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sábado, 1 de maio de 2010

Os maiores super-heróis do mundo

Há não muito tempo comprei o encadernado Os Maiores Super-heróis do Mundo, da DC comics, confeccionado pela Panini Books. Eu sabia que os desenhos eram do Alex Ross, que pinta os quadrinhos como se fossem quadros, o que já valia o alto preço da revista. Porém, a qualidade das imagens, definitivamente, não é o único aspecto admirável do material. As histórias abordam um lado mais social dos super-heróis. Em nenhuma delas o foco é a ação. Não há combates físicos contra super-vilões. Apenas heróis, usando seus poderes para tentar fazer do mundo um lugar melhor.


Na primeira história – Super-homem: paz na Terra –, o Super-homem decide enfrentar um problema que está muito além de suas capacidades: a fome. Ele sabe que não poderá acabar com a fome no mundo. Entretanto, para dar o exemplo, já que ele em si é um ícone de referência para diversas pessoas, decide usar um dia de sua vida para transportar excedentes de comida por todo o planeta, usando seus poderes (superforça, supervoo) para carregar a maior quantidade de alimentos para a maior quantidade possível de países. As situações que ele enfrenta, as reações das pessoas, o que ele vê... tudo isso faz com a que a história seja tocante. Há até uma imagem do último kryptoniano sobrevoando o Rio de Janeiro (de duas páginas, em formato gigante), mas a que decidi escolher foi a de cima, que representa mais a impotência do mais imponente dos super-heróis diante de um problema tão complexo.

A segunda história do encadernado é Batman: guerra ao crime. A julgar pelo título, parece mais uma história de ação do homem-morcego. Entretanto, o que vemos nela não é um Batman espancando bandidos, e sim preocupado com um bairro pobre, os problemas sociais e financeiros que fazem com que as pessoas acabem caindo na marginalidade. De quebra, mostra como a luta contra o crime não depende só do herói, mas também de seu alter-ego, o milionário Bruce Wayne. Ele acaba vendo, na figura de um garoto cujos pais foram mortos por conta da violência urbana, como ele próprio poderia ter tomado o caminho errado, se não fosse a riqueza herdada e a educação prestado por Alfred.

A terceira história é Shazam! O poder da esperança. Nesta o Capitão Marvel visita crianças doentes, conta a elas histórias de suas aventuras e realiza alguns de seus desejos, como voar pelos céus e conhecer animais selvagens de outro país. Além de protegê-las dos perigos não só de super-vilões, como de vilões que pegam um taco de beisebol para bater no próprio filho.

A história seguinte é da Mulher-maravilha, cujo subtítulo é O espírito da verdade. Existem sim as cenas de aventura e combate da super-heroína, porém, também há momentos em que ela compara o mundo dos homens com Themyscira, a ilha das amazonas, muito mais avançada em termos filosóficos e sociais. O que pode fazer para que aquela sociedade seja mais parecida com esta? Além disso, na história é abordada sua função de embaixadora da paz e como, apesar de todo o reconhecimento, ela ainda é discriminada por ser mulher. Uma observação interessante: ela se envolve em problemas em países do extremo oriente e árabes.


E então, vem uma pequena história, chamada Origens Secretas, sobre alguns dos legionários e suas origens: o que os deu poderes ou o que os tornou heróis. É só uma pausa nas reflexões, já que as histórias anteriores todas começavam com a origem do herói em questão.

Por fim, vem a história Liberdade e Justiça, da Liga da Justiça. Nela o tema central é a sensação do Caçador de Marte em relação ao nosso mundo, como a aparência é algo importante. Além disso, a Liga da Justiça combate... uma doença. Não, não é um super-vilão, é uma doença mesmo, que está se espalhando pela África. Existe uma série de delicadezas políticas que fazem com que essa missão não seja muito fácil de se cumprir. Como de praxe, todos os justiceiros dão o máximo de si não só para não deixar a doença espalhar, mas também para salvar os já contaminados.


