domingo, 8 de maio de 2011

Card Comics



   Li recentemente no site dos Melhores do Mundo que a Marvel vai lançar, juntamente com a Upper Deck, uma revista inteira no formato de cards. Ou melhor, vai vender vários cards que, juntos, irão compor uma revista, com cinco histórias inéditas. A ambientação das histórias se dará durante a Guerra Kree-Skrull (estimulando ainda mais os boatos de que o futuro filme dos Vingadores abordará essa trama e a adaptará para as telonas), como pode ser visto aqui. Não sabia que os cards estavam voltando (para mim eles saíram de moda tão rápido quanto chegaram com força total, durante a década de 90).

   Mas isto me lembrou, imediatamente, de uma história de Alan Moore - sempre ele! - que eu li há algum tempo. Era em uma revista inédita no Brasil chamada Tom Strong Terrific Tales, desdobramento da série original que continha sempre três histórias em cada edição: uma girando em torno de personagens da família Strong, sempre com algum tom mais humorístico ou experimental, outra do Jovem Tom Strong, e uma terceira sobre Jonni Future (descendente feminina do herói Johnny Futuro, que já apareceu no Brasil no encadernado Tom Strong - No Final dos Tempos). Na edição de número 4 de Terrific Tales, há uma história contada inteiramente por meio de cards, "Collect the Set".
   Por ser frente e verso, a página estava espelhada, de modo que as ilustrações ficavam nas páginas pares e, atrás, estava o enredo da história. No alto de cada os números dos cards ajudavam o leitor a seguir a ordem correta de leitura. Numa bela jogada de metalinguagem, Rei Salomão, no verso de seu card, explica não só à família Strong como também a nós, leitores, que "quando se combinam, todos esses cromos acabam contando uma espécie de história".
   E é o que percebemos, pois na próxima página (ou próxima sessão de cards), aparece o vilão e há várias cenas de ação. As cenas são narradas no verso de cada cromo, seguindo a lógica dos números e dos títulos de cada um. Reparem nas imagens acima e abaixo.


   A história toda se desenvolve desta forma, no que poderíamos chamar não mais de histórias em quadrinhos, e sim histórias em cromos, ou "card comics". Porém, diferentemente da recente iniciativa da Marvel, em que vários cards montam uma história, nesta aventura de Tom Strong uma história é apresentada por vários cards. O leitor não vai comprar um pacote de figurinhas para ter uma história, o leitor comprou uma revista e ela veio dividida em vários cromos.

   Há até uma sugestão, se vocês olharem bem, para que se corte a revista com o auxílio de uma tesoura, individualizando cada card, reparem. Daí ficaria à escolha do freguês: decidir manter a revista no formato padrão ou manter essa história na forma de vários cards distintos. O próprio Alan Moore já havia feito algo parecido em sua última edição de Promethea (a de número 32). Cada página da revista era na verdade uma imagem única, sem divisão em painéis ou quadrinhos. O leitor, como era sugerido, deveria recortar cada página e montá-la como um gigantesco painel, pois as 32 páginas juntas formavam um pôster (ou melhor, dois, um de frente e outro de verso), cuja holoimagem só era revelada ao se juntar todos. Ademais, a história poderia ser lida na ordem em que quisesse, coisas de Alan Moore. Neste caso, cada página completa poderia ser considerada um cromo gigante, que combinadas formariam o álbum (o pôster de Promethea). Infelizmente, no Brasil ainda não foram publicadas as últimas edições de Promethea, que por aqui só contou com um encadernado (ironicamente, chamado Promethea Volume 1).
   Antes mesmo de Alan Moore escrever esta história de Tom Strong já houve uma tentativa de se misturar cards e histórias em quadrinhos. Em 1993 a série Plasm (ou Warriors of Plasm, como ficou conhecida depois), de Jim Shooter, sob a editora Deviant, lançou algo parecido para a edição zero do supracitado título.
   Até mesmo aqui no Brasil já fora lançado um livro ilustrado - ou álbum de figurinhas - da Turma da Mônica chamado A Volta do Capitão Feio, em 2005. Vocês podem encontrar uma resenha aqui.
   Voltando ao lançamento da Marvel: cada card representará dois quadrinhos ou painéis da história, um em frente e outro no verso, cerca de nove cards compondo uma página inteira. No site dos MdM o autor do post explica matematicamente o custo para se ter a história inteira, já que cada pacote com 9 cards custará o mesmo que a média de custo de uma revista mensal qualquer nos EUA: 2,99 dólares. E isso se você "manipular as probabilidades igual a Feiticeira Escarlate" para não comprar nenhum card repetido dentro dos 190 no total!
   A primeira história será de 20 páginas (formada por 90 cards), contando com Capitão América, Thor, Homem de Ferro e Visão; outra história, de 8 páginas (com 36 cards), mostrará Mercúrio e Feiticeira Escarlate; uma história de 6 páginas (com 27 cards) estrelará Nick Fury; e por fim outras duas histórias, de 4 páginas (e 18 cards) cada, apresentando respectivamente o Super-Skrull e o Capitão América.

   Esta notícia me fez lembrar de um velho amigo que comprava e traduzia cards. Graças a isso, tornou-se autodidata em inglês. Hoje ele fala ainda francês e alemão, já tendo morado na África e na Europa. E tudo começou com cards... Este post vai em sua homenagem, meu velho.


Card game de estratégia sugerido: Dominion (Rio Grande Games), e suas expansões.
Card game online sugerido 1: Necronomicon (Games of Cthulhu).
Card game online sugerido 2: Necronomicon - Book of Dead Names (Games of Cthulhu).

domingo, 24 de abril de 2011

Parceria com a Livraria Cultura

Olás!
   Esta postagem é só uma espécie de aviso a todos vocês, leitores. Provavelmente alguns já repararam... O ficção HQ firmou uma parceria com a Livraria Cultura. Agora as obras que eu e o Rodrigo comentamos aqui, ou simplesmente citamos, contêm links diretos para os produtos no portal da Livraria Cultura. Fizemos isso não somente para que vocês possam comprar as obras, caso se interessem, mas também para que tenham acesso a informações sobre os quadrinhos comentados, tais como preço, quantidade de páginas, autor, imagem da capa etc. Além dos quadrinhos, estamos colocando links também em livros e filmes citados.


