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terça-feira, 19 de julho de 2011

O Tempo nas Histórias em Quadrinhos: subvertendo a ordem de leitura



“Não há futuro. Não há passado. Percebe? O tempo é simultâneo, uma joia intrincada que os humanos insistem em enxergar um lado por vez, embora a estrutura toda seja visível em todas as facetas.”
- Dr. Manhattan


Tive a oportunidade de dar uma palestra para a II Jornada de Romances Gráficos da UnB versando sobre Tempo nos Quadrinhos e Subversão da Ordem de Leitura. A apresentação foi um apanhado de alguns assuntos já comentados neste blog aqui e ali, mais alguns acréscimos que fiz especialmente para ela. Abaixo, tentarei transcrever um pouco do que apresentei; então, para os leitores do blog, perdoem-me se em algum momento me repetir o que já disse ou mostrei emposts anteriores. Para quem viu a palestra, perdoem-me se deixar de expor aqui algum comentário que fiz ao vivo (ao fim do post, acrescentei mais informações a partir de sugestões obtidas após a palestra). E obrigado por terem comparecido! Vamos lá (lembrando que os exemplos aqui não são exaustivos, mas meramente ilustrativos da infinidade de possibilidades existentes).


A frase que abre este post é retirada do capítulo IX de Watchmen. Dr. Manhattan se refere a sua própria percepção do tempo, mas eu digo que esta frase na verdade pode se referir a esta mídia específica chamada (no Brasil) de histórias em quadrinhos e diz respeito tanto à sua ordem de leitura quanto à sua passagem do tempo.



Segundo Scott McCloud, em seu livro Desvendando os Quadrinhos, nos quadrinhos a percepção da passagem do tempo se dá espacialmente. Explicarei isto melhor mais adiante. Neste excerto de Quadrinhos e Arte Sequencial acima, de Will Eisner, retiramos duas valiosas informações sobre o formato. A primeira informação é sobre o que chamamos de ordem canônica de leitura de quadrinhos (pelo menos no mundo ocidental, pois em mangás, por exemplo, rege a ordem exatamente inversa), da esquerda para a direita e de cima para baixo, algumas vezes desenhando essa marca do Zorro visível acima. A segunda informação, menos óbvia que a primeira, mas bastante interessante, é o que gosto de chamar de metaquadrinho: a página como um todo, responsável por conter todos os quadrinhos propriamente ditos em seu interior. Isto será visto mais à frente também.



Inicialmente, ao tratar da passagem no tempo nos quadrinhos, vamos falar da forma utilizada por Fernando Gonsales para alongar o tempo em uma de suas tiras de Níquel Náusea. Em vez de utilizar o padrão de três ou quatro painéis, o autor preferiu pegar um deles e dividi-lo em seis quadros menores, aumentando o "espaço" a ser percorrido pelo olhar do leitor, fazendo-o, assim, demorar-se mais enquanto acompanha quadro a quadro toda a trajetória lentamente percorrida pelo caramujo. O alongamento do tempo se dá devido à contemplação individual de cada leitor em cada painel desenhado.





Utilizando um exemplo de los hermanos argentinos, neste caso de Liniers, podemos verificar um caso em que a leitura não segue o padrão canônico apresentado por Eisner no início deste post. Nesta tirinha, chamada sugestivamente de Esquina, os dois personagens caminham em sentidos opostos até se encontrarem no meio. O tempo, neste exemplo, seguiria então a direção das bordas para o centro, onde o passado restaria nos extremos esquerdo e direito da tirinha, sendo o presente encontrado no centro de atenção do metaquadro. Ao leitor caberia a oportunidade de, prostrando-se de frente ao desenho por inteiro, voltar seu olhar tanto para a esquerda quanto para a direita, e desta forma acompanhar a trajetória de cada um dos personagens ao longo do tempo, do presente para o passado ou do passado até o fatídico beijo eternizado na esquina da diagramação proposta.




Falando em direções subversivas da ordem de leitura, remeto-me novamente ao super-herói curitibano O Gralha, cujas histórias podem apresentar tom de humor, aventura ou mesmo de experimentação pura. Como o caso exposto aqui por Antonio Eder, em que o herói parte em perseguição a um vilão, e esta corrida dita a ordem de leitura a ser seguida no decorrer da página. Reparem que, em determinado momento, o autor divide essa ordem de leitura quando os protagonistas se separam no decurso da narrativa, o vilão descendo do elevador um andar acima de onde sai o Gralha, mas logo mais à frente se encontram para continuar a perseguição em outra página (não mostrada agora mas já mostrada anteriormente no blog). Outro ponto curioso é a escolha do autor em preencher inclusive quadrinhos não utilizados pelo seguimento da história, como evidenciado pela janelas onde dois pássaros cantam um para o outro frente a frente.




Voltando para a obra de Scott McCloud, no capítulo de seu livro em que trata sobre o tempo nos quadrinhos, o autor nos apresenta esta imagem bastante alegórica acima. Todo o desenrolar dos eventos ao longo deste quadro único é desencadeado por um flash disparado pela máquina fotográfica do Tio Henry. Esta foto causa a reação do casal fotografado, o que por sua vez gera o comentário da senhora com o champanhe em mão, que por sua vez ocasiona a intervenção de sua filha, culminando no apontamento maldoso de um dos senhores jogando xadrez. Digo alegórica porque, apesar de à primeira vista este quadro aparentar, como uma fotografia, um momento congelado no tempo, na verdade não se trata de um momento único, mas sim de vários eventos capturados na mesma imagem, cada um com sua duração distinta do outro (denotada pelos balões de fala e o tempo gasto pelo leitor para ler cada um). Neste quadro específico, o leitor possui a capacidade de, tal qual o Dr. Manhattan, perceber no mesmo instante vários momentos diferentes, da esquerda para a direita, sendo exposto ao mesmo tempo ao passado e ao futuro, tanto à causa quanto a seus efeitos. Esta é uma característica marcante dos quadrinhos, a capacidade de expor uma narrativa tanto sequencial como simultaneamente.




