terça-feira, 19 de julho de 2011

O Tempo nas Histórias em Quadrinhos: subvertendo a ordem de leitura



“Não há futuro. Não há passado. Percebe? O tempo é simultâneo, uma joia intrincada que os humanos insistem em enxergar um lado por vez, embora a estrutura toda seja visível em todas as facetas.”
- Dr. Manhattan


Tive a oportunidade de dar uma palestra para a II Jornada de Romances Gráficos da UnB versando sobre Tempo nos Quadrinhos e Subversão da Ordem de Leitura. A apresentação foi um apanhado de alguns assuntos já comentados neste blog aqui e ali, mais alguns acréscimos que fiz especialmente para ela. Abaixo, tentarei transcrever um pouco do que apresentei; então, para os leitores do blog, perdoem-me se em algum momento me repetir o que já disse ou mostrei emposts anteriores. Para quem viu a palestra, perdoem-me se deixar de expor aqui algum comentário que fiz ao vivo (ao fim do post, acrescentei mais informações a partir de sugestões obtidas após a palestra). E obrigado por terem comparecido! Vamos lá (lembrando que os exemplos aqui não são exaustivos, mas meramente ilustrativos da infinidade de possibilidades existentes).


A frase que abre este post é retirada do capítulo IX de Watchmen. Dr. Manhattan se refere a sua própria percepção do tempo, mas eu digo que esta frase na verdade pode se referir a esta mídia específica chamada (no Brasil) de histórias em quadrinhos e diz respeito tanto à sua ordem de leitura quanto à sua passagem do tempo.



Segundo Scott McCloud, em seu livro Desvendando os Quadrinhos, nos quadrinhos a percepção da passagem do tempo se dá espacialmente. Explicarei isto melhor mais adiante. Neste excerto de Quadrinhos e Arte Sequencial acima, de Will Eisner, retiramos duas valiosas informações sobre o formato. A primeira informação é sobre o que chamamos de ordem canônica de leitura de quadrinhos (pelo menos no mundo ocidental, pois em mangás, por exemplo, rege a ordem exatamente inversa), da esquerda para a direita e de cima para baixo, algumas vezes desenhando essa marca do Zorro visível acima. A segunda informação, menos óbvia que a primeira, mas bastante interessante, é o que gosto de chamar de metaquadrinho: a página como um todo, responsável por conter todos os quadrinhos propriamente ditos em seu interior. Isto será visto mais à frente também.



Inicialmente, ao tratar da passagem no tempo nos quadrinhos, vamos falar da forma utilizada por Fernando Gonsales para alongar o tempo em uma de suas tiras de Níquel Náusea. Em vez de utilizar o padrão de três ou quatro painéis, o autor preferiu pegar um deles e dividi-lo em seis quadros menores, aumentando o "espaço" a ser percorrido pelo olhar do leitor, fazendo-o, assim, demorar-se mais enquanto acompanha quadro a quadro toda a trajetória lentamente percorrida pelo caramujo. O alongamento do tempo se dá devido à contemplação individual de cada leitor em cada painel desenhado.





Utilizando um exemplo de los hermanos argentinos, neste caso de Liniers, podemos verificar um caso em que a leitura não segue o padrão canônico apresentado por Eisner no início deste post. Nesta tirinha, chamada sugestivamente de Esquina, os dois personagens caminham em sentidos opostos até se encontrarem no meio. O tempo, neste exemplo, seguiria então a direção das bordas para o centro, onde o passado restaria nos extremos esquerdo e direito da tirinha, sendo o presente encontrado no centro de atenção do metaquadro. Ao leitor caberia a oportunidade de, prostrando-se de frente ao desenho por inteiro, voltar seu olhar tanto para a esquerda quanto para a direita, e desta forma acompanhar a trajetória de cada um dos personagens ao longo do tempo, do presente para o passado ou do passado até o fatídico beijo eternizado na esquina da diagramação proposta.