   Tenho alterado nossas últimas postagens, para se adequarem a esse novo padrão, mas ainda não consegui alterar tudo. Vocês vão reparar que, daqui pra frente, as postagens seguirão esse modelo. E, em geral, os nomes das obras virão com links para a Cultura. Em alguns casos, colocamos a logomarca da Cultura, mas quando o link está no meio do texto, para não polui-lo, apenas colocamos o no próprio nome da obra.
  Devo confessar que essa iniciativa também visa retorno financeiro. Portanto, peço encarecidamente a quem se interessar em comprar a obra visualizada no portal da Cultura, que a compre usando o link presente no blog. Ganhamos uma pequena comissão de vendas quando esta se realiza pelo uso do nosso link, e vocês não pagam absolutamente nada a mais por isso.

   Abraços a todos!

sábado, 2 de abril de 2011

Calvin, o sábio

   Fiz uma pequena seleção de frases genais do Calvin. Retirei de alguns dos encadernados do Calvin e Haroldo, então existem várias que ficaram de fora porque eu não conheço. Além disso, para o post não ficar excessivamente longo, tive que cortar várias. Sei que as tirinhas de Watterson estão bem voltadas para o humor, mas aqui quero evidenciar o lado mais sábio do personagem. Então aí vai algumas das frases mais inteligentes e interessantes - na minha opinião - que esse pirralho já falou:

- No princípio, não havia nada... e, então, havia Calvin!

- Caro futuro Calvin, eu escrevi esta carta alguns dias antes de você recebê-la. Você fez coisas que eu não fiz. Viu coisas que eu não vi. Sabe coisas que eu não sei. Seu sortudo de uma figa! Seu camarada, Calvin.

- Olhe todas aquelas estrelas! O universo se estende pelo infinito afora! Faz a gente se perguntar por que o homem se considera assim tão importante. É por isso que ficamos dentro de casa, com nossos aparelhos.

- Fui programado com sucesso para obedecer a todas as suas diretrizes. Não tenho vontade própria... própria... própria...

- Grande parte da vida é uma rotina chata. Preciso de mais emoção. (...) Naturalmente, grande parte da vida são surpresas horripilantes. A rotina pode ser reconfortante.

- É difícil ficar bravo com alguém que sente saudades suas enquanto você dorme.

- Ei, formiga, você está trabalhando feito uma maníaca, e o que é que ganha com isso? O que a colônia tem feito por você ultimamente? E os seus sonhos?

- Meu pai enche a minha paciência com os valores dele, por isso eu encho a dele com os meus.

- Se as pessoas pudessem prender arco-íris em zoológicos, elas o fariam.

- Hostilidade vende.

- Se ninguém te obriga, conta como diversão.

- Como uma coisa pode parecer tão plausível na hora e tão idiota olhando em retrospecto?

- Já reparou que as pessoas sempre tentam fazer duas coisas ao mesmo tempo? Falam ao telefone enquanto dirigem, veem TV enquanto comem, ouvem música enquanto trabalham... Nunca se concentram em aproveitar bem uma coisa ou fazê-la bem feito.

- Está uma tarde linda! Eu não vou desperdiçá-la fazendo trabalhos ridículos para a escola!

- Eu digo que, se a vida te dá um limão, jogue de volta na hora e ainda atire mais alguns por sua conta.

- Como se os adultos tivessem fazendo um excelente trabalho.

- Ninguém me pergunta como é que as coisas deveriam ser. Eu tenho um montão de ideias!

- Eu sou mais uma criança consumidora dos recursos naturais em um país superpovoado, educada em larga e assustadora medida, pela publicidade e por Hollywood, a postos, juntamente com meus companheiros cínicos e alienados, para controlar o mundo quando você estiver velho e fraco.

- Está sugerindo que este aparelho não me irritou de forma premeditada?

- Ah, a arrogância da juventude! Aos três anos, eu achava que sabia tudo.

- É estranho. Sei que sou eu, mas não sinto nenhuma ligação com esta imagem. Tudo está tão diferente agora. Não é estranho que o passado de alguém possa parecer tão irreal? Parece que estou olhando a foto de outra pessoa.

- A curto prazo, o que me deixaria feliz seria brincar lá fora. A longo prazo, eu ficaria feliz se fosse bem na escola e fosse bem-sucedido. Mas em muito longo prazo eu sei as experiências que renderão as melhores lembranças.

- Às vezes acho que aprendo mais quando não vou à escola.

- Há uma relação inversa entre o quanto algo faz bem pra você e o quanto é divertido.

- Confiar nos pais pode ser prejudicial à saúde.

- Se você já acha que seu problema é horrível, adicione um pouco de culpa e veja o que acontece!

- Eu sempre me esqueço. Se você consulta uma mãe, ela sempre imagina o pior.

- Quer me ajudar a testar a teoria da relatividade? A ideia é simples: quanto mais rápido a gente for, mais devagar o tempo passa. (...) Bom, parece que o Einstein é uma fraude, não acha?

- Tem sempre alguém te dizendo o que fazer ou o que não fazer.

- Você acredita que nosso destino é determinado pelas estrelas? (...) Ah, eu acredito. (...) A vida é bem mais divertida quando você não é responsável pelos seus atos.

- Sabe, às vezes parece que as coisas passam rápido demais. Nós estamos tão ocupados nos preocupando com o que está por vir que não paramos para aproveitar o momento em que estamos. Os dias passam quase despercebidos por nós. A vida se torna um borrão. Muitas vezes é preciso uma tragédia para nos fazer viver no presente. Então, de repente, nós acordamos e enxergamos todos os erros que cometemos, mas é tarde demais para mudar.


