segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Da Pérsia, com carinho

Aproveitando a visita que o presidente do Irã, Ahmadinejad, fez mês passado ao Brasil, vou falar sobre algo relacionado ao seu país, como o conheci por meio de Marjane Satrapi, em sua obra Persépolis.
Esta é uma daquelas obras despretensiosas, mas reveladoras, ou pelo menos o foi para mim. Assim como O Caçador de Pipas nos mostra um Afeganistão tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente do nosso país, Persépolis faz o mesmo ao nos aproximar tanto do povo persa (e não árabe, como no Caçador de Pipas), paradoxalmente mostrando-nos o quão distante aquele país está do nosso também. Paralelo que traço também com o livro De Cuba, com Carinho, nas palavras da blogueira Yoani Sánchez (que retrata por sua vez sua própria ilha): "Se não fosse pelo véu negro sobre o cabelo e a presença constante da religião, pensaria que Persépolis conta a história da Cuba onde eu tenho vivido. Especialmente no que se refere à tensão, à constante menção do inimigo externo e à hagiografia em torno dos caídos". Marjane Satrapi começa com sua infância, em que estava durante a Revolução Islâmica de 1979, quando, de um ano para o outro, subitamente se viu obrigada a vestir véu em público e se viu afastada de seus amigos meninos na escola. E nos conta a sua visão pessoal, de uma menina, sem entender tudo aquilo que era obrigada a aceitar. A sorte da menina era que seus pais tinham uma boa condição de vida, eram cultos e estudados, e tinham uma consciência política muito forte, um pensamento à frente e moderno que muitos de seus conterrâneos e contemporâneos não possuíam. Sendo assim, a menina não cresceu alienada e foi educada lendo sobre Descartes, Marx, Gandhi, Fidel e muitos outros, além da boa educação em francês que obteve, futuramente importante em sua vida.

Uma infância normal, assim como a de qualquer garoto daqui do Brasil, com suas brincadeiras, seus amiguinhos, sua família. Mas marcada pela presença da ditadura repressora do regime pós-revolução. Interessante ver as restrições e proibições impostas, como o não uso de gravatas, símbolo ocidental, e a exposição mínima do corpo da mulher.

E assim acompanhamos o desenvolvimento autobiográfico da autora, numa época tumultuada por que passava, apresentando-nos o dia a dia no Irã enquanto crescia. Como conheceu um tio, de quem se orgulhava, e como este foi executado como se fosse "um espião russo". Como se desfez de alguns sonhos de infância quando a embaixada norte-americana foi fechada ou quando fecharam as universidades do país. E a tão conhecida guerra Irã-Iraque, que perdurou durante tanto tempo e acompanhou uma boa parte de sua vida.

Enquanto o país se acabava (e acabava com seus jovens) na guerra, Marjane nos mostra o mundo por trás de tudo, a vida real, como sua primeira festinha de rock, vestida de punk, em seu auge na época. Isso é um ponto alto da história: mesmo com costumes por vezes tão distintos dos nossos, em muito o povo iraniano era igualzinho ao brasileiro, ou a qualquer outro do mundo. A portas fechadas, as famílias faziam festas e chamavam os amigos, nas quais bebiam vinho, coca-cola e ouviam música para dançar. Vemos como, mesmo com a repressão do regime contra tudo o que fosse ocidental, e portanto decadente e desmoralizante, ainda havia um "tráfico ilícito" de fitas cassete de Michael Jackson, da Madonna, do Pink Floyd, ou até mesmo de hambúrgueres e salsichas. Engraçada, de tão cotidiana, a passagem em que seus pais trouxeram escondidos um pôster do Iron Maiden para a menina.

"O que é isso? Michael Jackson, o símbolo da decadência?"
"É Malcom X, líder dos negros muçulmanos americanos."
"Está zombando de mim? É o Michael Jackson!"
"Quem? Não conheço..."
"Naquela época o Michael ainda era negro."

Como todo regime totalitário, o iraniano usava de dissimulação e falseava fatos, fingindo vitórias nas batalhas contra o vizinho Iraque e enaltecendo grandes bombardeios ao inimigo. O pai de Marjane, desconfiado, sempre verificava a veracidade das informações oficiais ouvindo a BBC. Num desses bombardeios, uma casa no fim de sua rua foi destroçada, e assim ela teve seu primeiro contato direto com a morte.

Com a linha-dura do regime se fortalecendo cada vez mais, seus pais decidem mandá-la para a Europa, onde ela vai estudar em um liceu francês em Viena. A partida foi dolorosa para pais e filha. Aqui começa outra fase de sua história, em que passa a morar sozinha, ainda adolescente, num outro continente, sem saber falar o alemão, sendo muitas vezes discriminada por lá.

Na Áustria ela conheceu gente de todo lugar do mundo, e atraiu interesse de muitos, "alternativos", por já ter conhecido a guerra e já ter visto a morte de perto. Interessante a relação dela com um pseudointelectualoide revolucionário-wannabe: o garoto adorava posar de superior em cima de todo mundo, expondo a futilidade da vida capitalista de todos frente ao grande panorama mundial, e toda aquela retórica ideológica vazia e demagógica a que nos acostumamos ouvir na universidade (sempre tem um tipinho assim), mas ficava pianinho perto da Marjane. O que ele tinha só de teoria, ela tinha vivenciado na prática, e perto dela costumava sempre calar a boca.

Lá ainda ela passa pelos descobrimentos da adolescência, descobrimento do próprio corpo, da sexualidade, do mundo, das drogas, etc. Muito boa sua reação à "primeira festa anarquista" de que participou. Nada de engajamentos de revolucionários, apenas um bando de jovens e adultos brincando e correndo uns atrás dos outros... Hilária também a passagem em que demonstra para nós as transformações pelas quais passou entre os 14 aos 18 anos, e como seu corpo "se deformou", alterando proporções e tudo o mais. Quando foi visitá-la, sua mãe chegou mesmo a não reconhecê-la. O desenho de Marjane é simples, sem grandes pretensões, mas funciona para ilustrar sua história.

Sozinha e estrangeira, com a ajuda das drogas e de decepções amorosas, acompanhamos como ela foi ao fundo do poço e quase faleceu. Ela decide então voltar. Com tanta bagagem já adicionada em seu histórico pessoal, e com tão pouco em comum com aquela garota que partiu, a volta foi dura e penosa. Acostumada a certas liberdades europeias não permitidas no Irã, a readaptação também foi difícil. Principalmente com relação à falsa moralidade existente do regime. Por exemplo, enquanto corria para pegar um ônibus, os guardiões da revolução a pararam e pediram para parar de correr, pois "seu traseiro fazia movimentos impudicos":

Andando por Teerã, não se via cartazes de promoções espalhados pelos prédios, mas cartazes exaltando os mártires de guerra. Suas amigas, adultas agora, todas maquiadas, com penteados e permanentes, querendo parecer as mais ocidentais e modernas possíveis, mas escondendo tradicionalistas enrustidas por dentro, invejosas das experiências vividas por Marjane na Europa, algumas vezes tratando-a como puta. Depois de alguns anos, não se sentindo mais parte daquele lugar, ela decide ir morar na França, com o apoio dos pais e da avó. Mas desta vez a despedida não foi em tom de tristeza, mas em tom de alegria. Assim é Persépolis, a história de vida de uma iraniana que passou pela revolução, passou pelo exílio, e passou pelos costumes duros de seu país para com as mulheres. Uma história de vida, cheia de drama, mas também de humor, como qualquer outra, repleta de realismo e veracidade, mas cujo contexto nos apresenta uma bagagem cultural enorme sobre o Irã e o povo persa, e de certa forma sobre o mundo da época.

"Quanto mais o tempo passava, mais eu tomava consciência do contraste entre a representação oficial do meu país e a vida real das pessoas, aquela que acontecia atrás das paredes."

Marjane mora hoje na França, de onde escreveu e desenhou Persépolis, primeiramente em francês, mas que depois foi traduzido para vários idiomas, tornando-se conhecida como a primeira quadrinhista iraniana. Persépolis virou animação em 2007, recebendo prêmios em Cannes, e sendo indicada ao Oscar de melhor animação. Recentemente, dois jovens iranianos, com a autorização de Marjane Satrapi, utilizaram os desenhos de Persépolis e criaram uma versão "2.0", denunciando as fraudes nas eleições presidenciais do Irã, em que venceu Mahmoud Ahmadinejad (por coincidência, se não me engano o presidente iraniano esteve no Brasil no dia do aniversário da autora).


- Livro sugerido 1: O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini.

- Livro sugerido 2: De Cuba, com Carinho, de Yoani Sánchez.

- Blog sugerido: Generacíon Y (www.desdecuba.com/generaciony).

- Animação sugerida: Persépolis (Persepolis, 2007).

- Jogo sugerido: Prince of Persia.

3 comentários:

Chiko disse...

Outro Livro sugerido, A Distância Entre Nós ( de Thrity Umrigar)

Chiko disse...

4 meses 3 semanas e 2 dias, um filme que sugiro também!

Rodrigo Maia disse...

Valeu, Chiko, pelas sugestões!