, a mutante cantora também foi a preferida do Beyonder, quando este encarnou num corpo humano e passou a morar na Terra, e a selecionou dentre todas as mulheres do mundo. Pouca coisa ou não?

Arlequina_ atleta, psiquiatra, a vilã louquinha, por algum motivo, me cativou. Não sei se por sua obsessão por um dos criminosos mais insanos e perigosos, não sei se por sua "inocência sádica", se é que isso existe, ou apenas por sua loucura mesmo: uma mulher capaz de ser tão louca quanto o Coringa, a parceira perfeita para este. Sua representação no jogo Batman: Arkham Asylum está assustadora e psicoticamente bela:
Questão_ outra oriunda do universo do morcego que também conquistou meu apreço foi a policial Renee Montoya, desde a série Gotham City Contra o Crime, até depois, quando assumiu o legado para ser a nova Questã. Detetive séria, com um passado a lhe perseguir, essa latina foi uma das primeiras personagens a se mostrar publicamente lésbica nos quadrinhos, e o arco em que isso ocorre foi ganhador de vários prêmios. Mais um ponto a mais para a personalidade de Montoya, que tem a sorte de só pegar mulher mais linda que ela ainda!
Zatanna_ outra heroína que vem pouco a pouco me cativando. Quando a conheci ela ainda fazia parte de uma das primeiras formações da Liga, com um uniforme meio modernoso, bem mais ou menos. Mas ultimamente a maga tem recebido boa atenção por parte dos roteiristas, principalmente Paul Dini, e se mostrado uma das principais heroínas da DC. Muito boa sua história dentro dos Sete Soldados da Vitória, em que, mesmo sem usar seus superpoderes, ficamos por dentro da vida pessoal sempre conturbada dessa morena. Outra personagem cuja roupa fetichista ajuda a alavancar sua popularidade, se bem que Zatanna, por si só, por sua personalidade e complexidade, já poderia ser bem popular.
Júlia Kendall_ minha experiência anterior com fumetti era apenas e basicamente Tex. Até eu conhecer a Júlia. Sempre ouvia dizer nos fóruns pela internet o quanto esta série era boa, até finalmente eu ter em mãos alguns exemplares das Aventuras de uma Criminóloga. Sua imagem, inspirada abertamente em Audrey Hepburn, só ajuda a termos simpatia cada vez maior por esta personagem. Júlia além de linda é inteligente, sensível, intuitiva, meiga, profissional, frágil e ao mesmo tempo forte (é, parece que eu gosto mesmo de características conflitantes e paradoxais). A série mensal de Júlia aqui no Brasil está em perigo de cancelamento, por isso aderi à campanha:Salvem Júlia! Basta cada um que a conhecer comprar um exemplar das bancas e presentear alguém que você ache que vai gostar. É certeiro, não importa a edição do mês, a história é sempre de alto nível, e se assim conseguirmos angariar mais fãs para a criminóloga, talvez as vendas voltem a crescer e não correremos o risco de termos cancelada no Brasil uma das poucas séries de qualidade a serem lançadas mensalmente... Se você não conhece, compre! Se você gosta de histórias de mistério, de detetive, de psicologia, histórias policiais com um pouco de aventura, compre! Não vai se arrepender!
Barbarella_ clássico dos quadrinhos e do cinema, mídia em que foi interpretada pela belíssima Jane Fonda, muito pouca gente sabe que o début da personagem foi nas HQs. Criada por Jean-Claude Forest, antecipou a revolução sexual e liberação sexual da mulher. Mulher bem resolvida, conhecedora da própria beleza e do próprio corpo, usa e abusa da sexualidade, por vezes inocente, como recompensa aos que a ajudam, ou apenas para curtir um pouquinho. Cada uma das roupas usadas por Jane Fonda (apaixonante!) no filme é uma mais bela e sensual que a outra, excelente figurino para tão avançada personagem.
Hit-Girl_ mais uma presente tanto nos quadrinhos quanto nos cinemas, porém sua versão na telona é apaixonante! O filme de Kick-Ass, para mim, suplantou a HQ original sobretudo por causa da presença da personagem interpretada por Chloë Moretz, bonitinha e sanguinária. Ela rouba a cena todas as vezes em que aparece, cortando marmanjos ao meio e ainda com um sorrisinho feliz de quem está brincando estampado no rosto. Adoro os desenhos de John Romita Jr., mas tenho de confessar uma coisa: ele definitivamente não sabe desenhar crianças...
Lara Croft_ ainda em outras mídias, lembro muito bem dos jogos Tomb Raider, e do quanto gostava deles por dois motivos. O primeiro era a forma labiríntica de cada fase ou nível, em que deveríamos explorar todo o ambiente e desvendar uma maneira de prosseguir utilizando nosso raciocínio e percepção. O segundo motivo, é claro, era sua protagonista. Um dos protagonistas pioneiros protagonistas do sexo feminino, a voluptuosa Lara é atlética, rica, exploradora, sabe se vestir e manipular armas muito bem! Os dois filmes que fizeram com a personagem, apesar da sempre visualmente agradável Angelina Jolie, não foram lá essas coisas... Mas eu me lembro sim das roupinhas exploratórias de Lara em ambientes tão variados quanto dentro d'água ou no polo norte, quase sempre com as pernas de fora, empunhando uma arma em cada mão e fazendo movimento acrobáticos mil.