- Você já se perguntou alguma vez se a pessoa na poça (de água) é real e você é só o reflexo dela?

- Você acha que os adultos vão ter arrumado o planeta até o dia de passar ele pra gente?

- Você tem lido os jornais? Os adultos estão realmente transformando o mundo num caos. Chuva ácida, lixo tóxico, buracos na camada de ozônio, esgoto nos oceanos e não para por aí! O único lado bom de tudo isso é que vai chegar uma hora em que não irá restar um único pedaço do planeta pelo qual valerá a pena guerrear.

- Certamente, todos somos parte de uma criação maior. Nem mais nem menos importantes do que qualquer coisa no universo. Certamente tudo se encaixa e tem um propósito, uma razão para existir.

- É, Marte pode ser meio monótono, mas é melhor que a Terra. Temos um planeta inteiro pra nós. Novinho e intacto. Nada de poluição, nem de pessoas.

- Nós temos que consertar nosso próprio planeta, antes de sair por aí mexendo no planeta dos outros.

- Eu acho que as pessoas se preocupam demais com coisas pequenas. Tudo o que conseguem com isso é ficar infelizes. Por que ganhar uma úlcera se atormentando com coisas que não importam de verdade?

- Eu sempre me esqueço que regras são só para pessoas pequenas e civilizadas.

- Sabe, pai, logo, logo vou crescer. Um dia você vai se perguntar para onde foram todos esses anos.

- Olha, outra latinha jogada no chão. Puxa vida, isso me deixa furioso! Caramba, quando as pessoas não estão enterrando lixo tóxico ou testando armas nucleares, elas estão emporcalhando tudo!

- Dizem que os poluentes que lançamos no ar irão reter o calor do sol e derreter as calotas polares! Claro que você já vai ter batido as botas, mas eu não. Que belo planeta vocês estão deixando para mim, hein?


- Relaxa, pai. É só uma bola na calha. Eu não estou roubando dinheiro nem matando alguém, né? Você não está feliz que eu não seja um ladrão ou assassino?

- O tempo não para quando seu relógio para?

- Vou para a escola, mas nunca aprendo o que quero saber.

- E se a mamãe e o papai não me aceitarem de volta porque rompi relações com eles? E se eles disserem que não posso voltar à família? Eles têm que me aceitar de volta! Eu sou o idiota do filho deles, certo? Certo! ...sendo “idiota” a palavra-chave.

- As garotas são como lesmas. Elas devem ter alguma utilidade, mas é difícil saber qual.

- O Moe fica me batendo sem motivo na escola. Ele é malvado só por diversão. Ainda bem que você é um animal. Os animais fazem muito mais sentido do que as pessoas.

- Essa história toda de Papai Noel não faz sentido. Por que todo o segredo? Por que todo o mistério? Se o cara existe, por que ele não aparece e prova de uma vez? E se ele não existe, qual o sentido disso tudo? (...) Eu tenho as mesmas dúvidas sobre Deus.


- Querido Papai Noel, antes de submeter minha vida à sua inspeção moral, eu quero saber quem fez de você o senhor do meu destino?

- Essa história de Papai Noel me incomoda... principalmente porque ele é júri e juiz. Quem nomeou o papai Noel? Como a gente sabe que ele é imparcial? Que critérios ele usa para determinar o que é bom e o que é mau?

- Todos nós queremos um sentido para nossa vida. Buscamos isso em tudo que fazemos. Mas suponha que não exista sentido! Que a vida é absurda por definição.

- Puxa, Haroldo, e se eu não ganhar presentes esse ano porque duvidei da existência do Papai Noel?

- Bom, decidi que acredito em Papai Noel, não importa quão absurdo isso pareça. (...) Quero presentes. Quero muitos presentes. Para que arriscar tudo por uma mera questão de crença? Que se dane, eu acredito no que eles quiserem.

- Não é triste ver que as pessoas se agarram à vida tão precariamente que aceitam qualquer delírio absurdo em vez de encarar uma verdade sombria e ocasional?

- O que você acha que representa a verdadeira felicidade?

- Ninguém nunca me paga um centavo pelos meus pensamentos.




Fiquem à vontade para acrescentar as suas frases preferidas de Calvin e Haroldo nos comentários...




Leituras sugeridas (ou Referências Bibliográficas):

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sobre Mês das Mulheres, machismo, movies, Movimentos e... mórmons (?!?)

Um amigo meu me mandou este link para ler e comentar, que tratava sobre as mulheres nas adaptações de quadrinhos para o cinema. Continuando o Mês das Mulheres aqui no blog, transcrevo de forma sucinta e resumida o breve diálogo que travamos eu, Guilherme e Chiko sobre o assunto (perdoem a nossa informalidade, hehehe):

Chiko: Para mim, vocês dois são OS CARAS dos quadrinhos, é uma mídia que eu boio um pouco, sou muito mais seguro em cinema, mas.... vi um texto e pensei, vou mandar pros caras, e perguntar o que eles acham. Deem uma lida:


Abraços!
Guilherme: Eu exploraria mais o paradoxo da Mulher Maravilha. Pois ela foi considerada uma personagem que representa o feminismo por ser a primeira super-heroína a ter suas próprias histórias. Já a personagem... Não só foi a precursora do modelo de uniforme mulher-objeto (bastante criticado por algumas feministas), como atendia a todos os fetiches de seu criador. Botinha, laço e bandeira americana... E o pior: você sabe qual era a fraqueza dela no início da carreira? Ser amarrada por homens. Apesar de toda sua força, quando era segurada por um homem, perdia os poderes. Sentiu?

Rodrigo: Eu ia falar exatamente isso! Parafraseando eu mesmo, de um post antigo do Ficção HQ: "Ícone feminista, é até de se estranhar esta escolha, visto a quantidade de fetiches que caracterizam a própria personagem. Uma semideusa grega, com corpo perfeito, vestida com a bandeira americana (estrelinhas e tudo), laçadeira, que perdia sua força quando presa por um homem!"