Outros exemplos do caráter simultâneo e sequencial desta mídia, mas bem mais antigos, de 1934, são de páginas dominicais de uma tirinha chamada Gasoline Alley, de Frank King. O autor escolheu ambientalizar sua história num mesmo cenário, fixo, em que se transcorreria toda sua narrativa (um buraco de piscina, no primeiro caso, e uma construção, no segundo) e inseriu seus personagens percorrendo todo o metaquadrinho ao longo do tempo (no segundo exemplo, um casal sendo perseguido* por um sujeito de chapéu). Importante salientar que, enquanto o segundo caso se foca na sequencialidade da perseguição, no primeiro há pequenas historietas autocontidas e fechadas em cada quadrinho, havendo o enfoque na simultaneidade. Neste último, novamente é como se o leitor, imbuído da percepção temporal única do Dr. Manhattan, percebesse simultaneamente os vários instantes percorridos pelos três amigos num mesmo espaço.




E, assim, remeto-os novamente ao exemplo já comentado aqui, da história de Greyshirt em Tomorrow Stories - promoção relâmpago não sei até quando na Comix, seis edições por apenas R$ 14,90 aqui --, por Alan Moore e Rick Veitch (acima). Trata-se de um edifício apresentado no metaquadrinho geral da página, em que cada andar situa-se numa época diferente, distante um do outro por exatas duas décadas. Fora alguns elementos gráficos usados para situar o leitor no período em que cada andar (ou cada painel da página) se encontra, como a marcação do ano à esquerda ou mesmo calendários, jornais e cartazes dentro dos quadrinhos, há ainda um elemento constante: a figura caricata de uma pessoa vestida sempre de verde com seus óculos de aros redondos. Dependendo de que ano está (ou em que painel aparece), esta pessoa encontra-se na sua infância, adolescência, adultez ou senescência. Nesta bem contada "ginástica narrativa", os autores entregam o poder de decidir a ordem de leitura para seus leitores, permitindo-os percorrer a história seja verticalmente, através das décadas (ou dos painéis), ou horizontalmente, mantendo-se sempre estacionado em um mesmo ano (ao longo das páginas). Mais uma vez, o leitor tem a capacidade de decidir a ordem da passagem do tempo que deseja, vislumbrando o todo nos distantes 60 anos que separam o primeiro painel do último e escolhendo se quer percorrê-los sincrônica ou diacronicamente.

*Curioso observar como os temas "perseguição" e "prédio" são recorrentes neste exemplos...

Para finalizar, apresento uma imagem, também bastante simbólica, de Promothea, por Alan Moore e o sempre excelente J.H.Williams. As duas personagens percorrem uma certa passarela em forma da Alça de Möbius (ou lemniscata), que representa o símbolo do infinito. Em determinado instante, uma das personagens percebe a sua presença em outro ponto da calçada, mas alguns minutos atrás, e chega a apontar para si mesma do passado. A outra personagem, noutro momento, comenta estar tendo uma sensação de déjà vu por achar já ter passado por aquele caminho antes. Cabe ao leitor, se assim o decidir, escolher ativamente mudar de página ou ficar revisitando este loop, apresentado tanto em sua totalidade (simultaneidade) quanto em suas particularidades (sequencialidade). Finalmente, uma das personagens se dá conta de que este loop em que se encontram serpenteia não só pelo espaço, como pelo tempo. E assim o ciclo se fecha, pois a metalinguagem presente neste metaquadrinho aponta diretamente à mídia em que se encontra, uma mídia cujo tempo se apresenta como espaço, e vice-versa, permitindo infinitas possibilidades àqueles autores que ousarem subverter e brincar com a passagem do tempo nos quadrinhos.


-THE END-



ADENDO:
Graças à sugestão da (também palestrante) Raquel Perrine, acrescento neste post passagens de outra obra de Alan Moore: Do Inferno. No início de seu segundo capítulo, há uma página inteira completamente no escuro (deixando também o leitor exatamente "no escuro"), com quadrinhos aparentemente non sequitur, havendo uma única constante: a misteriosa indagação "O que é a quarta dimensão?".

A medida que o capítulo transcorre, o leitor percebe que esta primeira página apresenta glimpses da vida do personagem William Gull, cada painel representando uma passagem ou momento específico que ele vivenciou. A repetição da pergunta indica ao leitor como o tempo está sendo manipulado aqui, retratado espacialmente numa única página. Mais à frente, é mostrada a teoria de C. Howard Hinton, filho de um dos personagens do diálogo abaixo, apresentada numa monografia intitulada O que é a quarta dimensão? Segundo ela, o tempo seria uma ilusão humana, pois "todas as eras coexistiriam no todo estupendo da humanidade", como "padrões quadridimensionais no interior do Monolito da Eternidade". A quarta dimensão, para Gull, seria uma espécie de arquitetura do tempo, dentro da qual diferentes níveis temporais seriam relacionados a outros. Quase como a estrutura da página de um quadrinho e sua relação com outros quadrinhos na história.

O Monolito da Eternidade nos remete, novamente, à joia intrincada preconizada por Dr. Manhattan no início deste post. Assim, recomendo também, obviamente, a leitura do capítulo IV de Watchmen, que dá ao leitor uma mostra (e um gostinho experimentá-lo) de como o Dr. Manhattan vê o mundo e percebe a passagem do tempo, num jogo de enquadramentos cuja experiência só os quadrinhos podem passar.

Agradecimentos:
À organização da Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos da UnB, o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, pela oportunidade.
À minha esposa, Úrsula, pela paciência e ajuda com os slides.
À Gabi, pela ajuda com o power point.
Ao Guilherme, brother in arms deste blog (que também apresentou uma palestra, vide o post anterior), por ter me metido nesta enrascada.
Ao Ciro I. Marcondes, do Raio Laser (também palestrante), pela sugestão do livro Narrativa Cinematográfica.
A todos que assistiram a palestra, meu muitíssimo obrigado!


Quadro sugerido: Paradise, de Lucas Cranach der Ältere.
Trabalho acadêmico sugerido: Alan Moore and Graphic Novel: confronting the fourth dimension, disponível aqui.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Algumas leituras recentes

Fazia um tempo que não escrevia aqui, mas estou de volta. Vou aproveitar para comentar as histórias que li nesse período de ausência, partindo do princípio que sempre tem alguém que vê um encadernado nas lojas e gostaria de ter uma opinião. Bom, pelo menos eu sou assim. E como existem revistas novas e outra antigas nesse grupo de potenciais compras, vou simplesmente comentar tudo o que li nesses meses.

