quarta-feira, 14 de julho de 2010

Jacob, o vilão de Lost

Neste post vou retomar o conceito original do blog. Dei a ele o nome de Ficção HQ porque poderia não me ater às histórias em quadrinhos, mas ao produto de ficção que, de alguma forma, pode ser relacionado a heróis, vilões e quadrinhos. Por exemplo, a séria de TV Lost, que acabou recentemente. Existe um monte de blogs falando sobre o capítulo final. Uns defendendo engajadamente, outros atacando vigorosamente. Mas esse não é o assunto que eu quero abordar... O que vejo, com o final da série, é que o vilão é justamente aquele que posou de bonzinho. Há spoilers sobre o fim da série... Quem ainda não tiver assistido, melhor não ler.


Irmãos gêmeos

Jacob e seu irmão nasceram na ilha e rapidamente foram raptados por uma mulher, que não se sabe exatamente quem é, nem de onde veio, só que ela é uma assassina (matou a mãe dos garotos) e mentirosa (disse desde o início que era a mãe deles). É exatamente essa mulher misteriosa quem vai criar os gêmeos e ensinar tudo que eles sabem sobre a ilha. Ou melhor, tudo que eles continuam sem saber.


Desde o início, o garoto de preto (personagem sem nome da série) queria conhecer o mundo, sair da ilha. Sua madrasta nunca permitiu, dizendo que ele não poderia pois o contato com os homens o corromperia. Mesmo assim, ele queria. Buscava suas origens, tinha uma curiosidade um tanto natural sobre sua própria História. Jacob, por outro lado, era mais submisso. O garoto comportado, por assim dizer, que até tinha curiosidade, mas não desobedecia a autoridade. O de preto estava decidido, e foi morar com os seus na ilha. Reparem que ele faz o papel do questionamento. Por que não se pode sair da ilha? E sua madrasta cumpre um papel doutrinário, privando o garoto da obtenção de outras fontes de conhecimento (tanto os outros homens na ilha, quando o mundo em si). Essa história de manter uma pessoa dentro de certos limites (para seu próprio bem) lembra a história de alguém? Um certo Siddhartha, talvez, que se mantinha ignorante quanto aos problemas do mundo por não poder ir além do próprio jardim...
Ouvi dizer por aí que uma das principais temáticas de Lost é a fé. Os personagens que caem no avião são, em sua maioria, pessoas céticas, que passam por certas provações. Porém, que tipo de fé é essa a qual o garoto de preto é submentido? Fé cega? Fé que não se pode questionar? Fé que depende de não se conhecer o mundo para que não seja abalada? O que o homem de preto busca é esclarecimento. Jacob nada questiona, já seu irmão é um pensador. Note ainda que existe uma diferença entre os dois: o garoto é inventivo. Ele olha as coisas, entende seus mecanismos e faz invenções. É mais inteligente, e é um cientista. Mas não um cientista sem fé. Pelo contrário, seus conhecimentos são um tanto intuitivos. Suas invenções não são de resultado certo, apenas algo que ele espera que funcione. Ele não procura respostas filosóficas na ciência, apenas usa os conhecimentos com finalidade prática. Ou seja, não se trata de ciência X religião, pois a ciência, no caso do personagem, não aparece em contraponto com a religião. O homem de preto poderia, de qualquer forma, ter sua fé, embora não se contentasse em simplesmente adotar a fé que lhe foi ensinada pela madrasta. E que mal há em procurar o conhecimento? Contudo, ele está destinado a ficar preso à ilha, por decreto de uma estranha que matou sua mãe, tomou-o como filho e agora quer determinar o que ele pode ou não pode fazer, sem sequer apresentar um motivo.


O Homem de preto

Tudo bem, até aí é a história de origem desse personagem. E uma mesma origem pode formar um vilão ou um herói, dependendo da maneira como ele se desenvolve. O garoto foi morar com os seus, cresceu e seu único objetivo era... voltar pra casa. Parece um vilão para você? Uma pessoa que quer voltar pra casa? Uma pessoa que quer conhecer o mundo, em vez de se restringir a um pequeno pedaço de terra? Ele não quer dominar o mundo. Ele não quer usar a tal energia misteriosa em seu próprio proveito. Ele não quer explorá-la, não quer ganhar dinheiro com ela. Nada disso... Seu único objetivo era sair da ilha. E o único objetivo de sua madrasta era impedi-lo. Sabem por quê? ... Não foi uma pergunta retórica. É sério, se alguém sabe, me explique. Proteger a tal fonte da ilha? A luz amarela? Se ele pudesse simplesmente ter ido embora, ele nunca teria nem que usar a tal fonte para tentar sair de lá. E não me venha dizer que ele poderia voltar à ilha depois, mudar de ideia e usá-la, pois ele ficou rodando a ilha inteira à procura da tal fonte por anos e nunca a encontrou. Aliás, uma amiga minha salientou bem um ponto: que diabo de fonte é essa que precisa ser protegida das pessoas se as pessoas não são capazes de enxergá-la ou chegar até ela? Mas digamos que é necessária uma proteção extra, já que se pode fazer um buraco no chão e utilizar o eletromagnetismo... Beleza, o Jacob está lá pra isso.


A fumaça preta

O Jacob já explicou para os sobreviventes da ilha que o "Locke" não poderia sair porque ele é o mal. Por que ele é o mal? Ele não achava que seu irmão era o mal. Ele só passou a impedir a saída dele porque a madrasta impedia. Aprendeu a fazê-lo e, sem qualquer questionamento, seguiu o exemplo. Proteger a fonte? Proteja! É até melhor que não exista ninguém na ilha, fica mais fácil. Seu irmão nunca deu qualquer sinal de querer voltar pra lá. Mas ele pode querer, no futuro? Corrompido pela ganância dos homens do restante do mundo? Fica tranquilo, ele não consegue achar a fonte.
Entretanto, acredito que quando Jacob diz que seu irmão não pode sair, ele está mudando de motivação. Ele quer impedir porque seu irmão virou uma fumaça preta à prova de balas, que pode sair por aí matando as pessoas. Aliás, na minha interpretação da história, a luz amarela que provém da porta daquela igreja metafísica do último episódio é a mesma da ilha. E, sendo assim, a tal fonte da ilha nada mais é que o portal entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Um portal que deve ser protegido mesmo. Nessa perspectiva, o homem de preto não poderia sair porque ele já morreu. Porém... o que é necessário lembrar, independente da maneira como se vê as coisas, é que, se o problema de o "Locke" sair da ilha é porque ele se transformou em uma fumaça preta, foi o Jacob quem fez isso com ele. Foi o Jacob quem lançou seu corpo dentro da fonte e fez com que o irmão se transformasse em uma fumaça preta perigosa, ou no elo entre os dois mundos. Então, a culpa é toda do Jacob. Foi ele quem transformou o irmão em um ser ainda mais amaldiçoado.


Mais algumas facetas do vilão Jacob

A partir desse ponto, a temática principal da história passa a ser o confronto entre Jacob e o irmão sem nome. Aparentemente, um confronto entre o bem o e mal, sendo que o bem está representado pelo personagem que se veste de branco, e o mal pelo que se veste de preto. Daí em diante, pode-se dizer que o "lostzilla" se tornou um vilão, porque parou de medir consequências para sair da ilha. Passou a matar pessoas em sua forma esfumaçante no intuito de se ver livre do seu campo de concentração pessoal. Só que, volto a reiterar: foi o Jacob quem transformou seu irmão nesse monstro. Só que o próprio Jacob é um ignorante. Ele não sabe dizer por que as pessoas não podem sair da ilha. Ele não sabe dizer o que é a tal fonte. Ele não sabe dizer por que seu irmão não pode abandonar a ilha. Ele apenas segue as crenças de sua madrasta, cegamente, sem questionamento, como na parábola dos cinco macacos e o jato de água fria. Ele apenas segue ordens. E combate ferrenhamente sua contraparte: aquele que busca o conhecimento.
Além disso, analisemos um pouquinho o que o Jacob fez por conta desse confronto com o monstrinho criado por ele mesmo. Ciente de que o homem sem nome o mataria para sair da ilha, ele foi em busca de um candidato que o substituísse. Passou a acompanhar a vida das pessoas que poderiam estar aptas a essa função (embora, no caso dele, só tenham ido o irmão e ele mesmo). Então ele passou a induzir os acontecimentos. Provocou, indiretamente, a queda do avião e fez com que dezenas de pessoas caíssem na ilha, sofressem e brigassem. Uma certa parcela dos seus candidatos simplesmente morreu para que o Jacob dissesse: "É... acho que esse não estava apto a cumprir a missão. Vejamos se os outros penam mas sobrevivem...". É essa a concepção de herói da história? Uma pessoa que prende o irmão na ilha por seguir cegamente os mandos da madrasta assassina? Que o transforma em um monstro? E que depois traz dor e sofrimento a dezenas de pessoas para ver qual passa no teste de impedir que o monstro que ele criou saia da ilha e proteja uma fonte de luz que ninguém consegue encontrar, sem saber exatamente o motivo por que faz isso? Não sei quanto a vocês, mas essa é a minha visão de vilão.

5 comentários:

Loot disse...

O homem de preto é grande personagem e quando o vemos em miúdo, quem o condena? As suas questões são válidas, relevantes.

E sim é um pensador, repare-se a "mãe" quer que seja ele a substitui-la e não Jacob.

O homem de preto não era um vilão, como dizes apenas alguém que queria sair da ilha. Mas mais tarde para o fazer vai tomar atitudes vilanescas, de assassino.

E depois há a questão que mencionas da luz, seja lá o que isso for. A luz mudou-o quando o tornou no smokey e não se sabe as consequências de ter um smokey fora da ilha. O que me lembra, se ele se fazia passar pelo pai do Jack, como é que o pai do Jack apareceu no barco ao Michael e em LA ao Jack se o Smokey não atravessa água?
Talvez ele tenha sido o pai do JAck só quando lhe convinha e d eoutras vezes er amemso o espirito do pai???? Não me convence.

Ao longo da série ambos os irmãos se comportaram como vilões e talves heróis. A vida não é a preto e branco, nem o jacob e o homem de preto :)

Guilherme dos Reis disse...

Boto fé! Cada um se comporta melhor e pior em momentos diferentes. Mas, no geral, se me perguntassem que eu acho que é o vilão (ou seja, quem se apresenta mais como tal), eu diria que é o Jacob.

Douglas disse...

Total, Cabelo, e impressionante como isso passou despercebido de muita gente, que já tinha comprado e se acostumado com a idéia do Jacob ser o mocinho. Chega a ser irritante a forma maniqueísta como eles associam os dois com as dicotomias preto-branco/mal-bom pra forçar essa percepção nos espectadores. O mais decepcionante é que mesmo que algum dos roteiristas queira vir com a história de que essas associações eram propositais, pra ver se nós teríamos o senso crítico e perceber, mas depois que tudo deveria ser explicado e o final ficou mais amarrado do que cama de casal sendo levada em teto de fusquinha, fica difícil engolir.

Guilherme dos Reis disse...

Pois é, Douglas... Eu decidi escrever este post justamente por conta dessa visão, aparentemente clara e indiscutível, de bom e mal. Eu, pelo menos, vejo os papéis invertidos na história. Acho que a a divisão é, no minimo, questionável.

Laryssa Teles disse...
Este comentário foi removido pelo autor.