Realmente, o que o cara falou da Carol Ferris foi legal, ela era dona da da empresa e CHEFE do Hal Jordan! Isso em plena década de 60! Massa, né? Mas acho que nunca exploraram legal esse fato... vamos ver como o farão no filme do Lanterna. Realmente a Lois é a mais próxima de mulher independente e forte e tudo o mais que eles falam. Nunca gostei muito da Lois, talvez por tabela já que eu nunca gostei do Super, mas olhando assim até que ela é meio porreta, e afinal de contas, ela é a Escolhida, the chosen one, certo? Se o Super é o Salvador na Terra, o epítome da perfeição a ser alcançada, ser escolhida por ele deve dar uma moral da p*#&a pra ela, não?
Mas percebam bem, até hoje não lançaram um filme de uma heroína nos cinemas (Elektra se não me engano foi direto pra locadora, né?). Nunca deram destaque também nos filmes em que elas aparecem, como por exemplo uma Tempestade liderando os X-Men ou uma Vespa liderando os Vingadores. Elas ainda são relegadas a segundo plano e a estereótipos.
Paralelo a isso, eu mesmo tô até me surpreendendo com a quantidade absurda e cada vez maior de predileção minha particular por mulheres fortes nos quadrinhos. Desde a minha escolha da Mary Jane como uma das personagens at all mais queridas, até minha paixão por Jessica Jones e Mina Murray da Liga Extraordinária (a HQ, jamais o filme!).
Chiko: Saindo um pouco do assunto, mas ainda ficando no tema "mulheres e como são vistas no mundo do entretenimento": vocês sabiam que Hugh Hefner era influente nos movimentos políticos e sociais que marcaram o mundo nos anos 50, 60 e 70 ou mesmo às causas feministas? Ele se aproveitava que seu programa de tevê era produzido de forma independente, levou artistas e intelectuais negros à televisão numa época em que estes tinham espaço limitado, além de ajudar a romper a barreira que impedia comediantes negros de alcançar o mainstream (para isto, sua decisão de escalar Dick Gregory num show comprado por empresários sulistas foi crucial). Atuou para mudar leis que regulavam o aborto e impediam a comercialização de contraceptivos em vários estados dos Estados Unidos.
Voltando, bacana saber dessas histórias...
Interessante seria ver personagens como Lara Croft, que é "independente" mas não deixa de representar o fetiche masculino, já que deve ter sido criada por homem.
Isso me leva à "Saga Crepúsculo", li o primeiro livro e parei de ler o 2º, vi os dois filmes... e acho increvelmente irônico, um livro escrito por uma mulher e dirigido por outra ser tão "antifeminista", já que a personagem Bella só quer saber de correr atras do macho-alfa dela, e sempre é a "donzela" em perigo. Mais interessante é você perceber que a autora, como uma MÓRMON, prega a "abstinência" usando de metáfora o abraço vampírico (nada contra os mórmons, apenas apontando um fato).

Rodrigo: Legal o lance do Hefner, não sabia (Stan Lee meio que fez um cameo em homenagem ao playboy no primeiro filme do Homem de Ferro, né?). Bom, se um dia tiverem colhões de lançar um filme ou seriado sobre Jessica Jones, por exemplo, os produtores com certeza se surpreenderão com a boa receptividade do público, não só feminino como masculino também! Super-herói não é só coisa de menino, e até os meninos gostam de ver uma saia com cérebro e atitude de vez em quando, certo?


terça-feira, 8 de março de 2011

Mulheres de Ficção e de HQs

   Bem-vindos a mais um Dia Internacional das Mulheres aqui no Ficção HQ. Assim como no ano passado prestamos uma homenagem a algumas beldades do sexo feminino nos quadrinhos, neste falarei um pouco sobre algumas outras, menos conhecidas, que ficaram de fora, mas que poderiam muito bem estar presentes na minha primeira lista, e o porquê de eu gostar delas.
Sue Dibny_ única coadjuvante a ser membro integral da Liga da Justiça, esta personagem foi marcante para aqueles que se lembram da versão Europa da Liga da Justiça Internacional. A esposa do Homem-Elástico era uma mulher forte, decidida, independente, perspicaz e sagaz, e -para mim pelo menos - sua morte foi o verdadeiro impacto da série Crise Identidade (sim, mais impactante até que as memórias apagadas). Nada mais a dizer, exceto a frase de seu marido, abaixo:


Outra esposa de super-herói que também apoia (ou apoiava; maldito Joe Quesada e seu One More Day) o marido sempre é Mary Jane Watson, a modelo internacional com que todo nerd gostaria de se casar. Bom, MJ é a MJ, e a ruivinha de covinhas merece um post só pra ela, por isso não vou me alongar mais aqui.

Promethea_ tudo o que a Mulher-Maravilha deveria ser mas não consegue, a mulher ideal (e quando falo ideal me refiro exatamente ao conceito platônico do Mundo das Ideias, ou sua versão alanmooreana: Imatéria). Heroína, deusa, mito, inspiração, musa, mulher. Essa personagem consegue reunir em si todas essas personas, e muito mais, por isso a pus nesta lista. Precisa falar mais?

Emma Frost_ talvez aqui eu entre em polêmica, mas vamos lá. Originalmente uma vilã para rivalizar o caráter docente de Charles Xavier, compartilhando com o professor os mesmos poderes, Grant Morrison a trouxe para o lado dos X-Men e a fez uma das mocinhas. Pior (ou melhor) ainda, tornou-a amante de Ciclope, e fez a personagem desbancar Jean, acabando com um dos relacionamentos mais engessados da história dos quadrinhos americanos. A partir de então o caráter dúbio da moça só evoluiu: amadureceu Scott tanto emotiva quanto sexualmente, tomou as rédeas do próprio Instituto, ocupou o lugar de Xavier como seu representante, mais recentemente apareceu fazendo parte da Cabala, a resposta vilanesca ao grupo dos Illuminati. Parabéns, Emma, conseguiu dividir os fãs dos mutantes entre aqueles que a odeiam e aqueles que a adoram, bem jus à sua própria dubiedade enquanto personagem fictícia. Eu sou do time pró-Emma, uma das grandes responsáveis por balançar e revolucionar o status quo mutante. E sua roupa a la dominatrix também ajuda...