   A todas as mulheres, inocentes ou sensuais, mocinhas ou bandidas, inteligentes ou não, lindas ou não, atléticas ou não, insanas ou não, ideais ou não: Parabéns pelo Dia Internacional da Mulher!
(Há um motivo para, neste post, eu não ter escolhido nenhuma ruiva. Aguardem...)

Livro sugerido: O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder.
Filme sugerido: Barbarella (1968).
Atriz sugerida: Audrey Hepburn.
Fotos sugeridas: Ellen Roche como Lara Croft.
Jogo de videogame sugerido1: Batman: Arkham Asylum.
Jogos de videogame sugeridos: Tomb Raider (qualquer um).

domingo, 10 de outubro de 2010

Irreverência ou Cópia?

Vocês já imaginaram um confronto entre o Sentinela da Marvel contra o Super-Homem da DC? Eu lhes digo que este embate já ocorreu! Conto mais ao fim deste... e de quebra ainda dou um cube papercraft único e exclusivo do Overman!
Como o Guilherme já bem disse em um post anterior (há um ano), há personagens que são bastante parecidos com outros. Há alguns casos que são por coincidência, há alguns que são verdadeiramente plagiados (conscientemente ou não), e há outros cujas semelhanças são propositada e intencionalmente forçadas. Bom, não sei em quais casos cada um que apresentarei abaixo se enquadra, mas busquei sortear um elenco que apresente casos curiosos e até versões engraçadas de outros personagens, inclusive em outras mídias que não quadrinhos (ou BD ou comics).


Capitães Marvel
Um jovem que adora usar jeans e roupinhas datadas que, após descobrir acidentalmente algo incomum numa caverna, ao emitir determinado comportamento (verbal ou gestual), é tomado por forças desconhecidas e troca de corpo com uma versão super-heroica adulta mais forte, mais resistente, capaz de voar e dotado de uma consciência ou sabedoria acima da de qualquer ser humano. E essa versão "aprimorada" responde pela alcunha de Capitão Marvel. Bom... qual dos dois? Os dois! Durante uma intriga sobre os direitos do Capitão Marvel entre a DC Comics e a Fawcett Comics (a primeira alegava ser o Capitão uma versão do Super-Homem), a Marvel conseguiu os direitos sobre o nome Capitão Marvel e publicou seu próprio personagem, obrigando a DC a lançar seu personagem, após adquiri-lo, sob o título de Shazam em suas capas (daí a famosa confusão de muitos acharem que Shazam é o nome do herói). E por conta disso também, a Marvel é obrigada a lançar a cada ano ou dois alguma publicação com o título Captain Marvel na capa para não perder seu direito sobre o nome (daí a quantidade de personagens diferentes na própria Marvel usando o mesmo pseudônimo). A única distinção entre a versão da DC e a da Marvel é que esta última trocou as características místicas/divinas por habilidades científicas/alienígenas.


Mads and Freaks

Personagem cômico, com nome que lembra algo louco ou esquisito, de pele azul, uniforme inteiriço monotônico, com uma exclamação no peito como emblema, e com uma espécie de raiozinho estilizado na testa ou cabelo, que ganhou reflexos extraordinários após um tipo de acidente. Segundo o criador de Madman, Mike Allred, ao criar Freakazoid, Bruce Timm o informou que Madman era uma das fontes inspiradoras de seu personagem. A controvérsia ocorreu quando Allred percebeu que, fora isso, nenhuma outra referência ou crédito foram feitos após a exibição do desenho animado, o que o chateou um pouco e o deixou um pouco desconfortável, apesar de reconhecer que seu próprio personagem, Madman, também é influenciado por muitas outras fontes. Mas a exclamação no peito ainda o perturba...