Oceano
Oceano é a primeira da lista porque foi a que mais gostei. Há que se considerar que eu já estava com vontade de comprá-la há um tempo, que eu gosto da estética do espaço sideral e que gosto de Warren Ellis. Mas nem por isso quer dizer que não teria senso crítico em relação a obra, além do que minha expectativa já estava alta, somando todos os fatores.
Para quem gosta de ficção futurista, principalmente as que se passam no espaço, essa é uma boa história, que no caso está no formato de quadrinhos. Poderia ser um livro, poderia ser um filme. Aliás, a linguagem que o autor usa nessa história é bastante cinematográfica. As imagens estão bem bonitas, souberam aproveitar a beleza do espaço sideral e dar a ele seu devido espaço (desculpe o trocadilho infame) nas páginas do encadernado. O tema é interessante: uma história de mistério entremeada por uma visão de futuro, da exploração espacial e da humanidade. Recomendo muito esse encadernado!

Transmetropolitan
Já que comecei com uma obra de Warren Ellis, vou dar sequência com outras. Transmetropolitan também se passa no futuro, mas esqueça as belas visões dos planetas e estrelas... Aqui o tema central é a Terra, mais precisamente uma imensa cidade, para a qual o protagonista é forçado a voltar após anos de isolamento. Os desenhos são sujos, representando a visão de futuro retratada, principalmente no que tange centros urbanos, diferenças econômicas e sociais, megaempresas, seitas religiosas (ou pseudorreligiosas)... Aparentemente Ellis dá vazão a todo o seu pessimismo em relação ao futuro da humanidade nessa história, e através da voz de Spider Jerusalem liberta todo o seu criticismo em relação aos asssuntos abordados. Boa história, aguardo a continuação...

RED
Também li RED, do mesmo autor. Trata-se de uma revista em 74 páginas sobre um ex-agente secreto, ex-mercenário ou ex-algo-do-tipo que tava quieto, curtindo uma folga, até mexerem com ele. Foi a história na qual se basearam para fazer o filme de mesmo nome (que, confesso, ainda não assisti). Bom, é uma história legal, mas é bem rápida. Em uma sentada você lê inteira. Não tem a mesma profundidade e riqueza que as obras do Ellis em geral têm, mas é divertida.

O Invencível Homem de Ferro: Extremis
Para fechar a sequência de obras do Warren Ellis, Extremis. OK, trata-se de uma história do Homem de Ferro, personagem que nunca me agradou muito nos quadrinhos, com exceção de uma certa saga da armadura viva. Acredito que escritor bom pega qualquer personagem e faz uma boa história. É o caso em Extremis. Não existe nada de muito diferente das histórias comuns do Homem de Ferro, no que tange a ambientação, mas tem a pegada do Ellis. Além disso, ele realmente transformou o Tony Stark em um verdadeiro homem-máquina. Não quero estragar a surpresa para quem ainda não leu...

Tocha Humana: Recriando uma Lenda

Saio das obras de Ellis, mas como falei no Homem de Ferro, começo a sequência Marvel, já com um grande autor, que é Alex Ross. Comentei em post anterior a qualidade de suas obras em uma das minhas favoritas, que é Os maiores super-heróis do mundo. Em Tocha, a arte não é dele, nem o roteiro, mas a história foi escrita por ele e Mike Carey. Não sei se por influência do pintor de quadrinhos ou não, a história ficou bem legal. Ele tira da sepultura (embora não tenha sido o primeiro) o Tocha Humana original (aquele da Segunda Guerra Mundial, que lutou ao lado do Capitão América e Namor) e remonta o quebra-cabeça de sua origem. Dá um novo ar ao personagem, que não retornou com sua compaixão, e um drama especial em relação a sua própria longevidade, além de colocá-lo dentro de uma história, no mínimo, peculiar. Vale a pena essa minissérie em duas edições, mesmo para aqueles que não acompanharam a história do Tocha original ou não se interessam muito pelo personagem, como eu.

Mitos Marvel
Falando em origens, o encadernado Mitos Marvel apresenta uma releitura dos mais famosos heróis da Marvel, como Quarteto Fantástico e Homem-Aranha. Trata-se de um releitura mais atualizada, moderna... legal, mas também não traz nada de novo ou muito original. Para quem não conhece muito bem o mundo dos super-heróis da Marvel e estiver interessado em uma leitura sobre suas origens, é uma boa compra.


Magneto: Testamento
Um outro caso é Magneto: Testamento. Sua origem é remontada com bastante precisão histórica. Todos sabem que Magneto foi um refugiado judeu dos campos de concentração nazista, mas nunca tinham parado para contar como ele realizou essa proeza, principalmente levando em conta que só foi desenvolver seus poderes muito tempo depois. Na minha opinião, a maior qualidade da obra pode ser considerada também seu maior defeito. Como disse, Magneto não desenvolveu seus poderes no período. Então, os leitores que estiverem esperando o vilão fantasiado, ou mesmo um momento de fúria em que seus poderes se manifestam temporiamente, vão se frustrar. Por outro lado, a história é bem verossímil e poderia ser muito bem a narração de sobrevivência de um judeu qualquer, sem poderes.

Wolverine: Inimigo de Estado
Boa história. Ambientada no cenário mais atual da Marvel, com a retomada do conceito Wolverine: máquina de matar. Um tanto exagerada, como não é raro nos roteiros de Mark Millar. Enredo bem amarrado, conta com a participação também de outros personagens do universo Marvel e consegue prender a atenção e interesse do leitor. Fazia tempo que eu não lia Wolverine. Desde que ele se tornou o personagem megapop da Marvel, tendo história própria, nos X-Men e também nos Vingadores, enjoei um pouco. Wolverine: Inimigo de Estado, porém, valeu a pena.

Enciclopédia Marvel: Surfista Prateado
Achei a leitura um pouco cansativa. E também houve uma quebra de expectativa, pois esperava ler as primeiras histórias do Surfista: o planeta sendo tomado por Galactus, ele se transformando em seu arauto, o ataque do devorador de mundos à Terra, a revolta do Surfista e sua prisão ao nosso planeta. Só que a Enciclopédia Marvel: Surfista Prateado narra exatamente a fase posterior a isso, ou seja, ele preso à Terra e tentando escapar dela. Aparentemente foi o período de maior sucesso do personagem. As reflexões dele sobre os terráqueos também foram legais. Contudo, achei seus constantes pensamentos melodramáticos um tanto chatos, e as histórias não fluem muito bem. Enfim, essa leitura eu não recomendo, a não ser aos fãs incondicionais do Surfista Prateado, ou àqueles que conhecem essa fase específica e gostariam de ler.

Liga da Justiça por Grant Morrison
Muito boas as histórias desse encadernado. Bem ao estilo Liga da Justiça mesmo - grandiosas, ameças cataclísmicas -, com o estilo do Grant Morrison, autor que eu particularmente gosto. É verdade que só li as histórias porque foram escritas por ele (eu e o Rodrigo, atualmente, compramos mais pelos nomes dos autores do que pelos personagens da capa). Histórias de aventura, também um tanto exageradas, em uma formação da Liga com alguns dos personagens mais marcantes da DC. Já li algumas edições posteriores, que vão além do encadernado, e vejo que vale a pena. Tomara que não interrompam a publicação dos encadernados no Brasil, que a Liga da Justiça de Grant Morrison não fique apenas no volume 1.


Pixu
Pixu está numa linha mais alternativa de quadrinhos. Publicado pela Devir Livraria, narra uma história de terror com arte em preto e branco. Ou melhor, preto, branco e tons de cinza. Quando digo arte em preto, branco e tons de cinza, quero dizer que ela foi feita assim mesmo, nada a ver com aquelas versões econômicas de material estrangeiro. O uso dessa arte é, aliás, um de seus pontos fortes: dar um ar mais sombrio à obra. O enredo é interessante, original (bom, pelo menos para mim, mas não sou grande conhecedor de histórias de terror). O tipo de terror que eu gosto, em que o foco é na tensão, no suspense, no mistério. E é a história que te deixa apreensivo, não a quantidade de sangue. Leitura rápida também. Uma boa parte dos quadrinhos não tem texto, e mesmo que você passe lentamente por eles, não deve demorar mais que duas sentadas para terminar a leitura. Mas vale a pena.


EntreQuadros #1
Essa eu encontrei, por acaso, em um banca muito específica daqui de Brasília. Publicação independente de Mário César, com o selo Quarto Mundo. Algumas histórias curtas e divertidas, um tanto inusitadas e com uma boa dose de humor. Leitura rápida, bem rápida. De preço acessível, bem acessível (R$5,00). Não deve ser fácil encontrá-la em qualquer lugar para compra, por isso indico o site do Mário, http://www.masquemario.net/, a quem estiver interessado.

Zoo
Outra obra que li mais ou menos no mesmo período que as demais foi Zoo, de Nestablo Ramos, um autor aqui de Brasília. Porém, como já escrevi um post só sobre ela, quem quiser saber minha opinião sobre a obra pode ler o post mais antigo. Aqui, basta dizer que a obra ganhou o troféu Bigorna e que aguardo ansiosamente a continuação (prevista para Outubro, na Festcomics). E, como já me perguntaram onde comprar, em Brasília só vi a obra sendo vendida na Livraria Cultura. Indico também o site http://projetozoo.blogspot.com/, que tem um banner para compra.

Eu sou Legião
História de conspiração, envolvendo nazismo e o sobrenatural. Trama intrigante, bem amarrada, que mistura eventos totalmente verossímeis com o sobrenatural de uma maneira muito bem arquitetada. Um monte de personagens e bastante informação. Eu sou Legião é o tipo do encadernado que tem que ler com atenção aos detalhes, e preferencialmente ler mais de uma vez, para que após o final, algumas outras peças se encaixem na releitura. Leitura densa, mais lenta. Só não gostei muito das quebras de página, mas isso é um detalhe muito técnico, que de forma nenhuma prejudica a qualidade da obra.


Um Sinal do Espaço
Muito bom. Apesar de antiga, a história é bem interessante, envolvente. Tem lá suas limitações ligadas ao tempo em que foi produzida, mas não deixa de ser atual. Praticamente um policial, com uma dose de conspiração. Vi algumas semelhanças com essa história e Contato (o filme. Ainda não li o livro, embora já o tenha. Me disseram que são bem diferentes...). O enredo flui e vai gerando uma curiosidade em relação ao próximo capítulo. Destaque especial para arte de Eisner, que trabalha sua técnica de não utilizar a divisão em "requadros rígidos" (o quadrinho convencional) de maneira inigualável. Em diversas páginas ele usa o que chama, no seu livro Quadrinhos e Arte Sequencial, de "página como metaquadrinho". Aí vemos coisas fantásticas, como o desenho de um túnel ou formato do interior de um avião sendo usados como delimitação do quadrinho, no lugar dos quadrinhos convencionais.
Pequenos Milagres
Will Eisner também, então já é de se esperar algo de qualidade. Em Pequenos Milagres, o autor narra quatro histórias que se passam em um bairro judeu. Como ele mesmo diz, na abertura do romance gráfico, "os contos neste livro se parecem com as histórias que meus pais chamavam de 'meinsas'. E, embora sem apócrifos, eles foram destilados das minhas lembranças, que eram um patrimônio comum da nossa família". Quatro histórias interessantes e, de alguma maneira, tocantes. Leitura rápida, e de boa qualidade.

The Spirit: As Novas Aventuras
The Spirit: as novas aventuras reúne histórias do personagem The Spirit, mas não as escritas por Eisner, seu criador. A proposta foi justamente pegar grandes nomes dos quadrinhos atuais para que eles pudessem escrever histórias com o personagem, em uma espécie de homenagem. Trata-se de uma compilação de histórias interessantes, com destaque especial para as primeiras, escritas por ninguém menos que Alan Moore. Não é preciso já conhecer The Spirit nem ter lido nada dele. Vale a pena!

The Boys: o Nome do Jogo
Uma visão completamente diferente dos super-heróis. Ou melhor, dos seres com superpoderes que se intitulam super-heróis, mas na verdade são pessoas muitas vezes vaidosas e prepotentes, quando não mimadas, que estão apenas interessadas no retorno de vendas dos seus produtos. E os "garotos" que dão o nome a obra, no caso, formam uma equipe com a incumbência de segurar esse pessoal. Para quem está afim de novidade, de um enfoque diferente sobre um planeta com superseres, The Boys é uma boa pedida.

Os escapistas
Taí uma revista que trabalha a metalinguagem já em sua proposta. Trata-se de uma história em quadrinhos sobre alguém que faz história em quadrinhos. A história real de sua luta incansável para produzir quadrinhos. Em determinados momentos, trechos do Escapista - personagem que ele resgatou do fundo do baú - em situações que representam o próprio autor, tentando se livrar das dificuldades e problemas que apareceram no caminho. Os escapistas retrata o verdadeiro sonho de muitos leitores de quadrinhos, que não é o impossível "ser um herói com superpoderes", e sim o de trabalhar com quadrinhos, ou criar seu próprio personagem e que ele faça sucesso. De quebra, ainda é uma miniautobiografia (acho que bati meu recorde de prefixos nessa) do autor. Recomendo para leitores que tenham esse sonho.

Então é isso! No momento estou lendo Do Inferno, não sei se vou escrever sobre essa obra, porque pretendo ainda fazer um post só sobre Alan Moore. Tenho aqui, além dele, o terceiro volume da Liga Extraordinária. Então, quem sabe em um post futuro eu comente essas duas obras, e outras que estão na minha prateleira, só esperando para serem lidas, tais como Jogos de Poder, The umbrella academy: A Suíte do Apocalipse, Camelot 3000, O Chinês Americano... Se alguém quiser que eu comente uma obra específica, diga o nome nos comentários que se eu já tiver lido ou um dia ler, comento em outro post.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

(des) Construção

Olá!
Voltando ao tema da semana anterior, quando tratei sobre usos criativos do formato específico da mídia "quadrinhos" por meio de escadas desenhadas, ora se confundindo com os painéis da página, ora guiando o olhar do leitor e ditando a ordem de leitura pela tela, hoje apresento uma desconstrução desse mesmo formato.
Mas vamos começar por uma tira do início do século passado, do visionário Winsor McCay, intitulada Little Sammy Sneeze, que sempre girava em torno do pequeno Sammy do título espirrando e as consequências de sua poderosa e inconveniente esternutação. Mas eis que chega um ponto em que McCay se pergunta: e se o espirro de Sammy não afetasse as pessoas ou o ambiente ao seu redor, mas afetasse a própria noção de "ao seu redor" existente na tirinha? O resultado foi a excelente quebra da moldura da página (lembrando, isso se deu ainda na primeira década do séc. XX, por volta de 1904 a 1908)!
Do argentino Liniers, selecionei essas duas tirinhas de Macanudo. Na primeira, apenas uma maneira bem criativa de se aproveitar a forma da tira para narrar uma história, chamada Esquina. Simples, mas eloquente em sua simplicidade. Notem como a "ordem cronológica" dos acontecimentos nesta historinha não segue o padrão da esquerda para a direita, mas sim das bordas para o centro.
Nesta outra (ainda Macanudo, de Liniers), ele extrapola as margens de um quadro, e conta uma história a partir disso, brincando com a própria disposição da tira no formato de quadros sequenciais. Logo abaixo, uma outra versão baseada na mesma ideia ou conceito, mas retirada do hilário blog Um Sábado Qualquer, com Deus conversando com Adão.
Mais outra tira de Um Sábado Qualquer, usando duas linhas para dar um efeito diferenciado na descontrução do formato dos quadrinhos. Em baixo desta, outra com o tema parecido que encontrei na internet, chamada Borderline, de Adam Koford, com linhas coloridas em verde destacando cada parte da história sendo contada, de forma a melhorar seu entendimento (pois estamos tão condicionados com a forma padrão ou "canônica" de ler uma tira que quando nos vemos frente a uma forma diferenciada, achamos mais difícil compreendê-la).
Essas duas últimas nos remetem à primeira imagem de Madman no início deste post (já que falei de Madman, fiquem aqui com um uso bem criativo das "páginas" de uma edição, formando uma única imagem panorâmica ao longo de toda a revista). Exemplos como este há diversos, selecionei apenas alguns para demonstrar a desconstrução da ordem de leitura a que estamos acostumados.
Mas vamos partir agora para o estudo de caso que prometi. Com vocês, Sr. Alan Moore e toda a sua genialidade (mas não nos esqueçamos da importantíssima ajuda dos desenhos de Rick Veitch, sem os quais a história não teria sido possível). Tido como o responsável pela desconstrução do super-herói (com Watchmen), Moore no final do século iniciou o que ele chamou de reconstrução do gênero. Um dos selos responsáveis por isso foi America´s Best Comics (ou ABC), em que o mago barbudo lançou vários títulos, dentro da revista Tomorrow Stories, e entre eles Greyshirt, uma homenagem direta a The Spirit, do Eisner. Todas as histórias de Greyshirt não possuem foco no personagem em si, mas nos vilões que este enfrenta. É da segunda edição de Tomorrow Stories que retiro essa história. Atenção aos detalhes, abaixo.
A página é dividida em quatro quadros. Reparem que no canto esquerdo de cada quadro há uma data, de exatos 20 anos de diferença entre uma e outra, em ordem decrescente do alto até abaixo. Reparem na decadência do prédio, de baixo para cima, e na evolução do letreiro, onde vemos o nome Greyshirt (de modo bem eisneriano), ao longo das décadas.
Na segunda página, Moore, com a ajuda dos desenhos de Rick Veitch, utiliza o artifício de apresentar-nos o ano em questão dentro do próprio cenário em que transcorre a história. Reparem o calendário no primeiro quadro, um cartaz de um festival no segundo, outro calendário no terceiro, e, muy sutilmente, no canto inferior esquerdo da página, uma manchete de jornal indicando que Hitler invadiu a Polônia. Nesta página podemos perceber uma constante ao longo das décadas: um rapazinho/jovem/senhor/velho de roupas verdes e óculos de aros redondos.
Finalmente, já na terceira página, Moore e Veitch confiam que o leitor já tenha entendido o esquema e deixam de apresentar o ano em que cada painel é narrado. Reparem bem, exatamente como na história do Super-Homem com Lex Luthor do último post, os corpos das pessoas de épocas distintas se complementam na escadaria, numa ilusão de ótica entre os quadros 2 e 3 e entre 3 e 4 (desculpem, apareceu uma escada outra vez...).
Com a palavra, Alan Moore: "Em uma das histórias de Greyshit em Tomorrow Stories, nós fizemos algo bastante peculiar com o layout dos painéis. Um apartamento, num mesmo prédio, em cada página. Para adicionar outro elemento, nós fizemos com que os painéis do topo acontecessem em 1999, o segundo painel em cada página tomasse lugar em 1979, o painel de baixo deste em 1959, e na base de cada página se visse a base do edifício como era em 1939, quando ainda era um prédio novo. Nós fomos capazes de contar, por meio de uma complicada ginástica narrativa, uma interessante historinha apresentada através de 60 anos da história do edifício, com personagens ficando mais velhos dependendo em que painel e em que período de tempo eles estavam. Isto é algo que não se pode fazer em nenhum outro meio que não nos quadrinhos (comics)."
Alguém duvida do mestre Moore? É por estas e outras que o barbudo de Northampton é tido como um dos mais criativos e inovadores autores a explorar tão bem esta mídia, não só pelo conteúdo riquíssimo, como também pela forma inusitada. Se vocês notarem bem, esta história específica pode ser lida de várias maneiras possíveis. Pode ser lida da maneira usual, uma página seguida da outra, lendo os quadros de cima para baixo a como tradicionalmente estamos acostumados. Pode ser lida, ainda, tomando-se cada época individualmente, como por exemplo os quadros passados em 1999, e lendo-os em ordem (os primeiros quadros de cada página, depois os segundos quadros de cada página, os terceiros, e por fim lendo apenas os últimos quadros de cada página até o final). Pode ser lida também por ordem cronológica, ou seja, começando com a história isolada que transcorre em 1939, depois partindo para a história de 1959, até chegar à história mais recente, de 1999. Ou pode ser lida de baixo para cima em cada página (lendo o último quadro da página 1, depois o penúltimo, depois o segundo e finalmente o primeiro quadro; após isso repetindo esta ordem na página 2 e assim por diante). Todos esses modos trazem histórias fechadas entre si, o mais impressionante de tudo, todas as histórias, não importa a ordem em que forem lidas, ainda trarão elementos coesivos entre uma e outra, com a arte se complementando em vários pontos. A última página ainda traz uma "queda" conceitual através dos quadros e através das décadas. E toda essa riqueza em apenas 8 páginas de história...
Adoro essas quebras na narrativa, com várias possibilidades de sequenciamento sem manter a linearidade cartesiana. Adoro essas inovações, quando bem executadas, e essas desconstruções de padrões, sejam nos quadrinhos ou em qualquer outra mídia ou forma de arte. Isso força nosso cérebro a trabalhar de maneiras diferentes e não usuais, e serve como um bom exercício mental. Não concordam?


(No próximo post: Mês das Mulheres!)



Videoclipe sugerido: Imitation of Life, de REM.
Filme sugerido 1: Amnésia (Memento, 2000).
Filme sugerido 2: Elefante (Elephant, 2003).
Música sugerida 1: Construção, de Chico Buarque.
Música sugerida 2: Borderline, da Madonna.
Link sugerido: arquitetura e quadrinhos.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Metáfora espanhola

  Eu me perdi em Madri. No caminho para me encontrar, dei a sorte de passar em frente a uma loja especializada em quadrinhos. Pedi que me mostrassem revistas de autores espanhóis. Entre as opções, lá estava Paco Roca...


Perdido

  O encadernado que levei era Las Calles de Arena, que começa justamente com o personagem principal tentando pegar um atalho para chegar a um lugar mais depressa. Ele se perdeu exatamente da mesma maneira que eu. Só que não consegue sair dali por um bom tempo. Lá começa a passar por uma série de acontecimentos absurdos e personagens surreais. Essas histórias, que compõem sua jornada para sair do bairro, são extremamente metafóricas. Uma das primeiras pessoas que ele encontra é um senhor que está tentando sair do bairro, assim como ele, só que há anos. Tem a filosofia de que "es muy importante la planificación", no intuito de estar pronto para tudo. E, por ter medo de fracassar, ele nunca começa a viaje, pois nunca acredita estar plenamente preparado.
Em um outro momento, o personagem central (que não se lembra do próprio nome, pois saiu de dentro dele um doppelgänger, um ser que perdeu sua identidade tentando achar a lógica do barrio e por isso se dedica a robar la personalidad de los demás) encontra um vampiro, vivendo há séculos e colecionando coisas. Este novo personagem é absolutamente apegado a todas as bugingandas que guarda.  Tem por todas, como diz, “mucho aprecio”. Considera todos os objetos recordações preciosas para sua vida.
 
  À medida que a história vai avançando, percebe-se que uma certa mulher parece ter várias gêmeas, que executam diversos serviços básicos no bairro. Depois o personagem principal descobre a história de um coronel, cuja mulher morreu, e ele reproduziu um clone dela. Entretanto, o clone não o amava. Então ele continuou a reproduzi-los, chamando a todas de Eva...

  Cada história, cada personagem tem sua mensagem. E mesmo dentro delas existem frases extremamente interessantes e reflexivas, como quando o vampiro diz que não fez muita coisa durante seus séculos de vida, pois tem todo o tempo do mundo; e a senhora que, perguntada qual religião segue, diz que faz rituais a uns, preces a outros, pois nunca se sabe cuál puede ser al final la verdadera.

Arrugas

  O motivo que me convenceu a levar a história do Paco Roca foi porque ele ganhou o prêmio espanhol de quadrinhos em 2008 por uma obra chamada Arrugas. Então pensei: deve ser boa também. Minha mãe voltou da Europa agora e me trouxe o encadernado de presente. A história é bem mais curta, mas tem a mesma qualidade e estilo do autor.
  Arrugas fala sobre envelhecer. O personagem principal, Emilio, é levado a um asilo logo no início da história. Ele sofre de Alzheimer. Porém, além de tratar da doença na obra, o autor a usa para falar da velhice. Ele convive com diversos outros idosos, que possuem outras doenças. Porém, a metáfora é a de que todos eles vivem no passado. Pellicer, por exemplo, vive falando da época em que foi atleta olímpico, a medalha de bronze o tempo inteiro no peito, enquanto anda de um lado para o outro... com a ajuda de um andador. A senhora Rosário acredita a todo instante estar dentro de um trem a camino de Estambul.

  A história também é repleta de frases interessantes, reflexões sobre a vida e sobre envelhecer. Miguel, melhor amigo de Emilio no asilo, e um tanto crítico em relação a tudo, questiona a necessidade de tantas pílulas e dietas e proibições, dizendo ser apenas o prolongamento de uma malvivir, já que não fazem nada no asilo além de comer, dormir e se prostrar em frente a uma televisão que exibe programas que nenhum deles quer ver.

  A qualidade da obra de Paco Roca, que agora considero como um dos melhores autores de história em quadrinhos que conheço, está na metáfora, está no detalhe, nas frases. Um resumo de suas histórias seria talvez desinteressante, pois é no transcorrer delas que se vê a riqueza que têm. Para gostar de Paco Roca, é necessário lê-lo. Arrisco-me também a dizer que, se ler, vai gostar.

domingo, 24 de janeiro de 2010

LOCAL


Chegou às livrarias e às bancas há não muito tempo a revista LOCAL – fim da jornada, que fecha a história. São apenas dois encadernados, o primeiro é o ponto de partida.

Alternativo

A história não é de nenhuma das duas grandes (Marvel e DC), também não fala de super-heróis, aventuras nem nada do tipo, por isso é duplamente alternativa. Mais alternativo que isso só Persépolis, que além dessas duas características não é estadunidense (leia o post Da Pérsia, com carinho para mais informações). LOCAL fala da história de uma garota comum, que vive viajando pelos Estados Unidos em busca de um lugar para ficar.


A proposta

Uma das coisas bem legais nos encadernados é que, ao final de cada um dos capítulos (são doze, no total), há comentários do desenhista e roteirista. Bom, pelo menos é legal para quem escreve roteiros para história em quadrinhos – como eu – e para pessoas que se interessam pelo processo de criação. Lá pelo início o roteirista solta que a proposta de LOCAL é retratar as características culturais presentes nas cidades pela qual a personagem principal, Megan, passa. Isso porque cada capítulo é um ano da vida dela (ele também revela isso), vivido em um lugar diferente.


Infelizmente...

A proposta não é atingida. Nem todas as histórias mostram aspectos culturais das cidades por onde ela passa, embora todas elas estejam mergulhadas dentro do contexto cultural (duas coisas diferentes). Em alguns capítulos a personagem principal mal aparece, portanto não se sente mudança em sua vida. Com isso, o leitor fica solto:

parece um compêndio de histórias diversas, que às vezes só tem uma remota relação com a personagem principal.


Porém...

A história é muito boa! Mesmo assim. Boa porque foge à mesmice. Boa porque alguns capítulos enfatizam bem as características locais, e outros enfatizam bem a história da personagem principal. Boa, principalmente, porque as histórias dos capítulos, tendo relação ou não, são boas histórias.


Conclusão

No segundo encadernado, em especial, o leitor conhece um pouco melhor a personagem, entende por que ela fica mudando de lugar. O roteirista remete a coisas que aconteceram no passado em alguns capítulos, amarrando toda a história. E o último capítulo realmente fecha a história da Megan. Quer uma opinião? Vá até uma livraria, procure LOCAL – ponto de partida e leia a primeira história. Você vai gastar só alguns minutos, o capítulo é rápido. Se gostar, leve para casa.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Da Pérsia, com carinho

Aproveitando a visita que o presidente do Irã, Ahmadinejad, fez mês passado ao Brasil, vou falar sobre algo relacionado ao seu país, como o conheci por meio de Marjane Satrapi, em sua obra Persépolis.
Esta é uma daquelas obras despretensiosas, mas reveladoras, ou pelo menos o foi para mim. Assim como O Caçador de Pipas nos mostra um Afeganistão tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente do nosso país, Persépolis faz o mesmo ao nos aproximar tanto do povo persa (e não árabe, como no Caçador de Pipas), paradoxalmente mostrando-nos o quão distante aquele país está do nosso também. Paralelo que traço também com o livro De Cuba, com Carinho, nas palavras da blogueira Yoani Sánchez (que retrata por sua vez sua própria ilha): "Se não fosse pelo véu negro sobre o cabelo e a presença constante da religião, pensaria que Persépolis conta a história da Cuba onde eu tenho vivido. Especialmente no que se refere à tensão, à constante menção do inimigo externo e à hagiografia em torno dos caídos". Marjane Satrapi começa com sua infância, em que estava durante a Revolução Islâmica de 1979, quando, de um ano para o outro, subitamente se viu obrigada a vestir véu em público e se viu afastada de seus amigos meninos na escola. E nos conta a sua visão pessoal, de uma menina, sem entender tudo aquilo que era obrigada a aceitar. A sorte da menina era que seus pais tinham uma boa condição de vida, eram cultos e estudados, e tinham uma consciência política muito forte, um pensamento à frente e moderno que muitos de seus conterrâneos e contemporâneos não possuíam. Sendo assim, a menina não cresceu alienada e foi educada lendo sobre Descartes, Marx, Gandhi, Fidel e muitos outros, além da boa educação em francês que obteve, futuramente importante em sua vida.

Uma infância normal, assim como a de qualquer garoto daqui do Brasil, com suas brincadeiras, seus amiguinhos, sua família. Mas marcada pela presença da ditadura repressora do regime pós-revolução. Interessante ver as restrições e proibições impostas, como o não uso de gravatas, símbolo ocidental, e a exposição mínima do corpo da mulher.

E assim acompanhamos o desenvolvimento autobiográfico da autora, numa época tumultuada por que passava, apresentando-nos o dia a dia no Irã enquanto crescia. Como conheceu um tio, de quem se orgulhava, e como este foi executado como se fosse "um espião russo". Como se desfez de alguns sonhos de infância quando a embaixada norte-americana foi fechada ou quando fecharam as universidades do país. E a tão conhecida guerra Irã-Iraque, que perdurou durante tanto tempo e acompanhou uma boa parte de sua vida.

Enquanto o país se acabava (e acabava com seus jovens) na guerra, Marjane nos mostra o mundo por trás de tudo, a vida real, como sua primeira festinha de rock, vestida de punk, em seu auge na época. Isso é um ponto alto da história: mesmo com costumes por vezes tão distintos dos nossos, em muito o povo iraniano era igualzinho ao brasileiro, ou a qualquer outro do mundo. A portas fechadas, as famílias faziam festas e chamavam os amigos, nas quais bebiam vinho, coca-cola e ouviam música para dançar. Vemos como, mesmo com a repressão do regime contra tudo o que fosse ocidental, e portanto decadente e desmoralizante, ainda havia um "tráfico ilícito" de fitas cassete de Michael Jackson, da Madonna, do Pink Floyd, ou até mesmo de hambúrgueres e salsichas. Engraçada, de tão cotidiana, a passagem em que seus pais trouxeram escondidos um pôster do Iron Maiden para a menina.

"O que é isso? Michael Jackson, o símbolo da decadência?"
"É Malcom X, líder dos negros muçulmanos americanos."
"Está zombando de mim? É o Michael Jackson!"
"Quem? Não conheço..."
"Naquela época o Michael ainda era negro."

Como todo regime totalitário, o iraniano usava de dissimulação e falseava fatos, fingindo vitórias nas batalhas contra o vizinho Iraque e enaltecendo grandes bombardeios ao inimigo. O pai de Marjane, desconfiado, sempre verificava a veracidade das informações oficiais ouvindo a BBC. Num desses bombardeios, uma casa no fim de sua rua foi destroçada, e assim ela teve seu primeiro contato direto com a morte.

Com a linha-dura do regime se fortalecendo cada vez mais, seus pais decidem mandá-la para a Europa, onde ela vai estudar em um liceu francês em Viena. A partida foi dolorosa para pais e filha. Aqui começa outra fase de sua história, em que passa a morar sozinha, ainda adolescente, num outro continente, sem saber falar o alemão, sendo muitas vezes discriminada por lá.

Na Áustria ela conheceu gente de todo lugar do mundo, e atraiu interesse de muitos, "alternativos", por já ter conhecido a guerra e já ter visto a morte de perto. Interessante a relação dela com um pseudointelectualoide revolucionário-wannabe: o garoto adorava posar de superior em cima de todo mundo, expondo a futilidade da vida capitalista de todos frente ao grande panorama mundial, e toda aquela retórica ideológica vazia e demagógica a que nos acostumamos ouvir na universidade (sempre tem um tipinho assim), mas ficava pianinho perto da Marjane. O que ele tinha só de teoria, ela tinha vivenciado na prática, e perto dela costumava sempre calar a boca.

Lá ainda ela passa pelos descobrimentos da adolescência, descobrimento do próprio corpo, da sexualidade, do mundo, das drogas, etc. Muito boa sua reação à "primeira festa anarquista" de que participou. Nada de engajamentos de revolucionários, apenas um bando de jovens e adultos brincando e correndo uns atrás dos outros... Hilária também a passagem em que demonstra para nós as transformações pelas quais passou entre os 14 aos 18 anos, e como seu corpo "se deformou", alterando proporções e tudo o mais. Quando foi visitá-la, sua mãe chegou mesmo a não reconhecê-la. O desenho de Marjane é simples, sem grandes pretensões, mas funciona para ilustrar sua história.

Sozinha e estrangeira, com a ajuda das drogas e de decepções amorosas, acompanhamos como ela foi ao fundo do poço e quase faleceu. Ela decide então voltar. Com tanta bagagem já adicionada em seu histórico pessoal, e com tão pouco em comum com aquela garota que partiu, a volta foi dura e penosa. Acostumada a certas liberdades europeias não permitidas no Irã, a readaptação também foi difícil. Principalmente com relação à falsa moralidade existente do regime. Por exemplo, enquanto corria para pegar um ônibus, os guardiões da revolução a pararam e pediram para parar de correr, pois "seu traseiro fazia movimentos impudicos":

Andando por Teerã, não se via cartazes de promoções espalhados pelos prédios, mas cartazes exaltando os mártires de guerra. Suas amigas, adultas agora, todas maquiadas, com penteados e permanentes, querendo parecer as mais ocidentais e modernas possíveis, mas escondendo tradicionalistas enrustidas por dentro, invejosas das experiências vividas por Marjane na Europa, algumas vezes tratando-a como puta. Depois de alguns anos, não se sentindo mais parte daquele lugar, ela decide ir morar na França, com o apoio dos pais e da avó. Mas desta vez a despedida não foi em tom de tristeza, mas em tom de alegria. Assim é Persépolis, a história de vida de uma iraniana que passou pela revolução, passou pelo exílio, e passou pelos costumes duros de seu país para com as mulheres. Uma história de vida, cheia de drama, mas também de humor, como qualquer outra, repleta de realismo e veracidade, mas cujo contexto nos apresenta uma bagagem cultural enorme sobre o Irã e o povo persa, e de certa forma sobre o mundo da época.

"Quanto mais o tempo passava, mais eu tomava consciência do contraste entre a representação oficial do meu país e a vida real das pessoas, aquela que acontecia atrás das paredes."

Marjane mora hoje na França, de onde escreveu e desenhou Persépolis, primeiramente em francês, mas que depois foi traduzido para vários idiomas, tornando-se conhecida como a primeira quadrinhista iraniana. Persépolis virou animação em 2007, recebendo prêmios em Cannes, e sendo indicada ao Oscar de melhor animação. Recentemente, dois jovens iranianos, com a autorização de Marjane Satrapi, utilizaram os desenhos de Persépolis e criaram uma versão "2.0", denunciando as fraudes nas eleições presidenciais do Irã, em que venceu Mahmoud Ahmadinejad (por coincidência, se não me engano o presidente iraniano esteve no Brasil no dia do aniversário da autora).


- Livro sugerido 1: O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini.

- Livro sugerido 2: De Cuba, com Carinho, de Yoani Sánchez.

- Blog sugerido: Generacíon Y (www.desdecuba.com/generaciony).

- Animação sugerida: Persépolis (Persepolis, 2007).

- Jogo sugerido: Prince of Persia.