Vespa_ dona de um poder bosta, a ex-mocinha cabeça vazia que só servia para ser resgatada pelos outros acabou tornando-se líder dos Vingadores, e uma de suas principais lideranças depois do Capitão América. Apanhou do marido, numa excelente mostra do amadurecimento dos quadrinhos de super-heróis e sua ligação com a realidade, e deu a volta por cima. Sua versão Ultimate é ótima, como representante mutante dos Supremos, embora mais dondoquinha, e suas características orgânicas expostas pelo marido num momento de fúria foi um ponto alto no primeiro arco dos "Vingadores militaristas pós-11 de setembro" que são os Supremos. Janet van Dyne ainda ostenta o recorde de possuir o maior número de uniformes da história dos quadrinhos!

Elektra_ uma filha de um milionário grego que é... ninja! Independente, sedutora, pancou quatro superskrulls sozinha durante a Invasão Secreta, controla o Tentáculo, encarou no mano a mano o Wolverine assassino durante o arco Inimigo do Estado, uma artista marcial excelente que

não precisa ter superpoderes para figurar entre os maiorais da Marvel. Elektra é um mistério perigosamente instigante...


Miraclewoman_ quem conhece a versão de Alan Moore e de Neil Gaiman para o personagem Miracleman (que é leitura OBRIGATÓRIA para qualquer um que goste de quadrinhos adultos de super-heróis) vai perceber que ela é a verdadeira cabeça por trás do Olympus e da Golden Age trazidos pelos heróis-deuses perfeitos, pois é a Miraclewoman quem controla Miracleman, o homem mais poderoso do mundo. Isso lhe dá um caráter duvidoso de heroína e vilã ao mesmo tempo, ao vermos como ela é manipuladora e titereira. Mas não forçada ou propositadamente, ela apenas o é, como muitas mulheres da vida real o são. Fisicamente perfeita, inteligente, com pensamentos "fora da caixa", foi a idealizadora do conceito testado na Terra para acabar com a eterna rixa entre as raças alienígenas dos Qys e dos Warpsmiths: "(ao invés das labutas estúpidas de uma guerra inútil) não seria melhor fazer sexo?" A vênus de "dedos que poderiam esmagar carvão até torná-lo diamante" e de "lábios que poderiam sugar o coração de uma estrela", criadora do voo nupcial - que abordarei em um post futuro - fala mais sobre isso ao lado...




Magia_ a irmã caçula de Colossus sempre foi uma personagem que me trouxe fascínio. Eu apreciava seu conceito de lado negro escondido, da bela moça virginal dos Novos Mutantes que escondia um lado perverso e demoníaco em seu interior, por conta de seu conturbado desenvolvimento de criança para mulher no Limbo quando foi raptada pelo demônio Belasco. Gostava também de seu caráter um pouco sexualizada, misto de infância junto com corrupção. Uma verdadeira metáfora para a adolescência em si, como é o aparecimento dos poderes mutantes no universo do homo superior da editora. Para quem conheceu a Illyana Rasputin no início, quando ainda era uma menininha que gostava que Kitty Pryde lhe contasse histórias de ninar, conhecê-la na forma de Magia, senhora e rainha do Limbo, onde seu poder era supremo, foi uma evolução marcante da personagem, que trouxe todos esses aspectos conflitantes à tona. Pena que ela nunca foi tão bem aproveitada quanto poderia...

Da mesma forma vejo Adaga, dona de um dos mais belos uniformes femininos, com sua relação esquisita fraterna/sexual/simbiótica e de codependência com Manto, misto de antagonismo e afeto recíproco, também uma metáfora para as drogas, fonte inclusive de seus poderes. Uma personagem triste, urbana, real, sem muito do glamour que geralmente acompanha as super-heroínas.

Cristal_ uma heroína geralmente deixada a escanteio, mas que certa época foi protagonista nos X-Men, a loirinha é uma cantora de sucesso, com um poder que tanto serve no combate ao crime quanto nas suas performances nos palcos (Cristal é muuuuito poderosa), o que poucos no Brasil tiveram a chance de saber é que, durante um curtíssimo período de tempo, Alison Blaire já foi arauto do próprio Galactus, que a escolheu por ser capaz de gerar luz dentro de um buraco negro. Além do mais, a mutante cantora também foi a preferida do Beyonder, quando este encarnou num corpo humano e passou a morar na Terra, e a selecionou dentre todas as mulheres do mundo. Pouca coisa ou não?