Harry Hunter ou Timothy Potter

Um garoto inglês mediano, franzino, de cabelos escuros e despenteados e óculos de armação plástica escura e redonda, órfão, que em seu aniversário de 12 anos descobre ter uma origem secreta que não conhecia e possuir um potencial (ou está destinado a) para ser o (ou um dos) mais poderoso(s) mago(s) quando crescer, ao ser abordado por indivíduos já experientes com magia, que ganha como presente destes uma coruja de estimação, e a partir daí tem acesso a um mundo cheio de criaturas fantásticas e misticismo. Óbvio que as semelhanças acabam por aí, mas como são muitas! Os rumos que Harry Potter toma em sua série de livros infanto-juvenis não se comparam com os que Tim Hunter toma em Livros da Magia, sob o selo adulto da Vertigo (apesar de que, em determinado momento da série, o autor Peter Gross brincou com as similitudes fazendo com que um irmão de criação de Tim, ao usar um artefato que o faz ficar parecido com Tim, tome um trem na plataforma 9 1/2 da estação King’s Cross, fazendo-o assim uma versão alternativa de Harry Potter). Digno de gentleman o comentário do Sr. Gaiman sobre o suposto plágio de sua obra, dizendo que ambos apenas beberam das mesmas fontes: "Não fui o primeiro autor a criar um jovem mago com potencial, nem Rowling foi a primeira a mandá-lo para a escola. Não são as ideias que importam e sim o que você faz com elas."



Sandmare

Ente místico ou abstrato, solitário, pálido, alto e magro, de cabelos negros desgrenhados que costuma trajar uma capa, reina na dimensão dos sonhos com capacidade de mandar pesadelos aos mortais, porém sendo dependente destes para existir, com poder ilimitado em seu reino, mas que às vezes se arrisca no mundo desperto. Será que só eu via semelhança entre os dois? Tudo bem que um é sombrio e do mal, e o outro... não, mais ou menos, sei lá. Pesadelo, vilão da Marvel, e Sandman, "herói" da DC. Curioso observar que as vestes de cada um refletem a época em que foram concebidos, sendo o uniforme do Pesadelo meio lisérgico, típico do pensamento dos anos 60, em contraste com o gótico cru e mais punk de Sandman, da década de 80. Mais engraçado que isso, porém, é o fato de a entidade maléfica usar roupa colorida verde e a entidade mais "boazinha" (se é que esses termos se aplicam) abusar do preto sóbrio...


Halloween Mask
Personagem mezzo sádico/mezzo cômico, sem inibições psicológicas ou sociais, insano, característico por sua face verde emoldurando um largo sorriso, vestido de terno, com poderes de mudança de forma limitada apenas por sua imaginação, reflexos aumentados, que frequentemente parece ignorar a gravidade, cuja origem está associada de alguma forma com o Deus Loki. Um é o famosíssimo Máskara (cuja origem relacionada a Loki só existe na versão cinematográfica), e o outro é o não tão conhecido Halloween Jack, da também não tão conhecida linha 2099 do Universo Marvel.




Nightspawn
Um negro que foi imbuído de poderes mas sabe que seu fim está próximo e que se vê obrigado a usá-los, usa uma máscara que cobre toda a face e uma longa capa vermelha quase viva, que lhe confere, assim como sua veste, uma variedade de capacidades, tais como planar no ar, curar feridas, aumentar seus reflexos. Olhem bem pro design do uniforme dos dois aí em cima. Nightwatch foi um personagem secundário (ou seria terciário ou quaternário?) que apareceu em algumas brevíssimas histórias do Homem-Aranha aqui no Brasil - pouco depois que Todd McFarlane deixou de desenhá-lo -, e que não fez muito sucesso. Ganhou seu uniforme tecnológico de uma versão futura de si mesmo que estava prestes a morrer. Spawn é a cria mais conhecida de Todd McFarlane - desenhista que alavancou durante um bom tempo a popularidade do Aranha enquanto o desenhava -, um dos carro-chefes da Image quando fora criada logo após a saída de McFarlane da Marvel. É um soldado do inferno que possui um traje simbiótico e que, quanto mais usa seus dons, mais se aproxima de ter sua alma destinada ao inferno.
Agora vejam o traje e a pose do Gatuno, inimigo do Aranha, desenhado por Todd McFarlane, pouco antes de criar o Spawn, enquanto ainda desenhava o Amigão da Vizinhança pela Marvel, ao lado... Sucessão de coincidências?



Os Patos

Um pato meio humanoide, falante, que usa roupas (mas não usa calças!), gravata, chapéu azul, bravo e de pavio curto. Donald é um dos mais conhecidos e queridos personagens de Walt Disney, e dispensa apresentações. Howard também é muito querido pelos fãs que o conhecem, um personagem que infelizmente foi severamente boicotado no Brasil. Apesar de já ter atuado ao lado do Homem-Aranha, do Dr. Estranho, do Homem-Coisa, da Mulher-Hulk, entre outros, e ter ganhado uma minissérie pelo selo adulto da Marvel, Marvel Max, nunca teve uma história sequer publicada no Brasil. Sua única aparição em uma edição nacional só ocorreu numa história isolada durante a Guerra Civil e em duas páginas da saga Invasão Secreta, juntamente com outras dezenas de personagens ao redor (e assim não poderiam tirá-lo da cena), sem nenhuma menção ou explicação qualquer. Suas histórias geralmente apresentam sátiras sociais, paródias com outras ficções, e é quase existencialista, além de bem humoradas. Como a Disney reivindicava muitas semelhanças entre os personagens, a Marvel decidiu então fazer com que o cínico pato Howard usasse calças, para diferenciá-los... Uma pena tal personagem nunca ter tido oportunidade aqui no Brasil.


Sentriumph
Herói loiro, poderosíssimo, capaz de derrotar o Super-Homem*, manipula o espectro eletromagnético, garantindo-lhe ampliada percepção sensorial, superforça, invulnerabilidade, voo, geração de rajadas de energia pelas mãos ou olhos, um dos maiores se não o maior herói de sua época, ajudou (em retcon) a fundar a maior equipe de super-heróis do planeta, esquecido por estes mesmos heróis e apagado da memória de todos como se nunca tivesse sido, e relegado ao esquecimento. Quando voltou a reencontrar seus antigos companheiros, estava mentalmente instável, ora tornando-se supervilão, ora se redimindo. Pois é, essa é a premissa do Sentinela, herói que causou um verdadeiro furor quando surgiu, devido a seu imenso poder e sua grande tragédia. Mas é também a mesma premissa de Triunfo, personagem pequeno que algumas - poucas - vezes atuou ao lado da Liga da Justiça. Sensação de déjà vu...
*Para quem gostaria de ver um combate entre Sentinela e o Super-Homem, ele já aconteceu sim! É só buscarem a Liga da Justiça de Grant Morrison, no arco Crise Interdimensional. Neste arco, com a participação especial do Capitão Marvel (Shazam) e de alguns gênios da 5ª dimensão, Triunfo enfrenta o Último Filho de Krypton.
Além de citar o caso, já mostrado lá em cima no início do post, do "super-herói" brasileiro Overman e de Space Ghost, ambos com identidades mais que secretas debaixo de uma máscara que nunca tiram, não poderia deixar de falar também dos Amigos da Justiça!
O patriótico Major Glory (pastiche tanto do Capitão América quanto do Super-Homem), the Infraggable Krunk (versão em negativo do Incrível Hulk), and Valhallen - palavra-valise ou portmanteau de Valhalla e Van Halen -, Deus Viking do Rock (alusão ao deus nórdico do trovão, Thor), formam um grupo desajustado de heróis do desenho animado apresentado pelo canal de TV a cabo Cartoon Network.


Os Ratos
Para finalizar, uma tirinha bem antiga de Fernando Gonsalez, com seu personagem-título, uma ratazana de esgoto, Níquel Náusea, encontrando seu parônimo(?) mais guti-guti, Mickey Mouse!
E aí, faltou alguma irreverência/referência que eu deixei de citar?


Filme sugerido: O Homem que Copiava (2003), de Jorge Furtado.
Comemoração ou tradição sugerida: festa de halloween.
Música sugerida: "Jump", de Van Halen.
Série de livros sugeridos: Harry Potter (a heptalogia).
Cubecraft sugerido: Overman (inédito, autoria própria).
HQ online sugerida: Tio Patinhas e Pato Donald em Dream of a Life Time (que talvez tenha inspirado o filme A Origem - Inception).
Posts sugeridos: Influências e Semelhanças do blog Alternative Prison.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Soneto ao senhor do sonhar


Pertinho do virada, fecho o ano com um homenagem.
Sem mais delongas, eis o poema que escrevi...






quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Ramadan

“Em nome de Allah, clemente e misericordioso...”
Bom, aproveitando que ainda estamos no Ramadã (ou Ramadão, ou Ramadan), o nono mês do calendário muçulmano, que neste ano caiu mais ou menos entre 22 de agosto a 18 ou 19 de setembro, vou falar daquela que considero a MELHOR história de Sandman, cujo título é, precisamente, Ramadan. Ela é uma das histórias que fazem parte do arco Espelhos Distantes (ou Fábulas e Reflexões, dependendo da versão), todas com nomes de meses, que tratam de alguma forma de imperadores e suas relações com o poder.
Sei o quanto é difícil eleger uma história como A melhor, ainda mais quando se trata de Sandman, em que quase todas são, senão boas, muito boas ou ótimas. Mas mesmo assim vou falar de uma em particular, bem escrita e bem desenhada, que me tocou muito, e vou explicar o porquê de tê-la escolhido.
A história, narrada por alguém, começa com a frase que inicia este post, pois, como todos que já leram O Homem que Calculava (ou outra obra de Malba Tahan) sabem, todo muçulmano inicia uma narrativa com essa saudação, como as antigas exaltações às musas, ou alguma parecida, dependendo da tradução (como “Em nome de Allah, o compassivo, o todo-piedoso”).
Através de belas quadros, imagens sugestivas e hipnóticas, cores vibrantes, é mostrada a chamada joia das Arábias, a cidade de Baghdad, cheia de encantos, beleza e coisas as mais variadas e interessantes possíveis, regida por Haroun Al Raschid. Seu palácio era um lugar de Sabedoria, um lugar de Prazer, um lugar de Maravilhas... mas Haroun Al Raschid mantinha-se perturbado com algo, a despeito de tudo isso. Apenas Allah sabe o que o atormenta.
Quando percorria a cidade, à noite, Haroun Al Raschid recolhia as delícias e virtuosidades da sua joia, deparando-se com as mais variadas e fantásticas histórias. O leitor mais curioso poderá reparar que algumas das histórias citadas en passant na verdade foram inspiradas pelo clássico As Mil e Uma Noites e reconhecer algumas delas. Homenagens que o mestre Gaiman faz. Apesar de tudo isso, o rei continuava atormentado. Nem as carícias de sua esposa, nem a companhia de seu amigo vizir ou as artes do maior poeta da cidade tiravam-no de sua tristeza. Numa noite no mês de Ramadã, o rei sacou de sua chave dourada e desceu às profundezas de seu gigantesco palácio. Atravessou seu harém, as masmorras, salas onde guardava suas riquezas, labirintos e várias portas, cada uma de um material diferente, com sua chave dourada.
É de se apreciar aqui o trabalho de P. Craig Russel ao desenhar estas cenas, levando o leitor a se encantar ou se assustar juntamente com o rei na medida em que percorre o interior de seu vasto palácio. E inclusive ficar tonto ao serpentear nos labirintos subterrâneos.


Em uma sala repleta somente de ovos, ficamos sabendo da existência do ovo de Roca, uma ave tão grande que carrega elefantes até seu ninho no topo das montanhas para alimentar seus filhotes. E também da existência do Outro Ovo da Fênix, um ovo negro, do o qual, ao contrário do ovo branco do qual renasce o pássaro dourado, ninguém sabe o que surge. Atravessando finalmente uma porta feita de fogo, Haroun Al Raschid toma uma esfera de vidro, marcada por um selo, e a leva ao alto de seu palácio por passagens secretas conhecidas apenas por ele. O globo, é dito, pertenceu ao rei dos hebreus, Sulaiman Ben Daoud, que nele aprisionou nove mil e nove ifrits, djinns e demônios (alguém reconheceu o Selo de Salomão, filho de Davi?).



Ali, ele invoca “aquele a quem Alá concedeu o domínio sobre aquilo que não existe, não existiu e jamais existirá”, e pela primeira vez vemos Sonho. Haroun oferece uma barganha ao Lorde Moldador. E assim ambos vão ao soukh, o mercado, lugar onde barganhas são feitas, montados em um tapete especial do rei que os leva pelo ar ao seu comando (é, as referências às Mil e uma Noites não acabaram, e continuam). Haroun Al Raschid mostra Baghdad em todo o seu esplendor, com todas suas riquezas e belezas, e apresenta a Morpheus a arte da barganha no mercado da cidade, onde de tudo pode ser vendido. E o califa oferece ao Rei dos Sonhos sua terra de milagres, sua Baghdad. Era isto o que o atormentava: o medo de que tudo aquilo um dia desaparecesse, fosse esquecido, virasse pó. E, em troca de sua imortalidade, Haroun Al Raschid ofereceu a idade de ouro de Baghdad para o Sonho, para que o mundo nunca se esqueça desta era perfeita de maravilhas, e para que toda a glória e o esplendor da cidade permanecessem enquanto a humanidade existir...


A imagem do tapete voador caindo no chão é, literalmente, impactante. Representa o desmoronar de toda a história até aqui. Pode-se sentir o peso do carpete quando cai, seco, desajeitadamente, levantando pó, no chão.
Quando viramos a página, vemos uma figura patética do califa caído ao chão, deitado sobre um tapete imundo e acabado, sendo acordado e levado por um de seus servos que o procurava. Sua alteza diz ter tido um sonho, ao passo que seu ajudante garante ter sido apenas pela insolação de ter dormido ao léu no mercado abandonado. Enquanto estão indo embora, o ainda desnorteado rei avista um forasteiro segurando algo em mãos, uma engenhosa e bem montada artesania. O forasteiro explica que é uma cidade, cedida a ele, e que não está mais à venda.
Reparem na sutileza do olhar do rei sobre a cidade. Reparem na singeleza de seu toque no vidro. Reparem em como seus ombros caem, resignados, hipnotizados pela visão da esplendorosa cidade que hoje só existe nos braços do Sonho. Interessante reparar como os tons da cidade, assim como o mercado, já não são mais tão vivos.
A narração termina com o velho rei sendo escoltado de volta ao seu desgastado palácio, não querendo perder de vista a cidade tão bela que deixava para trás: “e teria sido assim, dizem, que aconteceu. Mas apenas Allah pode saber.”


Na última página, o cenário já muda completamente. E o cenário aqui é importantíssimo para a história. No segundo quadro da página, ao fundo, é possível ver dois aviões, possivelmente caças, sobrevoando os céus. No quarto quadro, um edifício no horizonte, e, no quinto, linhas de transmissão de energia. Indubitavelmente, estamos no presente. E é mostrado, finalmente, o rosto do narrador da história: um velho, que a contava a um garoto em troca de moedas ou cigarro. O velho fala para o garoto ir para casa, pois estão vivenciando momentos ruins, e que, se amanhã ele estiver ali, talvez lhe conte mais. E parte, deixando o garoto, Hassan, curioso sobre o destino da cidade. A Baghdad mítica, magnânima, opulenta, das lendas, não esta em que ele hoje vive, destroçada, em ruínas, bombardeada. Seu estômago vazio e sua perna deficiente não o perturbam, pois ele está concentrado na Baghdad perene, eterna, e no Outro Ovo da Fênix...




Fenomenal o contraste de cores (belo trabalho de Digital Chameleon sobre os traços de P. Craig Russel), principalmente entre a Baghdad fantástica, multicolorida, do início da história e a Baghdad cotidiana, seca, em tons pastéis. Comparem o momento em que Sonho aparece na narrativa, com o momento em que o Haroun Al Raschid desperta e deixa para trás, na poeira, jogado ao chão, rasgado, seu tapete (esta cena, para mim, é fortíssima também):

Parabéns a Neil Gaiman pela brilhante ideia, e a P. Craig Russel e a Digital Chameleon pela bela execução. (É importante ressaltar que essa edição original é de 1992, portanto bem antes da “moda árabe” que surgiu após a queda das Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001.)
E a história do velho, é verídica ou não? Haroun Al Raschid teve um dia a maravilhosa cidade, e deu-a aos sonhos, para que ficasse eterna na memória dos homens? Por isso o velho narrou este conto, dando continuidade à cidade na imaginação de crianças como Hassan? Ou tudo não passou de um sonho do califa causado pela insolação? Mas será que o rei daquela que um dia foi a maior cidade da Terra conseguiu o que barganhou, e hoje vive para manter sua antiga cidade viva? Seria ele o velho? Para mim, o Outro Ovo é chave da resposta.

Mas apenas Allah sabe a resposta.

-Filme sugerido: Trem da vida (Train de Vie, 1998).
-Livro sugerido 1: O Homem que Calculava (de Malba Tahan).
- Livro sugerido 2: As Mil e Uma Noites (qualquer edição, em especial a mais recente traduzida diretamente do árabe).

Rodrigo Maia.




PS - Muito provavelmente ano que vem a Panini, que adquiriu os direitos sobre o selo Vertigo, lançará (mais uma vez no Brasil) Sandman. Aguardemos para ver o formato e, principalmente, o preço!