Falando em direções subversivas da ordem de leitura, remeto-me novamente ao super-herói curitibano O Gralha, cujas histórias podem apresentar tom de humor, aventura ou mesmo de experimentação pura. Como o caso exposto aqui por Antonio Eder, em que o herói parte em perseguição a um vilão, e esta corrida dita a ordem de leitura a ser seguida no decorrer da página. Reparem que, em determinado momento, o autor divide essa ordem de leitura quando os protagonistas se separam no decurso da narrativa, o vilão descendo do elevador um andar acima de onde sai o Gralha, mas logo mais à frente se encontram para continuar a perseguição em outra página (não mostrada agora mas já mostrada anteriormente no blog). Outro ponto curioso é a escolha do autor em preencher inclusive quadrinhos não utilizados pelo seguimento da história, como evidenciado pela janelas onde dois pássaros cantam um para o outro frente a frente.




Voltando para a obra de Scott McCloud, no capítulo de seu livro em que trata sobre o tempo nos quadrinhos, o autor nos apresenta esta imagem bastante alegórica acima. Todo o desenrolar dos eventos ao longo deste quadro único é desencadeado por um flash disparado pela máquina fotográfica do Tio Henry. Esta foto causa a reação do casal fotografado, o que por sua vez gera o comentário da senhora com o champanhe em mão, que por sua vez ocasiona a intervenção de sua filha, culminando no apontamento maldoso de um dos senhores jogando xadrez. Digo alegórica porque, apesar de à primeira vista este quadro aparentar, como uma fotografia, um momento congelado no tempo, na verdade não se trata de um momento único, mas sim de vários eventos capturados na mesma imagem, cada um com sua duração distinta do outro (denotada pelos balões de fala e o tempo gasto pelo leitor para ler cada um). Neste quadro específico, o leitor possui a capacidade de, tal qual o Dr. Manhattan, perceber no mesmo instante vários momentos diferentes, da esquerda para a direita, sendo exposto ao mesmo tempo ao passado e ao futuro, tanto à causa quanto a seus efeitos. Esta é uma característica marcante dos quadrinhos, a capacidade de expor uma narrativa tanto sequencial como simultaneamente.




Outros exemplos do caráter simultâneo e sequencial desta mídia, mas bem mais antigos, de 1934, são de páginas dominicais de uma tirinha chamada Gasoline Alley, de Frank King. O autor escolheu ambientalizar sua história num mesmo cenário, fixo, em que se transcorreria toda sua narrativa (um buraco de piscina, no primeiro caso, e uma construção, no segundo) e inseriu seus personagens percorrendo todo o metaquadrinho ao longo do tempo (no segundo exemplo, um casal sendo perseguido* por um sujeito de chapéu). Importante salientar que, enquanto o segundo caso se foca na sequencialidade da perseguição, no primeiro há pequenas historietas autocontidas e fechadas em cada quadrinho, havendo o enfoque na simultaneidade. Neste último, novamente é como se o leitor, imbuído da percepção temporal única do Dr. Manhattan, percebesse simultaneamente os vários instantes percorridos pelos três amigos num mesmo espaço.




E, assim, remeto-os novamente ao exemplo já comentado aqui, da história de Greyshirt em Tomorrow Stories - promoção relâmpago não sei até quando na Comix, seis edições por apenas R$ 14,90 aqui --, por Alan Moore e Rick Veitch (acima). Trata-se de um edifício apresentado no metaquadrinho geral da página, em que cada andar situa-se numa época diferente, distante um do outro por exatas duas décadas. Fora alguns elementos gráficos usados para situar o leitor no período em que cada andar (ou cada painel da página) se encontra, como a marcação do ano à esquerda ou mesmo calendários, jornais e cartazes dentro dos quadrinhos, há ainda um elemento constante: a figura caricata de uma pessoa vestida sempre de verde com seus óculos de aros redondos. Dependendo de que ano está (ou em que painel aparece), esta pessoa encontra-se na sua infância, adolescência, adultez ou senescência. Nesta bem contada "ginástica narrativa", os autores entregam o poder de decidir a ordem de leitura para seus leitores, permitindo-os percorrer a história seja verticalmente, através das décadas (ou dos painéis), ou horizontalmente, mantendo-se sempre estacionado em um mesmo ano (ao longo das páginas). Mais uma vez, o leitor tem a capacidade de decidir a ordem da passagem do tempo que deseja, vislumbrando o todo nos distantes 60 anos que separam o primeiro painel do último e escolhendo se quer percorrê-los sincrônica ou diacronicamente.

*Curioso observar como os temas "perseguição" e "prédio" são recorrentes neste exemplos...

Para finalizar, apresento uma imagem, também bastante simbólica, de Promothea, por Alan Moore e o sempre excelente J.H.Williams. As duas personagens percorrem uma certa passarela em forma da Alça de Möbius (ou lemniscata), que representa o símbolo do infinito. Em determinado instante, uma das personagens percebe a sua presença em outro ponto da calçada, mas alguns minutos atrás, e chega a apontar para si mesma do passado. A outra personagem, noutro momento, comenta estar tendo uma sensação de déjà vu por achar já ter passado por aquele caminho antes. Cabe ao leitor, se assim o decidir, escolher ativamente mudar de página ou ficar revisitando este loop, apresentado tanto em sua totalidade (simultaneidade) quanto em suas particularidades (sequencialidade). Finalmente, uma das personagens se dá conta de que este loop em que se encontram serpenteia não só pelo espaço, como pelo tempo. E assim o ciclo se fecha, pois a metalinguagem presente neste metaquadrinho aponta diretamente à mídia em que se encontra, uma mídia cujo tempo se apresenta como espaço, e vice-versa, permitindo infinitas possibilidades àqueles autores que ousarem subverter e brincar com a passagem do tempo nos quadrinhos.


-THE END-



ADENDO:
Graças à sugestão da (também palestrante) Raquel Perrine, acrescento neste post passagens de outra obra de Alan Moore: Do Inferno. No início de seu segundo capítulo, há uma página inteira completamente no escuro (deixando também o leitor exatamente "no escuro"), com quadrinhos aparentemente non sequitur, havendo uma única constante: a misteriosa indagação "O que é a quarta dimensão?".

A medida que o capítulo transcorre, o leitor percebe que esta primeira página apresenta glimpses da vida do personagem William Gull, cada painel representando uma passagem ou momento específico que ele vivenciou. A repetição da pergunta indica ao leitor como o tempo está sendo manipulado aqui, retratado espacialmente numa única página. Mais à frente, é mostrada a teoria de C. Howard Hinton, filho de um dos personagens do diálogo abaixo, apresentada numa monografia intitulada O que é a quarta dimensão? Segundo ela, o tempo seria uma ilusão humana, pois "todas as eras coexistiriam no todo estupendo da humanidade", como "padrões quadridimensionais no interior do Monolito da Eternidade". A quarta dimensão, para Gull, seria uma espécie de arquitetura do tempo, dentro da qual diferentes níveis temporais seriam relacionados a outros. Quase como a estrutura da página de um quadrinho e sua relação com outros quadrinhos na história.

O Monolito da Eternidade nos remete, novamente, à joia intrincada preconizada por Dr. Manhattan no início deste post. Assim, recomendo também, obviamente, a leitura do capítulo IV de Watchmen, que dá ao leitor uma mostra (e um gostinho experimentá-lo) de como o Dr. Manhattan vê o mundo e percebe a passagem do tempo, num jogo de enquadramentos cuja experiência só os quadrinhos podem passar.

Agradecimentos:
À organização da Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos da UnB, o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, pela oportunidade.
À minha esposa, Úrsula, pela paciência e ajuda com os slides.
À Gabi, pela ajuda com o power point.
Ao Guilherme, brother in arms deste blog (que também apresentou uma palestra, vide o post anterior), por ter me metido nesta enrascada.
Ao Ciro I. Marcondes, do Raio Laser (também palestrante), pela sugestão do livro Narrativa Cinematográfica.
A todos que assistiram a palestra, meu muitíssimo obrigado!


Quadro sugerido: Paradise, de Lucas Cranach der Ältere.
Trabalho acadêmico sugerido: Alan Moore and Graphic Novel: confronting the fourth dimension, disponível aqui.

2 comentários:

Kleiton Gonçalves disse...

Ao final de Do Inferno, "Sir Jack", complementando as teorias passadas, na Catedral, pelo seu amigo, vivencia vários "tempos" em Londres. Todas essas vivências são baseadas em relatos de paranormalidade na região.

Rodrigo Maia disse...

É isso mesmo, Kleiton, esse capítulo também é muito bom, quando o Dr. Gull vivencia plenamente a quarta dimensão, alcançando ao mesmo tempo seu ápice e seu ponto mais baixo, e o autor o faz presente em vários casos de sobrenatural de Londres ao longo dos anos. Bem lembrado!