Arlequina_ atleta, psiquiatra, a vilã louquinha, por algum motivo, me cativou. Não sei se por sua obsessão por um dos criminosos mais insanos e perigosos, não sei se por sua "inocência sádica", se é que isso existe, ou apenas por sua loucura mesmo: uma mulher capaz de ser tão louca quanto o Coringa, a parceira perfeita para este. Sua representação no jogo Batman: Arkham Asylum está assustadora e psicoticamente bela:
Questão_ outra oriunda do universo do morcego que também conquistou meu apreço foi a policial Renee Montoya, desde a série Gotham City Contra o Crime, até depois, quando assumiu o legado para ser a nova Questã. Detetive séria, com um passado a lhe perseguir, essa latina foi uma das primeiras personagens a se mostrar publicamente lésbica nos quadrinhos, e o arco em que isso ocorre foi ganhador de vários prêmios. Mais um ponto a mais para a personalidade de Montoya, que tem a sorte de só pegar mulher mais linda que ela ainda!
Zatanna_ outra heroína que vem pouco a pouco me cativando. Quando a conheci ela ainda fazia parte de uma das primeiras formações da Liga, com um uniforme meio modernoso, bem mais ou menos. Mas ultimamente a maga tem recebido boa atenção por parte dos roteiristas, principalmente Paul Dini, e se mostrado uma das principais heroínas da DC. Muito boa sua história dentro dos Sete Soldados da Vitória, em que, mesmo sem usar seus superpoderes, ficamos por dentro da vida pessoal sempre conturbada dessa morena. Outra personagem cuja roupa fetichista ajuda a alavancar sua popularidade, se bem que Zatanna, por si só, por sua personalidade e complexidade, já poderia ser bem popular.
Júlia Kendall_ minha experiência anterior com fumetti era apenas e basicamente Tex. Até eu conhecer a Júlia. Sempre ouvia dizer nos fóruns pela internet o quanto esta série era boa, até finalmente eu ter em mãos alguns exemplares das Aventuras de uma Criminóloga. Sua imagem, inspirada abertamente em Audrey Hepburn, só ajuda a termos simpatia cada vez maior por esta personagem. Júlia além de linda é inteligente, sensível, intuitiva, meiga, profissional, frágil e ao mesmo tempo forte (é, parece que eu gosto mesmo de características conflitantes e paradoxais). A série mensal de Júlia aqui no Brasil está em perigo de cancelamento, por isso aderi à campanha:Salvem Júlia! Basta cada um que a conhecer comprar um exemplar das bancas e presentear alguém que você ache que vai gostar. É certeiro, não importa a edição do mês, a história é sempre de alto nível, e se assim conseguirmos angariar mais fãs para a criminóloga, talvez as vendas voltem a crescer e não correremos o risco de termos cancelada no Brasil uma das poucas séries de qualidade a serem lançadas mensalmente... Se você não conhece, compre! Se você gosta de histórias de mistério, de detetive, de psicologia, histórias policiais com um pouco de aventura, compre! Não vai se arrepender!
Barbarella_ clássico dos quadrinhos e do cinema, mídia em que foi interpretada pela belíssima Jane Fonda, muito pouca gente sabe que o début da personagem foi nas HQs. Criada por Jean-Claude Forest, antecipou a revolução sexual e liberação sexual da mulher. Mulher bem resolvida, conhecedora da própria beleza e do próprio corpo, usa e abusa da sexualidade, por vezes inocente, como recompensa aos que a ajudam, ou apenas para curtir um pouquinho. Cada uma das roupas usadas por Jane Fonda (apaixonante!) no filme é uma mais bela e sensual que a outra, excelente figurino para tão avançada personagem.
Hit-Girl_ mais uma presente tanto nos quadrinhos quanto nos cinemas, porém sua versão na telona é apaixonante! O filme de Kick-Ass, para mim, suplantou a HQ original sobretudo por causa da presença da personagem interpretada por Chloë Moretz, bonitinha e sanguinária. Ela rouba a cena todas as vezes em que aparece, cortando marmanjos ao meio e ainda com um sorrisinho feliz de quem está brincando estampado no rosto. Adoro os desenhos de John Romita Jr., mas tenho de confessar uma coisa: ele definitivamente não sabe desenhar crianças...
Lara Croft_ ainda em outras mídias, lembro muito bem dos jogos Tomb Raider, e do quanto gostava deles por dois motivos. O primeiro era a forma labiríntica de cada fase ou nível, em que deveríamos explorar todo o ambiente e desvendar uma maneira de prosseguir utilizando nosso raciocínio e percepção. O segundo motivo, é claro, era sua protagonista. Um dos protagonistas pioneiros protagonistas do sexo feminino, a voluptuosa Lara é atlética, rica, exploradora, sabe se vestir e manipular armas muito bem! Os dois filmes que fizeram com a personagem, apesar da sempre visualmente agradável Angelina Jolie, não foram lá essas coisas... Mas eu me lembro sim das roupinhas exploratórias de Lara em ambientes tão variados quanto dentro d'água ou no polo norte, quase sempre com as pernas de fora, empunhando uma arma em cada mão e fazendo movimento acrobáticos mil.

   A todas as mulheres, inocentes ou sensuais, mocinhas ou bandidas, inteligentes ou não, lindas ou não, atléticas ou não, insanas ou não, ideais ou não: Parabéns pelo Dia Internacional da Mulher!
(Há um motivo para, neste post, eu não ter escolhido nenhuma ruiva. Aguardem...)

Livro sugerido: O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder.
Filme sugerido: Barbarella (1968).
Atriz sugerida: Audrey Hepburn.
Fotos sugeridas: Ellen Roche como Lara Croft.
Jogo de videogame sugerido1: Batman: Arkham Asylum.
Jogos de videogame sugeridos: Tomb Raider (qualquer um).