Enfim, um prato cheio! Aconselho o encadernado a qualquer leitor, seja da DC, seja de outras editoras. Aconselho até àqueles que não são leitores de quadrinhos, pois mostra uma abordagem diferente do conceito de herói. Foi o encadernado mais caro que eu já comprei, até hesitei antes de concluir a compra. No entanto, depois de ler, acredito que valeu cada real.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Ideia de Um Milhão

Quem quer um milhão?
A DC quer. Era 1998, e alguém na editora teve a ideia de supor: “se a revista Action Comics, de 1938 (aquela em que aparece o Super-Homem pela primeira vez), seguisse sua continuidade mensal, quando será que ela chegaria ao número um milhão?” E eles chegaram ao ano 85.271. E resolveram fazer uma saga sobre isso. E esta saga de dez anos atrás já continha DICAS SOBRE O FINAL DE BLACKEST NIGHT. O quê? Isso mesmo. Voltemos a isso depois...
Grant Morrison, então levando o título da Liga da Justiça, foi o responsável por escrever a minissérie principal, que repercutiu por todas as publicações da DC. O que mais ressalta, primeiramente, nessa saga, foi o fato de que ela não se estendeu ao longo de vários e vários meses. Inovadoramente, ela foi feita toda em apenas um mês, abarcando cerca de 40 edições. Pois é, todas as edições da DC de novembro daquele ano estamparam a numeração 1.000.000 em suas capas, retomando sua sequência normal no mês seguinte.

O plot da história é fraquíssimo: no século 853 (!), a Legião da Justiça Alfa, formada por descendentes da atual Liga (!!), resolve convocar a Liga da Justiça de hoje para participar de uns joguinhos olímpicos meta-humanos no futuro (!!!) para homenagearem o primeiro Super-Homem, que está vivo (!!!!) naquela época e vai retornar de seu exílio no Sol (!!!!!). Apesar desse mote ridículo, a execução da ideia é bem rápida, dinâmica, e quero neste post resgatar alguns bons conceitos apresentados em DC Um Milhão. E falar como ela já predizia o futuro de Blackest Night.

Muito boa, por exemplo, a descrença inicial de Caçadora, Oráculo e de Zauriel, que perguntam qual seria a probabilidade de haver vida humana, que dirá descendentes deles, daqui a tanto tempo. E, é claro, a atitude de Batman frente a essa historinha mal contada de jogos e desafios no futuro: “O presente é que me preocupa” (vide a mesma atitude na obra Terra 2, também do Morrison):Mas o Batman Um Milhão decide que ele deve ir, mesmo à força, e derrota o atual usando uma técnica de luta física e psíquica, mandando sua essência ao futuro. Diana não nega sua ascendência grega e fica toda excitadinha com a perspectiva de olimpíadas de superseres... Outra ideia bem bacana é o simbolismo dos heróis da Legião da Justiça, cada um radicado num planeta do sistema solar, espelhando a visão morrisoniana do panteão da DC: Flash, o mais rápido, é o guardião de Mercúrio; Mulher-Maravilha é de Vênus; Netuno, é claro, fica com Aquaman; Batman monitora Plutão, o planeta-prisão do sistema (punidor como o Hades); Saturno (Cronos) fica com o Homem-Hora, que já havia aparecido anteriormente numa história da Liga de Morrison; Júpiter, com sua grandiosidade, é sede da LJA Um Milhão; Starman opera em Urano (o Céu); e mais tarde descobrimos que Marte ainda é vigiado por Ajax, claro.
A Legião da Justiça Alfa diz que ficará na nossa época para manter o mundo a salvo, e assim fica a deixa pra história se espalhar para outros títulos, a fim de os leitores conhecerem os poderes (apelativos) dos heróis do século 853. Super Um Milhão, por exemplo, além de dez novos supersentidos (adquiridos pela Dinastia Super quando o Super-Homem do séc. 67 casou-se com uma ser da 5ª Dimensão), da super-hipnose e da supertelecinese, capaz de soprar uma lua de órbita e de calcular bilhões de probabilidades simultaneamente, é descrito como “mais rápido que um táquion, mais poderoso que a gravidade de um buraco negro, capaz de transpor anos-luz com um salto”. Mas, sem o supersol de sua era para abastecer seus poderes, começa a perdê-los um a um no presente... (boa jogada dos argumentistas para trabalharem um carinha tão fuderoso).

É claro que a coisa toda ia dar merda. Assim que são mandados para o futuro, descobrimos que Solaris, o computador solar, na verdade havia mandado um vírus para infectar toda a humanidade no passado para enfim conseguir sua vingança contra a Dinastia Super-Homem e substituir o sol, mancomunado com o imortal Vandal Savage. Agora me digam: pra que diabos um supercomputador iria querer substituir o sol??? Uaréva...

Destaque especial deve ser dado, entre todas as edições, para a Starman 1.000.000, a melhor história individual da saga. O Starman do futuro conversa com Ted Knight, o Starman original, e conta como, durante uns três milênios, não houve nenhum Starman, e como alguns da linhagem até mesmo foram vilões. Ponto para James Robinson (escritor da ótima fase do Starman), e maior ainda quando diz que sua "cria", Jack Knight, NÃO é o maior Starman, e que na verdade foi até esquecido no futuro... coragem do autor, e humildade, visto que quem já leu concorda que acontece justamente o contrário com Jack Knight.

Os conceitos legais extraídos de DC Um Milhão: os ícones que dão superpoderes. Achei muito boa a ideia, bastante significativa, principalmente no universo DC, em que os próprios heróis são bastante emblemáticos e icônicos. É só ver o quanto os escudos de cada superser representam e são seguidos, com vários carregando o S estilizado, e outros com o morcego no peito. No ano 85.271, vestir um relâmpago amarelo com fundo vermelho lhe dá supervelocidade momentânea! A própria Legião dos Super-Heróis ("só" mil anos no futuro a partir daqui), já utilizava bastante esse conceito das imagens representando seus heróis e poderes. Todo o universo DC é focado nestes símbolos heroicos, como visto nessa imagem idealizada para Crise de Identidade:

Outro conceito legal: daqui a tanto tempo, a própria noção de espaço vai ser diferente. A humanidade descobriu como manipular espaços tesseracts, de quarta dimensão, para fazer megalópoles inteiras superpopulosas caberem em espaços exíguos conservando o meio ambiente.
E a própria noção de informação como riqueza na comunicação mais rápida que a luz. O planeta Mercúrio, colonizado no futuro, é uma infocracia, quem detém informação detém o poder, e a própria se desatualiza muito rapidamente, ainda mais num futuro em que sua troca é multiplicada por um milhão! Globalização nada, "Sistema-Solarização" é o futuro! E a Neuronet, sintonizada diretamente em seu cérebro, seria o canal de informações no séc. 853. Bem bacana.

Outra proposta muita boa é a que justifica a presença de Robin, o droide-prodígio parceiro do Batman Um Milhão. Ele guarda a essência de seu mestre de antes do massacre que matou sua família e milhares de inocentes. Robin seria então a inocência, a pureza de Batman, uma neurocópia otimista de sua infância preservada no droide para sempre lembrá-lo de equilibrar as trevas com a luz ainda não corrompida neste inferno que se tornou Plutão. Interessante essa visão de parceiros-mirins...

Curioso observar como Grant Morrison já plantou, há mais de dez anos, elementos que depois ele mesmo resgataria, agora que é um dos caras que mandam na DC. Por exemplo, o conceito da Dinastia Super-Homem, o sol tirânico Solaris e o próprio Super do séc. 853 reaparecem na sua obra Grandes Astros: Superman, assim como o Super-Homem primordial exilado dentro do Sol.

Até mesmo uma ideia não tão boa assim, como o "punching time", teve sua origem aqui. Se alguém se lembra (e não gostou) do Superboy Primordial alterando a realidade através de socos em Crise Infinita, saibam que o Super Um Milhão atravessou a barreira do tempo através de socos anos antes:


Num especial publicado um ano depois da saga, inédito no Brasil, chamado DC One Million 80-Page Giant, são apresentadas pequenas histórias ambientadas no ano 85.271, e assim descobrimos a origem do Eléktron Um Milhão (muito legal a história), sabemos um pouco mais sobre a Legion of Executive Familiars, liderada por Kryto-9, e uma boa história chamada Crisis One Million, em que a Legião da Justiça Alfa encontra sua contraparte do universo de Qward. Curioso observar o uniforme da híbrida Mulher-Coruja (ao lado, lembra quem?), e perceber como algo parecido com o gerador de azar gerando sorte no reversoverso de Qward seria novamente utilizado em Terra 2. Além do mais, percebam a presença de outras versões, como Batman de 1889, Batmirim, Super do Reino do Amanhã e de Red Son, entre outros, já antevendo a Crise Final e o Multiverso de Morrison (?), na história:

Falando em antever, a PREVISÃO PARA BLACKEST NIGHT: em Martian Manhunter 1.000.000, ficamos sabendo que Ajax ainda está vivo no séc. 853, e se tornou uno com o solo marciano. E aqui ele faz uma revelação a Kyle Rayner: "Foi você, afinal, quem me resgatou quando tudo estava enegrecido." E continua: "Há uma mensagem que quero que entregue ao meu eu de sua época"...Hmmmm, quando tudo estiver enegrecido... quer uma referência mais óbvia a Blackest Night? Já que sabemos que o marciano está do lado negro agora, nos States, resta esperar. Será que Kyle é quem vai salvá-los e trazê-los de volta? Vamos aguardar a resposta em alguns meses... mas não um milhão deles!

- Filme sugerido 1: Quem quer ser um milionário? (Slumdog Millionaire, 2008).

- Filme sugerido 2: Timecrimes (Los Cronocrímenes, 2007).

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Isso é um trabalho para o Super...?

Um dia desses, estávamos eu e minha esposa na casa de um casal amigo nosso jogando um desses joguinhos de conhecimento geral e cultura inútil bem legais, quando caiu uma pergunta ou dica mais ou menos assim: também sou chamado de Mianmá. Eu prontamente respondi: "Birmânia". Eu errei. Bom, segundo a fichinha do jogo. Lá dizia que a resposta era Burma. Já há algum tempo, vi uma notícia sobre atentados ocorrendo em Mumbai. Pensei comigo mesmo "Mumbai, olha só, acabei de conhecer mais uma cidade indiana pra entrar para o meu acervo de cidades indianas de que eu já ouvi falar, composta por Nova Délhi, Calcutá e Bombaim"... No ano passado, todos sabem, houve Olimpíadas. Mas ela foi onde mesmo? Ah, é, foi em Beijing... mas não era em Pequim?
Peraí. Burma é uma forma inglesa algumas vezes utilizada para se referir ao país que, em português, recebe o nome de Mianmá (e suas variações com y no meio e r no final) ou Birmânia. Mumbai é outro nome que se dá para a cidade que, em português transliterado do inglês, é chamada de Bombaim. E Beijing é a forma como a China quer que o mundo conheça sua já tão conhecida e manjada Pequim.
Aonde eu quero chegar com essa zona toda? Eu quero chegar no Super-Homem. Ou seria no Superman?

Colecionei HQs entre meados da década de 80 até meados da década de 90, quando parei de ler e só voltei em 2000 e alguma coisa. Nesse hiato, algo engraçado aconteceu. Eu parei de ler Super-Homem, mas quando voltei, voltei a ler Superman (reparem como ele é chamado, por exemplo, nas versões de Reino do Amanhã da Abril e da Panini). Nunca gostei muito do personagem, sempre disse que as melhores histórias do Super-Homem não são histórias do Super-Homem (explico isso melhor em outros posts futuros), mas reconheço a importância do que ele representa. Mas o lance aqui não é sobre o personagem, e sim sobre o seu nome.

Aliás, tradução de nomes aqui no Brasil sempre foi algo, no mínimo, curioso. Vejam a matéria do Eudes, do Rapadura Açucarada, sobre isso aqui (Peter Parker pra Pedro Prado, fala sério...).

Ele cita casos como do Ricardito (Speedy, no original), e do Joel Ciclone (Flash I). Cara, Joel Ciclone, não sei por que, mas pra mim ficou legal. Deu um ar mais antiquado ao personagem, bem característico dele, que é da Era de Ouro. Mas Ricardito? De onde veio isso? Outro também que eu sou louco pra parar na frente do cara que deu seu nome e perguntar: Ajax. Eu sei da explicação do porquê não se utilizar Caçador de Marte toda vez, por causa do espaço dos balões de diálogo na história, já que na tradução do inglês para o português o texto geralmente fica maior, nossa língua usa mais espaço. Mas sair de Martian Manhunter para Ajax, tipo, do nada?!? O que que tem a ver???

Li uma vez um artigo do Jotapê Martins falando sobre o primeiro filme dos X-Men, e falando de um dos vilões do filme, o Groxo. Nesse artigo o Jotapê faz seu mea-culpa (literalmente), explicando que, depois do filme, o Sapo (seu nome é Toad no original) "não poderá mais ser chamado de Groxo como ocorre nas revistas". Boa, Jotapê. Reconheceu o erro, pediu desculpas, gostei*. Tudo bem que, da primeira vez que vi o Groxo, com aquela roupinha ridícula de bobo-da-corte-assistente-de-cientista-maluco-da-idade-média, achei que o nome... cabia bem na figura feia e saltitante. Mas você não tinha como prever que ele no futuro teria uma mutação secundária que o faria ficar mais anuro ainda como pedia seu nome original. É, tô falando da bendita língua que aparece, e é bem utilizada, por sinal, no filme (e não aquela mostrada por Phil Jimenez no arco Planeta X dos Novos X-men, da espessura de um punho, permanentemente para fora e inútil; como é que ele conseguia falar, e muito, com isso saindo da boca?). Tudo bem.

Outro caso, tão esquisito quanto o do Ajax, é o do... Magnum! Tudo bem, concordo que traduzir Wonder Man ia ficar no mínimo ridículo, e ia acabar com toda a seriedade e masculinidade do cara. Quem ia levar a sério um fortão no grupo chamado de Homem-Maravilha? Putz... Tiveram a boa ideia de não traduzir o nome literalmente, daí resolveram rebatizá-lo. Mas, hum, vamos ver, o que poderia ser mais másculo que maravilha e melhor pra refletir os poderes dele, hein? Já sei! Magnum! Hã? WTF?!? Seria por causa dos óculos escuros, lembrando o galã que, talvez, na época, fazia tanto sucesso (pelo menos para o tradutor) com o ator Tom Selleck (quem se lembra desse seriado, hein)? Po, deixava o cara com o primeiro nome que deram pra ele, quando ainda era vilão, apesar de ser um nome bem clichê de supervilão: Poderoso, ou Homem-Poderoso, sei lá. Mas, Magnum? Não...

E o Super, como fica? Por que deixou de ser homem e virou man? Reflexo do imperialismo cultural norte-americano? Talvez. Tendência da maior anglicanização do português num processo natural de desenvolvimento da língua? Duvido. Imposição econômica do mercado? Provável. Sei que fizeram isso com Guerra nas Estrelas. Quem chama a primeira trilogia de Guerra nas Estrelas é da época dela, ou até da geração anos 80 (meu caso). A segunda trilogia hoje só é chamada de Star Wars (ainda mais pelos fanboys dos anos 90 em diante), e foi devido a imposição da marca mesmo. Decidiu-se que os subtítulos dos filmes poderiam ser traduzidos (Ameaça Fantasma, Guerra dos Clones, etc.), mas o título principal deles, em qualquer lugar do mundo, deveria ser, sem exceção, Star Wars. Ao que parece, algo semelhante ocorreu com o escoteirão de Krypton. As importadoras de produtos como bonecos, lancheiras, camisas e outros produtos com a marca do famoso S não quiseram mais gastar com adaptações e novas embalagens, e quiseram unificar o nome usado no mundo todo visto que a fabricação desses itens se dá geralmente num único país e exportado aos demais. Por isso essa pressão cada vez maior em se utilizar Superman ao invés do já tradicional e bem aceito Super-Homem em português.

Fui, certa vez, na casa de uns primos, e seus filhos estavam assistindo um DVD do desenho da Liga da Justiça. Peguei a capa do DVD e perguntei para os moleques se eles sabiam quem era cada um ali mostrado na capa. Chegando na figura verde do marciano, falei que era o Ajax, ao passo que eles fizeram cara de estranhamento e disseram "não, é o Jon-Jonz!" Fiquei com cara de tacho, parecendo que tava mentindo pra eles, mas a mãe deles pegou a capa do DVD e na sinopse dele estava escrito algo como "Batman, Flash, Mulher-Maravilha... e Ajax: sete dos mais poderosos heróis..." Confiram a descrição do DVD à venda no Submarino. Repararam no nome do Ajax, apesar de no desenho em nenhum momento ele ser chamado assim? Outra coisa, repararam que na sinopse Kal-El foi chamado de Super-HOMEM?

Vou apresentar algumas contradições encontradas entre o nome dado ao personagem e o texto de algumas de suas histórias, advindas da nova nomenclatura que pretendem dar ao personagem. Primeiramente em três revistas em que o personagem é chamado exaustivamente de Superman, mas aí chega uma hora do texto em que não dava mais pra manter isso, senão seria perdido o jogo de palavras.

- Em Superman Paz na Terra, na antepenúltima página (4ª de trás pra frente): "Vejo agora que assumir essa responsabilidade foi ambicioso demais para um homem, mesmo sendo um Super-Homem.” Ué, até há pouco ele era Superman, na verdade ao longo de muitas páginas, mas nesta única frase ele voltou a ser Super-Homem rapidinho!

- Outra, em Cavaleiro das Trevas II, a Mulher-Maravilha pergunta: “Onde está o herói que me lançou ao chão e me tomou como um prêmio merecido? Onde está o deus cuja paixão destroçou o topo de uma montanha? Onde está esse homem? Onde está esse Super-Homem?” É, né, Diana, na hora do vamuvê ele deixa de ser Superman e vira um Super-Homem, né, safadinha?

- No arco de histórias de Lex Luthor Homem de Aço (muito bom por sinal, como eu disse as melhores histórias do Super-Homem não são histórias do Super-Homem), capítulo 5, últimas páginas, Lex fala: “Você não pode (ver minha alma). Pois, se a enxergasse, veria um homem que optou por negar a felicidade a si mesmo (...) pelo mundo. Um mundo sem um 'super-homem'.” Poxa, ficou legal, não? Dá mais sentido às palavras de Luthor quando se representa o adjetivo do nome de Kal-El, um qualificante de seu poderio e de sua posição no mundo.

- Agora, o lado contrário, quando decidiram que não ficaria legal martelar a cabeça do leitor com o nome Superman em toda a revista e só numa única frase desdizer tudo de antes e jogar sua versão traduzida. Pegue seu exemplar de Maiores Histórias Superman DC 70 anos, vá até a página 90 e leia: “Pelos próximos 72 anos, homem e supermen colonizaram os céus.” Horrível, não? E separei só uns poucos casos, com certeza há mais parecido com isso por aí (não acompanho a revista do Azulão mensalmente para mostrar mais).

Retomando Pequim. Há estudiosos que defendem o uso da palavra Pequim para se referir à cidade, visto seu uso já consagrado no português, inclusive com palavras derivadas, como a raça pequinês, por exemplo. Não vamos mudar o nome da raça para beijingnês, obviamente. O mesmo caso eu digo do Super: percebam que, todas as vezes em que órgãos de mídia se referem ao último filho de Krypton, chamam-no de Super-Homem. Perguntem para seus familiares, sejam pais, avós, ou mesmo primos de mesma idade, mas que não conheçam bem ou não leiam HQ: eles vão falar Super-Homem. Até mesmo referências dentro da cultura pop, inclusive seriados com bastantes afinidades com quadrinhos, como Heroes ou The Big Bang Theory, citam o herói como Super-Homem, e não Superman. O conceito de Nietzche, já consagrado em nosso idioma pátrio, é o do super-homem, não o do superman. Cara, passamos mais de 5 décadas chamando o cara de Homem, e agora sem mais nem menos vamos chamá-lo de Man? São pelo menos 50 anos ouvindo seu nome em português para abandoná-lo assim!

Conclamo todos nós a usarmos simplesmente aquilo a que nos fomos acostumados a ouvir a vida inteira. Não é mais simples usar aquilo que sempre usamos? Para que nos rendermos a uma imposição artificial e engolirmos o termo americanizado, se já temos nosso termo próprio? Entendo que as línguas evoluem, adaptam-se, mudam com o tempo e aceitam incursões de outros idiomas; adição de estrangeirismo é perfeitamente normal. Mas somente quando não temos um termo específico em nosso idioma para aceitá-lo. Usar uma forma estrangeira forçada goela abaixo em detrimento de um termo já tão bem traduzido e arraigado culturalmente em nosso idioma há décadas... isso para mim sim é antinatural!

Ou vamos agora mudar tudo? Afinal de contas, ainda falamos Homem-Aranha, e não Spiderman. Até quando? Falamos Homem de Ferro, e não Iron Man. Por quanto tempo? Vamos ver o futuro filme dos Vingadores, ou o filme dos Avengers? Quarteto Fantástico ou Fantastic Four? Mulher-Maravilha ou Wonder Woman? Podemos continuar assim ad aeternum...

Vocês podem até falar "poxa, mas são ordens editoriais e tal...", mas vamos lembrar comigo o caso do Shazam. Quer dizer, do Capitão Marvel. Viu, muita gente confunde o nome do cara, achando que é Shazam. Isso deveu-se a problemas de direitos autorais; quando a DC adquiriu os direitos do personagem, a Marvel já era detentora da marca Capitão Marvel. Logo, a DC teve de publicar seu herói usando na capa de suas revistas o título Shazam. Fica aí minha sugestão. Panini (ou qualquer outra que possa publicá-lo por aqui), que tal mostrar o título da revista como Superman, mas à parte isso, dentro dela, em todo o seu conteúdo, chamar o personagem da nossa forma tão conhecida, Super-Homem mesmo? Deixa os personagens dentro da história, ou o texto lá dentro, usando homem, só na capa se manteria o man. Não atrapalharia a questão da marca, e manteria a nossa tradição linguística na versão aportuguesada, além de evitar problemas como os expostos nos exemplos que dei lá em cima. Isso seria muito trabalhoso, seria tão difícil?


Seria um trabalho para o Super... Homem?




Vídeo sugerido: Eu tinha que ser um Super-Homem?




terça-feira, 20 de outubro de 2009

REFERÊNCIA OU CÓPIA?

Eu sei que existem personagens que são feitos em homenagem a outros. É o caso do Samaritano, de Astrocity. Ele é claramente uma alusão ao Super-homem. Da mesma forma que os inimigos do Planetary são uma clara referência ao Quarteto Fantástico. Agora... existem casos de personagens muito parecidos, e não sei se são declaradamente referências aos personagens de outras editoras ou se poderiam ser considerados cópias mesmo. Veja os exemplos abaixo, comparando personagens das duas grandes: Marvel Comics e DC comics.

Arqueiro Verde X Gavião Arqueiro

A diferença básica entre os dois personagens é que o Arqueiro Verde é milionário. Compare o resto... Ambos são exímios arqueiros que disparam flechas especiais. Até aí, normal, existem vários personagens que o são, inclusive fora dos quadrinhos. Só que os dois são também bastante ágeis, lutam bem e fazem ou um dia fizeram parte de uma equipe de megapoderosos: o Gavião Arqueiro dos Vingadores e o Arqueiro Verde da Liga da Justiça. Até o temperamento dos dois às vezes é parecido.


Flash X Mercúrio

Existe alguma dúvida? Ambos são os velocistas mais conhecidos de cada uma das editoras. Hoje em dia (ou pelo menos até quando li) o Flash passou a ter uma série de outros poderes por causa da supervelocidade, como atravessar paredes e destruir um objeto (às vezes até uma construção) fazendo-a vibrar. Só que o Flash mudou com o tempo. Da mesma forma que o Super-homem em suas primeiras histórias não voava, apenas saltava alto, o Flash do passado também era mais limitado. Aliás, o Mercúrio parece ser exatamente esse Flash mais limitado. É apenas superveloz, sem poderes extras por conta disso, e nem é tão rápido quanto o Flash atual. Até o uniforme do Mercúrio, se você observar bem, também leva relâmpagos nos detalhes, símbolo do Flash.

Super-homem X Gladiador

Esse é uma referência mesmo, como existem tantas outras ao homem de aço. O Gladiador, para quem não conhece, faz parte da guarda imperial do império Shiar, que de vez em quando aparece nas histórias dos X-men. Em outras palavras, é um supercoadjuvante meeeeeessmo! Seus poderes: Voo, megaforça, megarresistência (até aí, é só um modelo básico), dispara raio de calor dos olhos e pode dar um supersopro. Opa! Super-homem total, não é? A diferença: o poder do Gladiador depende de sua confiança, enquanto o do Super depende do Sol. Mas, como disse, ele não é cópia, é uma referência mesmo. Reparem na capa da revista, onde está escrito “Homem e super-homem", em que a equipe enfrenta o Gladiador. E na capa da revista do Super-homem onde está escrito: "Super-homem enfrenta uma legião de super-heróis". Ambas foram feitas por John Byrne. Assim ele evidencia que o Gladiador é uma referência ao Super-homem. Seria a legião uma referência ao Quarteto Fantástico também? Um gênio como líder, um brutamontes, um que tem poderes ligados ao fogo e uma garota que fica invisível? Parece...

Caçador de marte X Visão

Das comparações que fiz, esses são os menos parecidos. Já é um exemplo de como dois personagens podem ser parecidos conceitualmente. Repare: ambos são, ao seu modo, alienígenas. O Caçador porque é de Marte, o Visão porque é um robô (Opa! Desculpe, um sintozoide). Ambos têm uma maneira fria de pensar e agir (estou falando do Visão de personalidade robótica mesmo, e não do Visão cheio de sentimentos que se casou com a Feiticeira Escarlate). Ambos são considerados sombrios e às vezes provocam calafrios nos próprios membros de suas equipes. Na aparência, os dois voam com leveza, usam longas capas e são “carecas” de olhos fundos e frios (compare as gravuras e diga se não são parecidos). O Visão, além de voar, tem certo controle sobre seu corpo, que o permite ficar intangível ou muito rígido. O Caçador de Marte também voa, também pode ficar intangível, é invulnerável e controla seu corpo, podendo moldá-lo. O Visão dispara raio dos olhos e o Caçador de Marte lê mentes, é nesse ponto que se diferenciam. Eu acredito que o Visão pode ter sido inspirado na figura do Caçador de Marte, o que não caracteriza uma cópia, pois eles são semelhantes, mas ao mesmo tempo possuem diferenças fundamentais. Digamos que seja um estilo de personagem... Particularmente, gosto dos dois.

Namor X Aquaman

Os dois reis do mar. Quer dizer, o Namor é o príncipe submarino, enquanto o Aquaman é um rei. Rei dos Atlantes, uma raça que na DC vive debaixo d’água, assim como os... Atlantes, uma raça que na Marvel vive debaixo d’água. Nada sutil, né? Ambos podem respirar tanto na água quanto na superfície. Ambos possuem força e resistência sobre-humanas. É verdade que o Aquaman pode convocar mentalmente animais aquáticos e o Namor, voar por causa de asas nos tornozelos (não sei o que é pior: o fato de que asas tão pequenas obviamente não o permitiriam voar ou imaginá-lo com grandes asas nos tornozelos), mas o Aquaman é claramente uma resposta à criação do Namor nos domínios dos mares das editoras. Existe alguma dúvida? Aliás, para quem veio até esse blog em busca da resposta para o probleminha de lógica, o Namor é a resposta. Dos cinco casos citados, os quatro primeiros personagens da Marvel foram criados depois dos da DC, o Namor é o único que a Marvel criou antes. Portanto, se houve cópia ou referência, os personagens da Marvel que foram inspirados nos da DC, com exceção dos mestres do oceano.
Existe ainda o caso do Monstro do Pântano da DC e o Homem-Coisa, da Marvel. Também há grande semelhança. Porém, isso envolveria falar de um outro personagem, ainda mais antigo... Deixo para vocês então um link para outro blog, que fala mais aprofundadamente sobre o assunto: http://www.uarevaa.com/2009/10/o-monstro-do-pantano-criatura.html