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

(des) Construção

Olá!
Voltando ao tema da semana anterior, quando tratei sobre usos criativos do formato específico da mídia "quadrinhos" por meio de escadas desenhadas, ora se confundindo com os painéis da página, ora guiando o olhar do leitor e ditando a ordem de leitura pela tela, hoje apresento uma desconstrução desse mesmo formato.
Mas vamos começar por uma tira do início do século passado, do visionário Winsor McCay, intitulada Little Sammy Sneeze, que sempre girava em torno do pequeno Sammy do título espirrando e as consequências de sua poderosa e inconveniente esternutação. Mas eis que chega um ponto em que McCay se pergunta: e se o espirro de Sammy não afetasse as pessoas ou o ambiente ao seu redor, mas afetasse a própria noção de "ao seu redor" existente na tirinha? O resultado foi a excelente quebra da moldura da página (lembrando, isso se deu ainda na primeira década do séc. XX, por volta de 1904 a 1908)!
Do argentino Liniers, selecionei essas duas tirinhas de Macanudo. Na primeira, apenas uma maneira bem criativa de se aproveitar a forma da tira para narrar uma história, chamada Esquina. Simples, mas eloquente em sua simplicidade. Notem como a "ordem cronológica" dos acontecimentos nesta historinha não segue o padrão da esquerda para a direita, mas sim das bordas para o centro.
Nesta outra (ainda Macanudo, de Liniers), ele extrapola as margens de um quadro, e conta uma história a partir disso, brincando com a própria disposição da tira no formato de quadros sequenciais. Logo abaixo, uma outra versão baseada na mesma ideia ou conceito, mas retirada do hilário blog Um Sábado Qualquer, com Deus conversando com Adão.
Mais outra tira de Um Sábado Qualquer, usando duas linhas para dar um efeito diferenciado na descontrução do formato dos quadrinhos. Em baixo desta, outra com o tema parecido que encontrei na internet, chamada Borderline, de Adam Koford, com linhas coloridas em verde destacando cada parte da história sendo contada, de forma a melhorar seu entendimento (pois estamos tão condicionados com a forma padrão ou "canônica" de ler uma tira que quando nos vemos frente a uma forma diferenciada, achamos mais difícil compreendê-la).
Essas duas últimas nos remetem à primeira imagem de Madman no início deste post (já que falei de Madman, fiquem aqui com um uso bem criativo das "páginas" de uma edição, formando uma única imagem panorâmica ao longo de toda a revista). Exemplos como este há diversos, selecionei apenas alguns para demonstrar a desconstrução da ordem de leitura a que estamos acostumados.
Mas vamos partir agora para o estudo de caso que prometi. Com vocês, Sr. Alan Moore e toda a sua genialidade (mas não nos esqueçamos da importantíssima ajuda dos desenhos de Rick Veitch, sem os quais a história não teria sido possível). Tido como o responsável pela desconstrução do super-herói (com Watchmen), Moore no final do século iniciou o que ele chamou de reconstrução do gênero. Um dos selos responsáveis por isso foi America´s Best Comics (ou ABC), em que o mago barbudo lançou vários títulos, dentro da revista Tomorrow Stories, e entre eles Greyshirt, uma homenagem direta a The Spirit, do Eisner. Todas as histórias de Greyshirt não possuem foco no personagem em si, mas nos vilões que este enfrenta. É da segunda edição de Tomorrow Stories que retiro essa história. Atenção aos detalhes, abaixo.
A página é dividida em quatro quadros. Reparem que no canto esquerdo de cada quadro há uma data, de exatos 20 anos de diferença entre uma e outra, em ordem decrescente do alto até abaixo. Reparem na decadência do prédio, de baixo para cima, e na evolução do letreiro, onde vemos o nome Greyshirt (de modo bem eisneriano), ao longo das décadas.
Na segunda página, Moore, com a ajuda dos desenhos de Rick Veitch, utiliza o artifício de apresentar-nos o ano em questão dentro do próprio cenário em que transcorre a história. Reparem o calendário no primeiro quadro, um cartaz de um festival no segundo, outro calendário no terceiro, e, muy sutilmente, no canto inferior esquerdo da página, uma manchete de jornal indicando que Hitler invadiu a Polônia. Nesta página podemos perceber uma constante ao longo das décadas: um rapazinho/jovem/senhor/velho de roupas verdes e óculos de aros redondos.
Finalmente, já na terceira página, Moore e Veitch confiam que o leitor já tenha entendido o esquema e deixam de apresentar o ano em que cada painel é narrado. Reparem bem, exatamente como na história do Super-Homem com Lex Luthor do último post, os corpos das pessoas de épocas distintas se complementam na escadaria, numa ilusão de ótica entre os quadros 2 e 3 e entre 3 e 4 (desculpem, apareceu uma escada outra vez...).
Com a palavra, Alan Moore: "Em uma das histórias de Greyshit em Tomorrow Stories, nós fizemos algo bastante peculiar com o layout dos painéis. Um apartamento, num mesmo prédio, em cada página. Para adicionar outro elemento, nós fizemos com que os painéis do topo acontecessem em 1999, o segundo painel em cada página tomasse lugar em 1979, o painel de baixo deste em 1959, e na base de cada página se visse a base do edifício como era em 1939, quando ainda era um prédio novo. Nós fomos capazes de contar, por meio de uma complicada ginástica narrativa, uma interessante historinha apresentada através de 60 anos da história do edifício, com personagens ficando mais velhos dependendo em que painel e em que período de tempo eles estavam. Isto é algo que não se pode fazer em nenhum outro meio que não nos quadrinhos (comics)."
Alguém duvida do mestre Moore? É por estas e outras que o barbudo de Northampton é tido como um dos mais criativos e inovadores autores a explorar tão bem esta mídia, não só pelo conteúdo riquíssimo, como também pela forma inusitada. Se vocês notarem bem, esta história específica pode ser lida de várias maneiras possíveis. Pode ser lida da maneira usual, uma página seguida da outra, lendo os quadros de cima para baixo a como tradicionalmente estamos acostumados. Pode ser lida, ainda, tomando-se cada época individualmente, como por exemplo os quadros passados em 1999, e lendo-os em ordem (os primeiros quadros de cada página, depois os segundos quadros de cada página, os terceiros, e por fim lendo apenas os últimos quadros de cada página até o final). Pode ser lida também por ordem cronológica, ou seja, começando com a história isolada que transcorre em 1939, depois partindo para a história de 1959, até chegar à história mais recente, de 1999. Ou pode ser lida de baixo para cima em cada página (lendo o último quadro da página 1, depois o penúltimo, depois o segundo e finalmente o primeiro quadro; após isso repetindo esta ordem na página 2 e assim por diante). Todos esses modos trazem histórias fechadas entre si, o mais impressionante de tudo, todas as histórias, não importa a ordem em que forem lidas, ainda trarão elementos coesivos entre uma e outra, com a arte se complementando em vários pontos. A última página ainda traz uma "queda" conceitual através dos quadros e através das décadas. E toda essa riqueza em apenas 8 páginas de história...
Adoro essas quebras na narrativa, com várias possibilidades de sequenciamento sem manter a linearidade cartesiana. Adoro essas inovações, quando bem executadas, e essas desconstruções de padrões, sejam nos quadrinhos ou em qualquer outra mídia ou forma de arte. Isso força nosso cérebro a trabalhar de maneiras diferentes e não usuais, e serve como um bom exercício mental. Não concordam?


(No próximo post: Mês das Mulheres!)



Videoclipe sugerido: Imitation of Life, de REM.
Filme sugerido 1: Amnésia (Memento, 2000).
Filme sugerido 2: Elefante (Elephant, 2003).
Música sugerida 1: Construção, de Chico Buarque.
Música sugerida 2: Borderline, da Madonna.
Link sugerido: arquitetura e quadrinhos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

L'esprit d'escalier


Devido às atribulações do final do ano passado, este blog ficou um tempo parado e sem muitas atualizações. Por conta disso, alguns momentos específicos propícios a uma postagem foram perdidos e alguns posts interessantes perderam o sentido de serem feitos após passada a época certa, ou o timing perfeito.
Em francês, há uma expressão comumente utilizada para representar essa sensação de arrependimento de poder ter usado um comentário inteligente no momento apropriado mas só perceber isso quando este momento já passou. (Troque a palavra "comentário" pela palavra "postagem", atualizando o termo para a nossa contemporaneidade, e você saberá mais ou menos o que eu quis dizer). Para o português, podemos traduzir a expressão l'esprit d'escalier como "o espírito da escada".
Em homenagem a esta expressão, farei um post sobre... escadas!
Sim, escadas, e como estas podem e foram usadas de maneiras bem criativas nos quadrinhos, aproveitando o próprio formato desta mídia.

Vamos começar pela criativa disposição da montagem de uma página feita por Frank Quitely, primeiramente na obra We3, escrita por Grant Morrison. Falar do argumento de Morrison é chover no molhado, eu mesmo o considero um dos três grandes autores da atualidade (ao lado dos unânimes Alan Moore e Neil Gaiman), mas agora chamo a atenção para a excelente narrativa gráfica desenvolvida pelos desenhos de Quitely. A página inteira serve de molde para o "bunker" dentro da casa, e cada quadro equivale a um andar, digamos assim.
Pouco depois o mesmo Frank Quitely (também ao lado de Morrison), agraciou-nos com mais uma bela página abusando da mídia "história em quadrinhos" na forma de contar e mostrar uma história, na edição número 5 de Grandes Astros: Superman, em que o Homem de Aço visita Luthor na prisão. O próprio cenário se funde com a diagramação e disposição dos quadros, e vice-versa. Reparem no cabeludo ao centro, na parte inferior da imagem, encostado na sarjeta que divide os quadros como se fosse uma viga da prisão onde se encontra. Reparem também, quando Lex desce a escada, como as pernas de um guarda complementam o desenho de outro quadro. Outro mestre nesta arte de fundir o quadro com o cenário é J. H. Williams III (de Batwoman e Promethea, como a ilustração no início do post).
Pesquisando na internet, encontrei essas duas tiras de 1934, chamadas Gasoline Alley, de Frank King. Adorei como a ação da história faz o olhar do leitor percorrer a página de uma forma não usual, sem seguir necessariamente a ordem linear a que estamos acostumados nos quadrinhos ocidentais (esquerda para direita, e de cima para baixo).

Reparem como esta inovadora maneira de se seguir a ordem de leitura se parece com aquela apresentada por Antonio Eder, mais recentemente, com o personagem O Gralha, conforme visto abaixo.
Antonio Eder depois fez uma autorreferência (parece feio, mas agora "autorreferência" se escreve assim após o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, ok?) quando participou do encadernado MSP 50, conforme mostrei aqui no blog há algum tempo. Reparem como o caminho percorrido pelos personagens em perseguição é que guiam a ordem de leitura não linear de cada quadro.

Isto tudo me faz lembrar do Monte Olimpo - inspirado em Escher, talvez? - como imaginado por George Pérez e John Byrne, quando a Mulher-Maravilha o visitava (local onde o senso de direção e gravidade não lineares deixaram até mesmo o Super-Homem confuso). As escadas de Hogwarts não se comparam a isso...
São inovações assim que fazem dos quadrinhos uma mídia única, pois tais efeitos são impossíveis de serem reproduzidos em literatura ou no cinema, por exemplo.
As histórias em quadrinhos possuem um diferencial muito grande em relação a essas citadas mídias. Enquanto nos cinemas uma imagem é seguida de outra, nos quadrinhos eles se apresentam simultaneamente, e é esse caráter simultâneo e ao mesmo tempo sequencial que diferencia esta mídia específica. O leitor, assim, tem o controle sobre a ordem em que quer ver cada imagem, podendo subir, descer, correr com os olhos e voltar quando quiser para onde quiser. A literatura também permite a releitura, mas não tem o poder da imagem à sua disposição. Uma pena que poucos autores e desenhistas usem essa possibilidade narrativa que os quadrinhos apresentam às suas mãos. Os casos que apresentei aqui são poucos, usando apenas o apoio "cenográfico" de escadas na montagem dos painéis de uma página, mas a ousadia pode ser muito maior.
Fiquem aqui com um exemplo criado por Frank Miller para a revista Elektra.

No próximo post, vou apresentar mais quebras da linearidade usando e ousando os aspectos próprios da mídia (sem mostrar escada alguma!), e também um estudo de caso com uma pequena obra de Alan Moore...





Música sugerida: Stairway to Heaven, Led Zeppelin.
Obra de arte sugerida 1: Relativity, de M.C.Escher.
Obra de arte sugerida 2: House of Stairs, de M.C.Escher.
Links sugeridos: Greatest spiral stairs
Prateleira dos sonhos: