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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Milagres, Maravilhas e plágios

ENTENDA DE UMA VEZ POR TODAS TODO O CASO MIRACLEMAN/MARVELMAN!

Era uma vez um personagem chamado Capitão Marvel. Assim como a grande maioria dos assim recém-nomeados "super-heróis", ele tinha à sua disposição um leque de poderes que incluía a famosa trindade voo/superforça/invulnerabilidade*. Porém, diferentemente das dezenas de outros super-heróis surgidos durante a Era de Ouro, o Capitão Marvel apresentava um desafio à altura do primeiro deles, Super-Homem, pois o alter ego de Billy Batson vendia, e muito - mais até que o Homem de Aço à época! Devido a isso, a National Comics (que depois se tornaria a famosa DC Comics) impetrou uma ação na justiça acusando o Mortal Mais Poderoso da Terra de plágio do Super, e assim a Fawcett Comics, que publicava o Capitão Marvel, não tendo tanto dinheiro como a National (DC), parou de publicá-lo (e toda a Família Marvel) em 1953.

Enquanto isso, no Reino Unido, a L. Miller & Son, responsável por publicar a Família Marvel na Inglaterra, não estava disposta a desistir de sua maior fonte de renda. Assim, solicitou ao criador Mick Anglo que achasse um substituto. A revista Capitão Marvel #24 foi sucedida no mês seguinte pela revista Marvelman #25. Numa jogada de mestre, Mick Anglo retirou a capa do personagem, mudou seu cabelo para loiro e alterou a frase de poder Shazam para Kimota (a aliteração de Billy Batson se manteve em Micky Moran). E assim nascia um novo super-herói. A revista Marvelman durou até 1963. Marvelman chegou a ser publicado no Brasil, juntamente com Capitão Marvel, mesmo durante as décadas de 50 e 60, e aqui nas terras tupiniquins recebeu o nome de Jack Marvel (?!?) - com as iniciais "MM" de seu peito muitas vezes apagadas.


Aproveitando o lapso deixado pelo nome e a marca, a editora Marvel Comics, durante a Era de Prata, pegou o nome "Capitão Marvel" e lançou seu próprio personagem, o herói alienígena da raça Kree que durante algum tempo trocava de corpos com o adolescente Rick Jones**. Desde 1967, a Marvel Comics é detentora dos direitos de estampar na capa uma revista chamada "Capitão Marvel". Para não perder os direitos do nome, a Marvel Comics sempre lança, periodicamente, alguma revista, minissérie ou personagem novo com o mesmo título, Captain Marvel no original (por isso a quantidade exagerada de personagens na editora que já dividiram o mesmo nom de guerre, incluindo algumas personagens femininas até).

Devido a isso, quando, em 1972, a DC Comics conseguiu comprar o personagem mítico da Fawcett Comics, não pode estampar seu nome nas capas das revistas em que era publicado, em seu lugar decidindo estampar o nome Shazam! E foi desta forma que o personagem da DC ficou conhecidíssimo, principalmente no Brasil, não como Capitão Marvel, mas como Shazam, como se este fosse seu verdadeiro nome. ***

Durante o início da década de 80, um escritor inglês debutante apaixonado pela Era de Ouro foi chamado pela revista britânica Warrior para trabalhar sobre um antigo personagem. Foi assim que Alan Moore começou sua legendária fase reidealizando Marvelman. Moore repaginou o personagem, imaginando um envelhecido Michael Moran tendo sonhos sobre antigas aventuras passadas há quase duas décadas nas quais tinha poderes sobre-humanos e a capacidade de voar. Dentro da história de Moore, o personagem Marvelman havia deixado de existir como tal em 1963 (ano da última publicação do personagem), recuperando sua memória e antigos poderes por volta de 1980 (quando começava a nova história), desconstruindo-o e reconstruindo-o totalmente. Alan Moore criou todo um background novo para explicar não só o sumiço do personagem neste ínterim como também para trazer uma noção mais realista ou verossímil das origens e poderes da Era de Ouro de acordo com visão moderna de super-heróis.


Ao mesmo tempo em que isso se dava, Moore também ficou a cargo das histórias do personagem Capitão Bretanha (ou, como ficou mais conhecido, Capitão Britânia) para a Marvel UK, divisão britânica da editora. Em uma de suas primeiras histórias, Alan Moore e Alan Davis fizeram uma homenagem ao personagem e o inseriram nas aventuras do Capitão Britânia, apenas para matá-lo logo em seguida. Para evitar problemas, nomearam esta aparição especial de Miracleman.


Esta mesma Marvel Comics que empregava Alan Moore para escrever Capitão Britânia entrou com um processo contra a Warrior impedindo que a revista estampasse a palavra "Marvel" em suas capas, e os donos da pequena Warrior não tinham dinheiro para ir legalmente contra a toda-poderosa editora americana.

Mas eis que uma editora americana conhecida como Eclipse Comics passou a publicar o personagem, agora em cores, em solo americano, renomeando-o - adivinhem - como Miracleman para evitar possíveis processos judiciais. E foi assim que o personagem teve 24 edições publicadas, as 16 primeiras por Alan Moore, e as seguintes escritas por Neil Gaiman. Houve ainda algumas edições apócrifas, e o leque total de participantes (entre escritores e desenhistas) é invejável, figurando Mark Buckingham, um incipiente Alex Ross, Gary Leach, Alan Davis, Rick Veitch, John Totleben, Kurt Busiek, Matt Wagner, James Robinson e outros. A fase da Eclipse, sob o nome Miracleman, foi a pela qual o personagem mais ficou conhecido. Infelizmente, a editora faliu antes de concluir toda a saga proposta para o herói.

As questões legais de publicação do personagem nos Estados Unidos apenas com a alteração do nome para Miracleman foi um dos motivos pelos quais Alan Moore declarou nunca mais trabalhar para a Marvel Comics. Outros fatores foram a editora republicar sem sua permissão histórias do Capitão Bretanha (e algumas do Dr. Who) e usar uma chamada para atrair leitores com o slogan "Marvel tem Moore", mas referindo-se ao escritor John Francis Moore.

Na DC Comics, no entanto, Alan Moore fez diversos trabalhos, entre os quais um dos mais marcantes e conhecidos foi Watchmen, revisitando e repaginando antigos heróis da Charlton Comics, editora recém-comprada pela DC, mas alterando seus nomes e personalidades e poderes (Capitão Átomo virou Dr. Manhattan, Besouro Azul virou o Coruja, Questão virou Rorschach etc.). Porém, esta mesma obra foi o motivo pelo qual Alan Moore decidiu também deixar de trabalhar para a editora de Super-Homem. Pelas cláusulas contratuais, Watchmen e seus personagens pertencem à DC Comics, só passando a serem de Alan Moore e Dave Gibbons um ano após a editora parar de publicá-los. Ocorre que Watchmen nunca parou de ser publicada desde 1986, deixando seus direitos para sempre nas mãos da DC. Moore jurou nunca mais escrever tanto para a DC quanto para a Marvel. ****

Este litígio entre os detentores de direitos de personagens foi um dos motivos responsáveis pelo chamado "X-odus", o êxodo de diversos artistas, principalmente da Marvel Comics, para fundar a Image Comics. Entre eles, estavam Jim Lee e Todd Mcfarlane. Todd inventou o personagem Spawn, e em determinado momento chamou alguns escritores de peso para escreverem edições com o Soldado do Inferno. Alan Moore e Neil Gaiman estavam entre os convidados. Na edição número 9, Neil Gaiman introduziu três personagens ao universo do Spawn: Spawn Medieval, Cogliostro e a famosa Ângela. Todd Mcfarlane nunca pagou a Neil Gaiman o devido pelo uso destes personagens em outras publicações e outras mídias. Neil Gaiman entrou então com um processo na justiça para ter direitos sobre os personagens que criou.

Neste ínterim, Todd Mcfarlane comprou os espólios da Eclipse Comics, e se sentiu no direito de incluir os personagens da extinta editora em suas histórias do Spawn, chegando inclusive a lançar uma estatueta do personagem Miracleman com a seguinte inscrição abaixo: "Miracleman is a trademark of Todd McFarlane Productions, Inc. The Miracleman action figure is (copyright) 2003 Todd McFarlane Production". As decisões foram unânimes em favor de Neil Gaiman, e Todd - ironicamente cofundador da Image Comics num momento de reivindicação dos direitos dos personagens - transformou a figura que havia aparecido em sua linha Spawn rebatizado como Man of Miracles (?!?).

Neil Gaiman, para conseguir dinheiro para manter a causa na justiça, escreveu a minissérie 1602 para a Marvel Comics e fundou a Marvels and Miracles LLC. Assim, ficou-se acordado que os direitos sobre os personagens que Neil fez para Spawn permaneceriam com Todd, e em troca Neil deteria os direitos sobre Miracleman. Ao que parece, Neil e Alan Moore concordaram em doar todos os valores relativos ao personagem para Mick Anglo e sua família. Finalmente, o personagem voltou a seu criador.

Em 2009, durante a San Diego Comic Con, Joe Quesada deu a bombástica informação: a Marvel Comics havia adquirido os direitos sobre Miracleman diretamente de Mick Anglo. Assim, o personagem voltou ao seu antigo nome, tornando-se mais uma vez Marvelman. No final de 2011, Mick Anglo, criador do herói, faleceu. A expectativa agora é que a Marvel Comics, além de relançar todos as histórias antigas, relance ainda a fase de Alan Moore e Neil Gaiman escrita na década de 80 e de 90. Os fãs aguardam ansiosamente a publicação deste material de forma completa. Quem sabe, com Neil Gaiman escrevendo material inédito, as famosas fases Bronze Ages e Dark Ages que já havia previsto para o personagem e que nunca pôde concretizar.

* Apenas por curiosidade, pegue o encadernado de Projeto Superpowers e jogue na internet o nome de todos

os heróis da Era de Ouro que lá aparecem para comparar seus poderes. Cerca de 80% deles compartilha a

trindade voo/superforça/invulnerabilidade.

** Entenda todas as semelhanças/dessemelhanças entre os Capitães Marvel aqui em: http://ficcaohq.blogspot.com/2010/10/irreverencia-ou-copia.html

*** Agora em janeiro de 2012 o escritor Geoff Johns declarou que, como o público em geral já associa a palavra Shazam ao personagem Capitão Marvel, e para cortar qualquer ligação ao nome "marvel", no novo universo DC o alter ego de Billy Batson vai se chamar definitivamente SHAZAM.

**** Um dos estúdios fundadores da Image Comics, WildStorm, foi o responsável por publicar algumas das mais recentes HQs de Alan Moore, dentre as quais Promethea, Top10, Tom Strong e Liga Extraordinária, por meio do selo America´s Best Comics. Porém, com a venda da WildStorm para a DC Comics em 1999, indiretamente Alan Moore passou a escrever para a DC novamente, mesmo sem o saber.

Mais Miracleman / Marvelman em breve aqui no Ficção HQ!




Links sugeridos para saber mais a história toda:

http://www.worldsgreatestcritic.com/miraclemansaga.html

http://miraclemen.info/history/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Marvelman

http://www.sedentario.org/colunas/miracleman-%E2%80%93-nada-se-cria-tudo-se-copia-comics-addicted-5-1673

http://omelete.uol.com.br/quadrinhos/miracleman-o-plagio-que-deu-certo/

http://www.marvunapp.com/Appendix/miracl.htm

http://www.leylander.org/intercom/marvelman/

sábado, 2 de julho de 2011

Representação e representatividade no mundo dos super-heróis

Nesta semana, entre dos dias 29 e 30 de Junho, aconteceu, na UnB - Universidade de Brasília - o evento II Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos. Entrou em debate temas como figuras femininas nos quadrinhos, os sons das palavras, relações entre quadrinhos e literatura, quadrinhos e identidade, heróis em foco e houve até a participação do cartunista Laerte. Além disso, o Rodrigo apresentou o tema Tempo nos Quadrinhos: subvertendo a ordem de leitura (que está sendo transcrito e será o próximo post), relacionado a posts anteriores dele aqui do blog, l'esprit d'escalier, (des)construção e card-comics e material inédito ainda.
Também apresentei um tema, sobre representação e representatividade nos quadrinhos dos super-heróis. Meu plano era o de escrever um post relacionado ao tema da palestra, já estava até com um rascunho quase pronto. Porém, como o Rodrigo não pôde estar na palestra e pediu para que filmasse, pensei: já que tenho a apresentação inteira gravada, posso fazer um post diferente. Em vez de texto e imagens, como sempre fizemos, áudio e filmagem. Sendo assim, coloco aqui para vocês a palestra na íntegra, que dura 21 minutos.














Meus agradecimentos à coordenação do evento, pela oportunidade, e meus parabéns, pelo sucesso. Lembrando que o evento contou com o apoio do Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Pós-Graduação em Literatura da UnB, e foi organizado pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, cujo site é http://www.gelbc.com.br/ . Lá podem ser lidos os artigos referentes à I Jornada, e dentro de um pouco mais que um mês poderão ser lidos, no site, artigos dos palestrantes sobre os temas abordados na II Jornada.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O simbolismo dos super-heróis

Agradeço novamente a todos que compareceram a minha palestra O simbolismo dos super-heróis, na Livraria Cultura. Para quem não pôde ir, eis um resumo do tema abordado.


História em quadrinhos: coisa de criança? Um mero produto de consumo? Histórias fracas e superficiais, como filmes de ação sem profundidade? Fantasia, fuga da realidade? Nada disso! As histórias em quadrinhos possuem uma grande profundidade. Os super-heróis não são apenas seres com um uniforme legal, feitos para vender bonecos, jogos e lancheiras. Existe algo de muito profundo nos heróis clássicos das histórias em quadrinhos.

Super-homem e a mitologia

A mitologia é a fonte onde bebem os criadores de super-heróis. Desde Gilgamesh, um dos mitos mais antigos de que se tem conhecimento, existe no imaginário a noção de um ser parte humano, parte divino, dotado de grandes poderes. Se pegarmos a mitologia grega, temos Hércules como o exemplo mais popular de herói. E Super-homem tem várias semelhanças com ele. Qual é o poder do semideus? Uma força incomensurável. E um dos poderes do Super-homem, um dos mais notáveis desde sua criação, em 1932, por Jerry Siegel e Joe Shuster? A força incalculável. Hércules era filho de Zeus – pai dos deuses – e uma mortal. Seu sangue divino era o que lhe conferia poderes. O Super-homem, a seu modo, também tem o poder no sangue, só que em vez de ser divino, ele é alienígena, uma adaptação aos tempos modernos e suas crenças. A analogia divina pode ser observada, porém, no fato de que o Super-homem veio dos céus, e por isso tem poderes. Hércules, a partir de seu primeiro trabalho, passou a usar a couraça do leão da Nemeia como sua roupa e proteção, como retratado em diversas de suas esculturas (ao lado). O Super-homem tem um uniforme, usando inclusive um emblema no peito.
Falar do Super-homem é falar dos super-heróis de uma maneira geral. O primeiro herói a figurar nas páginas dos quadrinhos com superpoderes, o modelo para os super-heróis seguintes. Ele representa basicamente as características fundamentais do que torna um super-herói um super-herói. É seu arquétipo: justo, altruísta, luta pela liberdade e pela verdade. Ele é um exemplo para os personagens dos quadrinhos e para os leitores. Sempre agindo pelo bem e usando todos os seus poderes em busca de uma sociedade melhor. Mais importante que seus poderes é sua moral, afinal poderes os supervilões também têm, o que faz um herói ser herói é sua ética e comprometimento com a justiça.


A comparação Super-homem e Batman
Outro herói clássico dos quadrinhos, muito popular há anos, é o Batman. Também engajado na luta pela justiça, adotou critérios altruístas, mas possui algumas diferenças em relação ao “pai dos super-heróis”. Batman não possui poderes. Seu intelecto e treinamento é o que o tornam um herói. Quando a comparação entre Super-homem e Batman vem à tona essa é uma das justificativas para que o Batman seja considerado mais heroico. É fácil deter um assalto a banco, por exemplo, quando se é invulnerável e sua força, insuperável. Batman, se levar um tiro na boca, morre. Sendo assim, ele é mais corajoso. Certo, mas o Super-homem também enfrenta adversidades que estão compatíveis com ele, reais ameaças a sua integridade física. O poder é justamente o que faz com que o Super-homem enfrente diariamente ameaças que não estão na alçada do Batman, mais um justiceiro das ruas, um combatente do crime. O Super-homem seria, por esse motivo, mais heroico, pois seus poderes lhe permitem, em vez de salvar uma vítima do crime, salvar o mundo inteiro de uma ameaça planetária. Por outro lado, Batman precisou desenvolver suas capacidades e precisa treinar todos os dias, enquanto o Super-homem nasceu com suas poderes, veio de graça. Enfim... a lista dos defensores de um e dos defensores de outro é grande. Não quero defender nem um lado, nem outro, considero que a reflexão é o que é mais importante.
Ainda na comparação entre os dois, cabe lembrar da pintura Escola de Atenas, de Rafael, em que estão representados no centro Platão e Aristóteles (ao lado). Nela, Platão aponta para cima, simbolizando o mundo das ideias, os ideais mais elevados. Já Aristóteles, seu discípulo, demonstra com sua mão que está mais no plano terreno, que se preocupa mais em trazer soluções que tenham efeito nos problemas sociais em vigor. O que isso tem a ver com o Super-homem e o Batman? O Super-homem está para Platão da mesma maneira que Batman para Aristóteles. Enquanto o Super é um idealista, que representa praticamente o ideal de perfeição humana, Batman é um pragmático, que preocupa-se com problemas pontuais da sociedade. Ele não está interessado em dar o exemplo, e sim em combater o crime, deter a corrupção, enquanto o Super-homem representa a nobreza para que todos possam seguir seu exemplo. Os dois, nesse sentido, se complementam.

O pequeno Bruce e o pequeno Buda

Se vamos falar de Batman, vale relembrar sua origem. O pequeno Bruce vivia uma vida feliz e contente com seus pais, donos de um império industrial na cidade de Gotham. Um dia, seus pais foram assassinados na saída do cinema por um criminoso. O pequeno Bruce conheceu então a dor e o sofrimento e isso mudou completamente sua vida. Passou a treinar para combater o crime. Agora eu contarei uma outra origem... Siddhârtha Gautama era uma criança feliz no reino de seu pai. Porém, um dia, ao passear pelos jardins floridos reais, conheceu um ancião, um enfermo e um defunto. Entrou então em contato com a dor e o sofrimento e isso mudou completamente sua vida. Fundou o budismo e passou disseminá-lo, no intuito de fazer com que as pessoas pudessem cessar suas dores. Não quero, por meio dessa comparação, dizer que Batman é tão nobre ou importante quanto o Buda. Apenas trago essa semelhança para demonstrar como os princípios do budismo podem ser vistos na figura do Batman. Cada um a seu modo, ambos buscam o ideal de minimizar a dor alheia. Batman sacrifica sua vida milionária, em que poderia ter tudo o que quisesse, fazer o que quisesse, para combater o crime e fazer com que menos pessoas sejam vítimas da violência, como ele foi, quando criança.

A semelhança não para por aí. No filme Batman Begins, Bruce passou por um período de treinamento em algum lugar na ou próximo à China. É notório no filme, nos quadrinhos e em qualquer outro meio em que apareça o domínio do Cavaleiro das Trevas no campo das artes-marciais, outro elemento da cultura oriental, assim como o budismo. E em suas atitudes Batman segue, em certa perspectiva, o Nobre Óctuplo Caminho, que seria, de acordo com o budismo, o caminho que conduz à cessação da dor. Para citar alguns: retas intenções (estar bem-intencionado em todos os atos), retas palavras (não falar nem de mais nem de menos, apenas o necessário), reta conduta (de vida, sem excessos, sem inércia), reta atenção, reta concentração...


Karma, dharma e o Homem-aranha

Karma e dharma são conceitos em geral associados a reencarnação. Contudo, é possível pensar que esses princípios podem ter efeito também em uma única vida. Dharma, em bem poucas palavras, seria algo como a razão da existência de uma pessoa, o caminho a ser seguido. Karma é um efeito gerado a partir do momento em que a pessoa foge desse caminho. Agora peguemos Peter Parker, mordido por uma aranha radiotiva. Ganhou poderes, e logo seu tio Ben avisou: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. E o que Peter fez? Ignorou isso e passou a fazer fama e dinheiro com seus poderes, em cima dos palcos de luta livre. Quando um assaltante passou por ele no corredor, não se deu ao trabalho de tentar detê-lo, embora para ele fosse muito fácil. Mais tarde, o mesmo assaltante, em fuga, acabou matando seu tio. Esse foi o primeiro karma gerado na vida de Peter, um karma com um propósito muito importante: mostrar a Peter qual era sua missão de vida: ser o Homem-aranha. A partir daí Peter passou a combater o crime e outras ameaças com seus superpoderes. O dharma de Peter é ser um super-herói, a paritr do momento em que ganhou superpoderes.

Esse conceito não se restringe à origem do herói. Nas histórias do Homem-aranha são constantes os momentos em que ele pensa em largar o uniforme e levar sua vida, o que seria muito mais cômodo para ele. Cada um cuida da sua própria vida, por que ele tem que cuidar das dos demais? Basta ignorar seus poderes, fingir que não os possui. Esse é o tema central do filme Homem-aranha 2. Entretanto, como retratado no filme e nos quadrinhos que o inspiraram, toda vez que Peter tenta abandonar o uniforme o dever o chama. Alguém se fere, uma ameaça se faz presente, a criminalidade aumenta... Peter é responsável demais para fechar os olhos para isso. Largar o uniforme lhe traz desconforto e sofrimento, não é tão fácil quanto ele imaginava. Novamente, o karma lhe provoca para que volte ao seu dharma, ao seu caminho, e seja o Homem-aranha mais uma vez.


X-men: preconceito e coexistência


O mote principal das histórias dos X-men é claro desde o início: preconceitos. Os mutantes são seres que nascem com superpoderes e por isso são discriminados. Existem outros com superpoderes, mas só os mutantes são discriminados. Não faz muito sentido, não é? Pois é, o preconceito não é algo que faça muito sentido. É a rejeição àquilo que é diferente. É uma aversão a algo que é diferente de você, ou a algo que uma pessoa quer que seja diferente dela. Que sentido existe no preconceito contra pessoas cuja pela é negra? Menos do que em relação a pessoas que podem dominar sua mente com um superpoder, ou destruir sua casa com uma rajada ótica.
Apesar do preconceito, Charles Xavier tem o sonho de uma coexistência pacífica entre mutantes e humanos sem poderes. Fundou uma escola que serve de guia para jovens mutantes, onde eles aprendem não apenas a controlar melhor seus poderes, mas também a ideologia da tolerância, a concepção da harmonia social. Sem preconceitos, sem conflitos, mesmo que pessoas normais (não são todas) tentem apedrejar os mutantes nas ruas. Bater de volta não é solução. Seu arqui-inimigo, Magneto, reage de maneira antagônica. Para ele, é guerra! Se são atacados, os mutantes devem atacar de volta, impor-se, lutar pela comando das sociedades, pois eles, em sua visão, são superiores, o próximo degrau da escala evolutiva. Em outras palavras, enquanto Xavier é um agente da paz e da harmonia, Magneto é um agente da guerra e da imposição.

Os vilões também nos ensinam lições

Qual é a importância dos vilões nas histórias? Por que eles existem? Os heróis nos dão o exemplo a ser seguido, então os vilões nos demonstram o exemplo a não ser seguido. Magneto representa um conceito sofisticado de vilão. Não é perverso, completamente mal. Nem é simples, desses que simplesmente querem dominar o mundo. Magneto tem um ideal e luta por ele. Em sua visão, não há como evitar uma guerra entre humanos e mutantes, e por esse motivo é melhor atacar logo, antes que seja tarde demais. Mais real, não acham? Quando criança, Eric e sua família sofreram nos campos de concentração nazista (como retratado na obra ao lado: Magneto - testamento). Isso lhe gerou um grande trauma e o medo de que acontecesse novamente. A partir do momento em que desenvolveu seus poderes, tomou como meta que nunca mais seria subjugado. Assim, quando a população e o governo, procurando um bode expiatório, passaram a perseguir mutantes, Magneto passou a atacar a sociedade. Sem perceber, Magneto se tornou aquilo que mais temia. Se Hitler é quem personifica o nazismo, com seu discurso de superioridade racial, Magneto tornou-se exatamente o que mais odiava, pregando o discurso da superioridade mutante.
Vilões simples, que são essencialmente maus ou elaboram planos de dominação mundial, são fáceis de se perceber, e é muito difícil que nos identifiquemos com eles. Por outro lado, quando se analisa Magneto e outros vilões mais elaborados, nós podemos ver como uma pessoa pode se tornar um vilão sem querer, sem perceber. Vale lembrar também que o vilão é, por definição, o oposto do herói. Se o herói é definido, entre outras características, por seu altruísmo, o vilão é caracterizado por seu egoísmo.

Além de demonstrar a riqueza que existe nos super-heróis e em suas histórias, essas reflexões servem para que nós nos situemos enquanto cidadãos do mundo e seres humanos. Nos quadrinhos existem basicamente três tipos de personagens: os heróis, os vilões e os figurantes, pessoas de pouca ou nenhuma importância para a história, sempre a mercê dos perigos, esperando serem salvos. Cabe a nós perguntar: com quem que nós mais nos identificamos? E com quem que nós mais queremos nos identificar?

Livros sugeridos
Os super-heróis e a filosofia, William Irwin (coordenação);
Batman e a filosofia, William Irwin (coordenação);
Nossos deuses são super-heróis, Christopher Knowles.

Filmes sugeridos
Homem-aranha (a trilogia);
X-men (a trilogia).

Quadrinhos sugeridos
Terra-X (Marvel);
Marvels (Marvel)

sábado, 1 de maio de 2010

Os maiores super-heróis do mundo

Há não muito tempo comprei o encadernado Os Maiores Super-heróis do Mundo, da DC comics, confeccionado pela Panini Books. Eu sabia que os desenhos eram do Alex Ross, que pinta os quadrinhos como se fossem quadros, o que já valia o alto preço da revista. Porém, a qualidade das imagens, definitivamente, não é o único aspecto admirável do material. As histórias abordam um lado mais social dos super-heróis. Em nenhuma delas o foco é a ação. Não há combates físicos contra super-vilões. Apenas heróis, usando seus poderes para tentar fazer do mundo um lugar melhor.


Na primeira história – Super-homem: paz na Terra –, o Super-homem decide enfrentar um problema que está muito além de suas capacidades: a fome. Ele sabe que não poderá acabar com a fome no mundo. Entretanto, para dar o exemplo, já que ele em si é um ícone de referência para diversas pessoas, decide usar um dia de sua vida para transportar excedentes de comida por todo o planeta, usando seus poderes (superforça, supervoo) para carregar a maior quantidade de alimentos para a maior quantidade possível de países. As situações que ele enfrenta, as reações das pessoas, o que ele vê... tudo isso faz com a que a história seja tocante. Há até uma imagem do último kryptoniano sobrevoando o Rio de Janeiro (de duas páginas, em formato gigante), mas a que decidi escolher foi a de cima, que representa mais a impotência do mais imponente dos super-heróis diante de um problema tão complexo.

A segunda história do encadernado é Batman: guerra ao crime. A julgar pelo título, parece mais uma história de ação do homem-morcego. Entretanto, o que vemos nela não é um Batman espancando bandidos, e sim preocupado com um bairro pobre, os problemas sociais e financeiros que fazem com que as pessoas acabem caindo na marginalidade. De quebra, mostra como a luta contra o crime não depende só do herói, mas também de seu alter-ego, o milionário Bruce Wayne. Ele acaba vendo, na figura de um garoto cujos pais foram mortos por conta da violência urbana, como ele próprio poderia ter tomado o caminho errado, se não fosse a riqueza herdada e a educação prestado por Alfred.

A terceira história é Shazam! O poder da esperança. Nesta o Capitão Marvel visita crianças doentes, conta a elas histórias de suas aventuras e realiza alguns de seus desejos, como voar pelos céus e conhecer animais selvagens de outro país. Além de protegê-las dos perigos não só de super-vilões, como de vilões que pegam um taco de beisebol para bater no próprio filho.

A história seguinte é da Mulher-maravilha, cujo subtítulo é O espírito da verdade. Existem sim as cenas de aventura e combate da super-heroína, porém, também há momentos em que ela compara o mundo dos homens com Themyscira, a ilha das amazonas, muito mais avançada em termos filosóficos e sociais. O que pode fazer para que aquela sociedade seja mais parecida com esta? Além disso, na história é abordada sua função de embaixadora da paz e como, apesar de todo o reconhecimento, ela ainda é discriminada por ser mulher. Uma observação interessante: ela se envolve em problemas em países do extremo oriente e árabes.


E então, vem uma pequena história, chamada Origens Secretas, sobre alguns dos legionários e suas origens: o que os deu poderes ou o que os tornou heróis. É só uma pausa nas reflexões, já que as histórias anteriores todas começavam com a origem do herói em questão.

Por fim, vem a história Liberdade e Justiça, da Liga da Justiça. Nela o tema central é a sensação do Caçador de Marte em relação ao nosso mundo, como a aparência é algo importante. Além disso, a Liga da Justiça combate... uma doença. Não, não é um super-vilão, é uma doença mesmo, que está se espalhando pela África. Existe uma série de delicadezas políticas que fazem com que essa missão não seja muito fácil de se cumprir. Como de praxe, todos os justiceiros dão o máximo de si não só para não deixar a doença espalhar, mas também para salvar os já contaminados.


Enfim, um prato cheio! Aconselho o encadernado a qualquer leitor, seja da DC, seja de outras editoras. Aconselho até àqueles que não são leitores de quadrinhos, pois mostra uma abordagem diferente do conceito de herói. Foi o encadernado mais caro que eu já comprei, até hesitei antes de concluir a compra. No entanto, depois de ler, acredito que valeu cada real.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Teoria da Variação dos superpoderes


Que os super-heróis e os supervilões têm superpoderes, todo mundo sabe. O que nem todo mundo reparou é que os poderes dos heróis varia, de acordo com a situação e circunstância. Não estou falando sobre motivação, como o esforço da Mulher-invisível para manter o campo de força, ou o empenho heroico do Thor, que lhe permite arrancar forças de uma pequena fagulha de seu ser. Esses são motivos plausíveis, do ponto de vista narrativo. Legal. Estou falando de outra coisa...

Adequação ao oponente
Uma variação que acontece constantemente é o herói se adequar ao vilão, ou o vilão ao herói. É quando um vilão não muito poderoso enfrenta um herói bem melhor e mesmo assim a porrada é acirrada. O Super-homem mesmo é megapoderoso. É o mais forte de todos, é invulnerável, voa mais rápido que todos, dispara uma visão de calor que corta e derrete todos! E ainda percebe o inimigo chegando à distância, porque ele enxerga mais longe do que todos (e através das coisas), e ouve todos os sons que todos os seres fazem em todos os países. O cara é uma apelação com um S no peito e as cores dos Estados Unidos! E não se deparou, ao longo dos anos, com inimigos muito inferiores a ele? E eles não deram trabalho? Ele não apanhou bastante até conseguir vencer?
Talvez o Super-homem seja realmente o maior cavalheiro do mundo (mais uma para sua lista de recordes). Para não humilhar muito os oponentes, dá uma chance, se coloca mais no nível do vilão. É covardia usar todo seu poder contra um vilão mais fraco. O que explica, então, o Pantera Negra rendendo o Surfista Prateado com uma chave-de-braço? Veja bem: Estou falando do Pantera Negra vencendo o SURFISTA PRATEADO!!!!!! Aquele cujo nome é oficialmente escrito em letras maiúsculas e com pelo menos cinco exclamações. Não sei... talvez os heróis e vilões estejam se tornando muito profissionais, que nem os times de futebol, e aí fica todo mundo mais pareado e dá essas zebras... Eu, particularmente, invisto na teoria da variação do poder. Veja o segundo caso, logo abaixo, para averiguar se estou certo...

Membro de uma superequipe
Esse caso é ainda mais recorrente que a adequação aos oponentes. Basta um superser entrar para uma equipe e seu poder automaticamente diminui. Quer um exemplo clássico entre os vilões? O Sexteto Sinistro. O Homem-aranha pena para vencer o Doutor Octopus no mano-a-mano. Quando ele monta uma equipe, com vários dos principais inimigos do Aranha, não é que o herói vence também? Estou dizendo, os poderes diminuem quando se faz parte de uma equipe.
Já ouvi a explicação de que os vilões não sabem agir em equipe, acabam se atrapalhando e o Aranha, tirando proveito disso, consegue vencer todos eles. É o que provavelmente os defensores do Homem-aranha estão pensando agora... E os heróis? Não treinam pra cacete? Não procuram sempre agir em equipe, com ataques coordenados? Pois os casos dos super-heróis cujos poderes diminuem ao fazer parte de uma superequipe são ainda muito mais frequentes que no caso dos vilões. A Liga da Justiça mesmo... quantos dos inimigos que elas enfrentam não poderiam, honestamente, ser derrotados pelo Super-homem sozinho? Tá, tudo bem, o Super-homem é muito gentil, e não quero dar a impressão de que estou enchendo o saco do maior ídolo dos quadrinhos. Que tal os Vingadores? Quando o Visão foi criado por Ultron, não foi uma ameaça para toda a equipe? Não lutou contra todo o grupo de igual para igual? E depois, que se tornou membro dos próprios Vingadores, seus poderes não se reduziram? O que nos leva a uma segunda conclusão. Pela lógica utilizada nessa argumentação e pela observação prática das histórias, podemos concluir que: todo herói tem seus poderes reduzidos quando fazem parte de uma equipe, a não ser quando este mesmo herói se volta contra a própria equipe.
Puxa! Até o Homem-formiga já derrotou todos os Vingadores sozinho quando enlouqueceu... Não é querendo menosprezá-lo, só porque eu (confesso) não gosto dele, mas... ele não é exatamente o mais poderoso membro dos Vingadores que já existiu. Não estou falando do Gigante, nem outra de suas identidades, estou falando do Homem-formiga mesmo. Ele derrotou o Capitão América, o Pantera Negra, a Feiticeira Escarlate, o Magnum e o Visão juntos! Isso mesmo! Sozinho ele venceu o mesmo Pantera Negra que derrotou o SURFISTA PRATEADO!!!!!! e o mesmo Visão que deu trabalho para a equipe inteira no passado.


Esquecimento súbito
Outra coisa que tenho observado, que é uma variação da diminuição do poder, é seu súbito esquecimento. Não sei... Acho que é tanta gente lutando que o próprio personagem fica desnorteado e esquece de um poder. O Caçador Marciano mesmo é pego e não consegue escapar de alguns vilões durante algum tempo, até que uma hora ele se pensa: “Hum! Acabei de me lembrar que posso ficar intangível! São tantos os meus poderes que não me ocorreu antes...” E também vimos várias vezes um poder, que o personagem sabe que tem, só ser usado quando ele está a um triz de ser derrotado. Diante da iminente derrota, ele lembra: “Ah! Vou usar tal poder de tal forma, como já fiz diversas vezes e deu certo! Acho que esse vilão mesmo eu já derrotei assim... não lembro direito... preciso comer mais peixe”. Existem certos personagens aí que podem usar uma certa visão de calor associada a uma certa visão além do alcance para derrotar os inimigos à quilômetros de distância, sabe... mas quase nunca recorre a esse poder... Não quero dizer o nome do personagem para não ser acusado injustamente de perseguição.

sábado, 10 de abril de 2010

Super-Recorde em HQs

O Azulão deu o troco no Morcegão.

Na verdade, um fã (multi)milionário fez isso, no final de março se não me engano, ao comprar a edição Action Comics número 1, de 1938, por U$ 1.500.000,00 (um milhão e meio de doláres)!

A revista estava em muito bom estado de conservação, recebendo nota 8,5 de dez no índice do CGC (Certified Collectibles Group - Comics Guaranty).

Na época, há mais de 70 anos, a primeira aparição do Super-Homem era vendida, quem diria, a uns dez centavos de dólar, e hoje tornou-se a revista em quadrinhos mais cara da história, batendo o recorde anterior de Detective Comics 27, primeira aparição de Batman.

Fiquem agora com uma visão não-oficial mas bem interessante sobre o eterno embate Super-Homem contra Batman, retirado de um site em inglês, que ilustra bem a situação:
Eu sempre digo que tudo relacionado ao Super é apelativo...


P.S. - Uma pequena lista de exigências retirada do Universo HQ para se conceder pedigree a uma coleção:
a) Origem - ter sido criada por apenas um indivíduo, que comprou as revistas nas bancas na época do lançamento das mesmas;
b) Qualidade - o estado das revistas da coleção deve ser de alta qualidade, com uma classificação média de 8.0 no índice do CGC (Certified Collectibles Group - Comics Guaranty);
c) Abrangência - ter um grande volume de edições raras e importantes, ou abranger um período grande de um único titulo, gênero ou editora;
d) Aceitação do Mercado - O CGC e os colecionadores têm que continuar reconhecendo o nome da coleção e o pedigree de uma revista após a sua venda inicial.

Boa sorte, caro colecionador!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Detetive Milionário

Quando você leu o título do post imediatamente imaginou em quem? Batman, certo? Acertou. Mais ou menos. Detective Comics é milionária, não o morcego. Vou explicar:

Há alguns bons anos (meados de 1995), li pela primeira vez o quanto uma revista em quadrinhos poderia custar, e me assombrei. Tratava-se da Action Comics número 1, de junho de 1938, na qual aparecia pela primeira vez o Super-Homem (o primeiro super-herói). Este gibizinho estava cotado, na época em que eu li, em 175 mil dólares. Poxa, o preço de uma casa! Por apenas umas 20 páginas de papel vagabundo?

Nesta semana, a mesma revista foi leiloada por um milhão de doletas. Quer mais? Poucos dias depois, a Detective Comics número 27, estreia do Homem-Morcego, em maio de 1939, foi arrematada por U$ 1.075.000 (um milhão e setenta e cinco mil dólares)!

Batman, mais uma vez, venceu Super-Homem.

O vendedor da raridade adquiriu sua edição, na década de 60, por cem dólares. Já era caro para uma simples revistinha em quadrinhos na época, não? Calculem o lucro do sujeito quando vendeu, mais de quarenta anos depois, por mais de um milhão...

E aí, agora você se animou em guardar toda aquela sua coleção de revistas velhas e empoeiradas pra algum dia deixar seus filhos um pouquinho mais ricos? Más notícias: mesmo se você conseguir manter em bom ou ótimo estado de conservação suas preciosidades por cerca de sete décadas, elas devem ter eventos significativos (primeira aparição, origem ou similar), e devem ser as originais, em inglês, da época do lançamento... e você ainda tem de achar algum Bruce Wayne disposto a torrar milhões por "apenas uma revistinha"...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Ideia de Um Milhão

Quem quer um milhão?
A DC quer. Era 1998, e alguém na editora teve a ideia de supor: “se a revista Action Comics, de 1938 (aquela em que aparece o Super-Homem pela primeira vez), seguisse sua continuidade mensal, quando será que ela chegaria ao número um milhão?” E eles chegaram ao ano 85.271. E resolveram fazer uma saga sobre isso. E esta saga de dez anos atrás já continha DICAS SOBRE O FINAL DE BLACKEST NIGHT. O quê? Isso mesmo. Voltemos a isso depois...
Grant Morrison, então levando o título da Liga da Justiça, foi o responsável por escrever a minissérie principal, que repercutiu por todas as publicações da DC. O que mais ressalta, primeiramente, nessa saga, foi o fato de que ela não se estendeu ao longo de vários e vários meses. Inovadoramente, ela foi feita toda em apenas um mês, abarcando cerca de 40 edições. Pois é, todas as edições da DC de novembro daquele ano estamparam a numeração 1.000.000 em suas capas, retomando sua sequência normal no mês seguinte.

O plot da história é fraquíssimo: no século 853 (!), a Legião da Justiça Alfa, formada por descendentes da atual Liga (!!), resolve convocar a Liga da Justiça de hoje para participar de uns joguinhos olímpicos meta-humanos no futuro (!!!) para homenagearem o primeiro Super-Homem, que está vivo (!!!!) naquela época e vai retornar de seu exílio no Sol (!!!!!). Apesar desse mote ridículo, a execução da ideia é bem rápida, dinâmica, e quero neste post resgatar alguns bons conceitos apresentados em DC Um Milhão. E falar como ela já predizia o futuro de Blackest Night.

Muito boa, por exemplo, a descrença inicial de Caçadora, Oráculo e de Zauriel, que perguntam qual seria a probabilidade de haver vida humana, que dirá descendentes deles, daqui a tanto tempo. E, é claro, a atitude de Batman frente a essa historinha mal contada de jogos e desafios no futuro: “O presente é que me preocupa” (vide a mesma atitude na obra Terra 2, também do Morrison):Mas o Batman Um Milhão decide que ele deve ir, mesmo à força, e derrota o atual usando uma técnica de luta física e psíquica, mandando sua essência ao futuro. Diana não nega sua ascendência grega e fica toda excitadinha com a perspectiva de olimpíadas de superseres... Outra ideia bem bacana é o simbolismo dos heróis da Legião da Justiça, cada um radicado num planeta do sistema solar, espelhando a visão morrisoniana do panteão da DC: Flash, o mais rápido, é o guardião de Mercúrio; Mulher-Maravilha é de Vênus; Netuno, é claro, fica com Aquaman; Batman monitora Plutão, o planeta-prisão do sistema (punidor como o Hades); Saturno (Cronos) fica com o Homem-Hora, que já havia aparecido anteriormente numa história da Liga de Morrison; Júpiter, com sua grandiosidade, é sede da LJA Um Milhão; Starman opera em Urano (o Céu); e mais tarde descobrimos que Marte ainda é vigiado por Ajax, claro.
A Legião da Justiça Alfa diz que ficará na nossa época para manter o mundo a salvo, e assim fica a deixa pra história se espalhar para outros títulos, a fim de os leitores conhecerem os poderes (apelativos) dos heróis do século 853. Super Um Milhão, por exemplo, além de dez novos supersentidos (adquiridos pela Dinastia Super quando o Super-Homem do séc. 67 casou-se com uma ser da 5ª Dimensão), da super-hipnose e da supertelecinese, capaz de soprar uma lua de órbita e de calcular bilhões de probabilidades simultaneamente, é descrito como “mais rápido que um táquion, mais poderoso que a gravidade de um buraco negro, capaz de transpor anos-luz com um salto”. Mas, sem o supersol de sua era para abastecer seus poderes, começa a perdê-los um a um no presente... (boa jogada dos argumentistas para trabalharem um carinha tão fuderoso).

É claro que a coisa toda ia dar merda. Assim que são mandados para o futuro, descobrimos que Solaris, o computador solar, na verdade havia mandado um vírus para infectar toda a humanidade no passado para enfim conseguir sua vingança contra a Dinastia Super-Homem e substituir o sol, mancomunado com o imortal Vandal Savage. Agora me digam: pra que diabos um supercomputador iria querer substituir o sol??? Uaréva...

Destaque especial deve ser dado, entre todas as edições, para a Starman 1.000.000, a melhor história individual da saga. O Starman do futuro conversa com Ted Knight, o Starman original, e conta como, durante uns três milênios, não houve nenhum Starman, e como alguns da linhagem até mesmo foram vilões. Ponto para James Robinson (escritor da ótima fase do Starman), e maior ainda quando diz que sua "cria", Jack Knight, NÃO é o maior Starman, e que na verdade foi até esquecido no futuro... coragem do autor, e humildade, visto que quem já leu concorda que acontece justamente o contrário com Jack Knight.

Os conceitos legais extraídos de DC Um Milhão: os ícones que dão superpoderes. Achei muito boa a ideia, bastante significativa, principalmente no universo DC, em que os próprios heróis são bastante emblemáticos e icônicos. É só ver o quanto os escudos de cada superser representam e são seguidos, com vários carregando o S estilizado, e outros com o morcego no peito. No ano 85.271, vestir um relâmpago amarelo com fundo vermelho lhe dá supervelocidade momentânea! A própria Legião dos Super-Heróis ("só" mil anos no futuro a partir daqui), já utilizava bastante esse conceito das imagens representando seus heróis e poderes. Todo o universo DC é focado nestes símbolos heroicos, como visto nessa imagem idealizada para Crise de Identidade:

Outro conceito legal: daqui a tanto tempo, a própria noção de espaço vai ser diferente. A humanidade descobriu como manipular espaços tesseracts, de quarta dimensão, para fazer megalópoles inteiras superpopulosas caberem em espaços exíguos conservando o meio ambiente.
E a própria noção de informação como riqueza na comunicação mais rápida que a luz. O planeta Mercúrio, colonizado no futuro, é uma infocracia, quem detém informação detém o poder, e a própria se desatualiza muito rapidamente, ainda mais num futuro em que sua troca é multiplicada por um milhão! Globalização nada, "Sistema-Solarização" é o futuro! E a Neuronet, sintonizada diretamente em seu cérebro, seria o canal de informações no séc. 853. Bem bacana.

Outra proposta muita boa é a que justifica a presença de Robin, o droide-prodígio parceiro do Batman Um Milhão. Ele guarda a essência de seu mestre de antes do massacre que matou sua família e milhares de inocentes. Robin seria então a inocência, a pureza de Batman, uma neurocópia otimista de sua infância preservada no droide para sempre lembrá-lo de equilibrar as trevas com a luz ainda não corrompida neste inferno que se tornou Plutão. Interessante essa visão de parceiros-mirins...

Curioso observar como Grant Morrison já plantou, há mais de dez anos, elementos que depois ele mesmo resgataria, agora que é um dos caras que mandam na DC. Por exemplo, o conceito da Dinastia Super-Homem, o sol tirânico Solaris e o próprio Super do séc. 853 reaparecem na sua obra Grandes Astros: Superman, assim como o Super-Homem primordial exilado dentro do Sol.

Até mesmo uma ideia não tão boa assim, como o "punching time", teve sua origem aqui. Se alguém se lembra (e não gostou) do Superboy Primordial alterando a realidade através de socos em Crise Infinita, saibam que o Super Um Milhão atravessou a barreira do tempo através de socos anos antes:


Num especial publicado um ano depois da saga, inédito no Brasil, chamado DC One Million 80-Page Giant, são apresentadas pequenas histórias ambientadas no ano 85.271, e assim descobrimos a origem do Eléktron Um Milhão (muito legal a história), sabemos um pouco mais sobre a Legion of Executive Familiars, liderada por Kryto-9, e uma boa história chamada Crisis One Million, em que a Legião da Justiça Alfa encontra sua contraparte do universo de Qward. Curioso observar o uniforme da híbrida Mulher-Coruja (ao lado, lembra quem?), e perceber como algo parecido com o gerador de azar gerando sorte no reversoverso de Qward seria novamente utilizado em Terra 2. Além do mais, percebam a presença de outras versões, como Batman de 1889, Batmirim, Super do Reino do Amanhã e de Red Son, entre outros, já antevendo a Crise Final e o Multiverso de Morrison (?), na história:

Falando em antever, a PREVISÃO PARA BLACKEST NIGHT: em Martian Manhunter 1.000.000, ficamos sabendo que Ajax ainda está vivo no séc. 853, e se tornou uno com o solo marciano. E aqui ele faz uma revelação a Kyle Rayner: "Foi você, afinal, quem me resgatou quando tudo estava enegrecido." E continua: "Há uma mensagem que quero que entregue ao meu eu de sua época"...Hmmmm, quando tudo estiver enegrecido... quer uma referência mais óbvia a Blackest Night? Já que sabemos que o marciano está do lado negro agora, nos States, resta esperar. Será que Kyle é quem vai salvá-los e trazê-los de volta? Vamos aguardar a resposta em alguns meses... mas não um milhão deles!

- Filme sugerido 1: Quem quer ser um milionário? (Slumdog Millionaire, 2008).

- Filme sugerido 2: Timecrimes (Los Cronocrímenes, 2007).

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Isso é um trabalho para o Super...?

Um dia desses, estávamos eu e minha esposa na casa de um casal amigo nosso jogando um desses joguinhos de conhecimento geral e cultura inútil bem legais, quando caiu uma pergunta ou dica mais ou menos assim: também sou chamado de Mianmá. Eu prontamente respondi: "Birmânia". Eu errei. Bom, segundo a fichinha do jogo. Lá dizia que a resposta era Burma. Já há algum tempo, vi uma notícia sobre atentados ocorrendo em Mumbai. Pensei comigo mesmo "Mumbai, olha só, acabei de conhecer mais uma cidade indiana pra entrar para o meu acervo de cidades indianas de que eu já ouvi falar, composta por Nova Délhi, Calcutá e Bombaim"... No ano passado, todos sabem, houve Olimpíadas. Mas ela foi onde mesmo? Ah, é, foi em Beijing... mas não era em Pequim?
Peraí. Burma é uma forma inglesa algumas vezes utilizada para se referir ao país que, em português, recebe o nome de Mianmá (e suas variações com y no meio e r no final) ou Birmânia. Mumbai é outro nome que se dá para a cidade que, em português transliterado do inglês, é chamada de Bombaim. E Beijing é a forma como a China quer que o mundo conheça sua já tão conhecida e manjada Pequim.
Aonde eu quero chegar com essa zona toda? Eu quero chegar no Super-Homem. Ou seria no Superman?

Colecionei HQs entre meados da década de 80 até meados da década de 90, quando parei de ler e só voltei em 2000 e alguma coisa. Nesse hiato, algo engraçado aconteceu. Eu parei de ler Super-Homem, mas quando voltei, voltei a ler Superman (reparem como ele é chamado, por exemplo, nas versões de Reino do Amanhã da Abril e da Panini). Nunca gostei muito do personagem, sempre disse que as melhores histórias do Super-Homem não são histórias do Super-Homem (explico isso melhor em outros posts futuros), mas reconheço a importância do que ele representa. Mas o lance aqui não é sobre o personagem, e sim sobre o seu nome.

Aliás, tradução de nomes aqui no Brasil sempre foi algo, no mínimo, curioso. Vejam a matéria do Eudes, do Rapadura Açucarada, sobre isso aqui (Peter Parker pra Pedro Prado, fala sério...).

Ele cita casos como do Ricardito (Speedy, no original), e do Joel Ciclone (Flash I). Cara, Joel Ciclone, não sei por que, mas pra mim ficou legal. Deu um ar mais antiquado ao personagem, bem característico dele, que é da Era de Ouro. Mas Ricardito? De onde veio isso? Outro também que eu sou louco pra parar na frente do cara que deu seu nome e perguntar: Ajax. Eu sei da explicação do porquê não se utilizar Caçador de Marte toda vez, por causa do espaço dos balões de diálogo na história, já que na tradução do inglês para o português o texto geralmente fica maior, nossa língua usa mais espaço. Mas sair de Martian Manhunter para Ajax, tipo, do nada?!? O que que tem a ver???

Li uma vez um artigo do Jotapê Martins falando sobre o primeiro filme dos X-Men, e falando de um dos vilões do filme, o Groxo. Nesse artigo o Jotapê faz seu mea-culpa (literalmente), explicando que, depois do filme, o Sapo (seu nome é Toad no original) "não poderá mais ser chamado de Groxo como ocorre nas revistas". Boa, Jotapê. Reconheceu o erro, pediu desculpas, gostei*. Tudo bem que, da primeira vez que vi o Groxo, com aquela roupinha ridícula de bobo-da-corte-assistente-de-cientista-maluco-da-idade-média, achei que o nome... cabia bem na figura feia e saltitante. Mas você não tinha como prever que ele no futuro teria uma mutação secundária que o faria ficar mais anuro ainda como pedia seu nome original. É, tô falando da bendita língua que aparece, e é bem utilizada, por sinal, no filme (e não aquela mostrada por Phil Jimenez no arco Planeta X dos Novos X-men, da espessura de um punho, permanentemente para fora e inútil; como é que ele conseguia falar, e muito, com isso saindo da boca?). Tudo bem.

Outro caso, tão esquisito quanto o do Ajax, é o do... Magnum! Tudo bem, concordo que traduzir Wonder Man ia ficar no mínimo ridículo, e ia acabar com toda a seriedade e masculinidade do cara. Quem ia levar a sério um fortão no grupo chamado de Homem-Maravilha? Putz... Tiveram a boa ideia de não traduzir o nome literalmente, daí resolveram rebatizá-lo. Mas, hum, vamos ver, o que poderia ser mais másculo que maravilha e melhor pra refletir os poderes dele, hein? Já sei! Magnum! Hã? WTF?!? Seria por causa dos óculos escuros, lembrando o galã que, talvez, na época, fazia tanto sucesso (pelo menos para o tradutor) com o ator Tom Selleck (quem se lembra desse seriado, hein)? Po, deixava o cara com o primeiro nome que deram pra ele, quando ainda era vilão, apesar de ser um nome bem clichê de supervilão: Poderoso, ou Homem-Poderoso, sei lá. Mas, Magnum? Não...

E o Super, como fica? Por que deixou de ser homem e virou man? Reflexo do imperialismo cultural norte-americano? Talvez. Tendência da maior anglicanização do português num processo natural de desenvolvimento da língua? Duvido. Imposição econômica do mercado? Provável. Sei que fizeram isso com Guerra nas Estrelas. Quem chama a primeira trilogia de Guerra nas Estrelas é da época dela, ou até da geração anos 80 (meu caso). A segunda trilogia hoje só é chamada de Star Wars (ainda mais pelos fanboys dos anos 90 em diante), e foi devido a imposição da marca mesmo. Decidiu-se que os subtítulos dos filmes poderiam ser traduzidos (Ameaça Fantasma, Guerra dos Clones, etc.), mas o título principal deles, em qualquer lugar do mundo, deveria ser, sem exceção, Star Wars. Ao que parece, algo semelhante ocorreu com o escoteirão de Krypton. As importadoras de produtos como bonecos, lancheiras, camisas e outros produtos com a marca do famoso S não quiseram mais gastar com adaptações e novas embalagens, e quiseram unificar o nome usado no mundo todo visto que a fabricação desses itens se dá geralmente num único país e exportado aos demais. Por isso essa pressão cada vez maior em se utilizar Superman ao invés do já tradicional e bem aceito Super-Homem em português.

Fui, certa vez, na casa de uns primos, e seus filhos estavam assistindo um DVD do desenho da Liga da Justiça. Peguei a capa do DVD e perguntei para os moleques se eles sabiam quem era cada um ali mostrado na capa. Chegando na figura verde do marciano, falei que era o Ajax, ao passo que eles fizeram cara de estranhamento e disseram "não, é o Jon-Jonz!" Fiquei com cara de tacho, parecendo que tava mentindo pra eles, mas a mãe deles pegou a capa do DVD e na sinopse dele estava escrito algo como "Batman, Flash, Mulher-Maravilha... e Ajax: sete dos mais poderosos heróis..." Confiram a descrição do DVD à venda no Submarino. Repararam no nome do Ajax, apesar de no desenho em nenhum momento ele ser chamado assim? Outra coisa, repararam que na sinopse Kal-El foi chamado de Super-HOMEM?

Vou apresentar algumas contradições encontradas entre o nome dado ao personagem e o texto de algumas de suas histórias, advindas da nova nomenclatura que pretendem dar ao personagem. Primeiramente em três revistas em que o personagem é chamado exaustivamente de Superman, mas aí chega uma hora do texto em que não dava mais pra manter isso, senão seria perdido o jogo de palavras.

- Em Superman Paz na Terra, na antepenúltima página (4ª de trás pra frente): "Vejo agora que assumir essa responsabilidade foi ambicioso demais para um homem, mesmo sendo um Super-Homem.” Ué, até há pouco ele era Superman, na verdade ao longo de muitas páginas, mas nesta única frase ele voltou a ser Super-Homem rapidinho!

- Outra, em Cavaleiro das Trevas II, a Mulher-Maravilha pergunta: “Onde está o herói que me lançou ao chão e me tomou como um prêmio merecido? Onde está o deus cuja paixão destroçou o topo de uma montanha? Onde está esse homem? Onde está esse Super-Homem?” É, né, Diana, na hora do vamuvê ele deixa de ser Superman e vira um Super-Homem, né, safadinha?

- No arco de histórias de Lex Luthor Homem de Aço (muito bom por sinal, como eu disse as melhores histórias do Super-Homem não são histórias do Super-Homem), capítulo 5, últimas páginas, Lex fala: “Você não pode (ver minha alma). Pois, se a enxergasse, veria um homem que optou por negar a felicidade a si mesmo (...) pelo mundo. Um mundo sem um 'super-homem'.” Poxa, ficou legal, não? Dá mais sentido às palavras de Luthor quando se representa o adjetivo do nome de Kal-El, um qualificante de seu poderio e de sua posição no mundo.

- Agora, o lado contrário, quando decidiram que não ficaria legal martelar a cabeça do leitor com o nome Superman em toda a revista e só numa única frase desdizer tudo de antes e jogar sua versão traduzida. Pegue seu exemplar de Maiores Histórias Superman DC 70 anos, vá até a página 90 e leia: “Pelos próximos 72 anos, homem e supermen colonizaram os céus.” Horrível, não? E separei só uns poucos casos, com certeza há mais parecido com isso por aí (não acompanho a revista do Azulão mensalmente para mostrar mais).

Retomando Pequim. Há estudiosos que defendem o uso da palavra Pequim para se referir à cidade, visto seu uso já consagrado no português, inclusive com palavras derivadas, como a raça pequinês, por exemplo. Não vamos mudar o nome da raça para beijingnês, obviamente. O mesmo caso eu digo do Super: percebam que, todas as vezes em que órgãos de mídia se referem ao último filho de Krypton, chamam-no de Super-Homem. Perguntem para seus familiares, sejam pais, avós, ou mesmo primos de mesma idade, mas que não conheçam bem ou não leiam HQ: eles vão falar Super-Homem. Até mesmo referências dentro da cultura pop, inclusive seriados com bastantes afinidades com quadrinhos, como Heroes ou The Big Bang Theory, citam o herói como Super-Homem, e não Superman. O conceito de Nietzche, já consagrado em nosso idioma pátrio, é o do super-homem, não o do superman. Cara, passamos mais de 5 décadas chamando o cara de Homem, e agora sem mais nem menos vamos chamá-lo de Man? São pelo menos 50 anos ouvindo seu nome em português para abandoná-lo assim!

Conclamo todos nós a usarmos simplesmente aquilo a que nos fomos acostumados a ouvir a vida inteira. Não é mais simples usar aquilo que sempre usamos? Para que nos rendermos a uma imposição artificial e engolirmos o termo americanizado, se já temos nosso termo próprio? Entendo que as línguas evoluem, adaptam-se, mudam com o tempo e aceitam incursões de outros idiomas; adição de estrangeirismo é perfeitamente normal. Mas somente quando não temos um termo específico em nosso idioma para aceitá-lo. Usar uma forma estrangeira forçada goela abaixo em detrimento de um termo já tão bem traduzido e arraigado culturalmente em nosso idioma há décadas... isso para mim sim é antinatural!

Ou vamos agora mudar tudo? Afinal de contas, ainda falamos Homem-Aranha, e não Spiderman. Até quando? Falamos Homem de Ferro, e não Iron Man. Por quanto tempo? Vamos ver o futuro filme dos Vingadores, ou o filme dos Avengers? Quarteto Fantástico ou Fantastic Four? Mulher-Maravilha ou Wonder Woman? Podemos continuar assim ad aeternum...

Vocês podem até falar "poxa, mas são ordens editoriais e tal...", mas vamos lembrar comigo o caso do Shazam. Quer dizer, do Capitão Marvel. Viu, muita gente confunde o nome do cara, achando que é Shazam. Isso deveu-se a problemas de direitos autorais; quando a DC adquiriu os direitos do personagem, a Marvel já era detentora da marca Capitão Marvel. Logo, a DC teve de publicar seu herói usando na capa de suas revistas o título Shazam. Fica aí minha sugestão. Panini (ou qualquer outra que possa publicá-lo por aqui), que tal mostrar o título da revista como Superman, mas à parte isso, dentro dela, em todo o seu conteúdo, chamar o personagem da nossa forma tão conhecida, Super-Homem mesmo? Deixa os personagens dentro da história, ou o texto lá dentro, usando homem, só na capa se manteria o man. Não atrapalharia a questão da marca, e manteria a nossa tradição linguística na versão aportuguesada, além de evitar problemas como os expostos nos exemplos que dei lá em cima. Isso seria muito trabalhoso, seria tão difícil?


Seria um trabalho para o Super... Homem?




Vídeo sugerido: Eu tinha que ser um Super-Homem?




terça-feira, 20 de outubro de 2009

REFERÊNCIA OU CÓPIA?

Eu sei que existem personagens que são feitos em homenagem a outros. É o caso do Samaritano, de Astrocity. Ele é claramente uma alusão ao Super-homem. Da mesma forma que os inimigos do Planetary são uma clara referência ao Quarteto Fantástico. Agora... existem casos de personagens muito parecidos, e não sei se são declaradamente referências aos personagens de outras editoras ou se poderiam ser considerados cópias mesmo. Veja os exemplos abaixo, comparando personagens das duas grandes: Marvel Comics e DC comics.

Arqueiro Verde X Gavião Arqueiro

A diferença básica entre os dois personagens é que o Arqueiro Verde é milionário. Compare o resto... Ambos são exímios arqueiros que disparam flechas especiais. Até aí, normal, existem vários personagens que o são, inclusive fora dos quadrinhos. Só que os dois são também bastante ágeis, lutam bem e fazem ou um dia fizeram parte de uma equipe de megapoderosos: o Gavião Arqueiro dos Vingadores e o Arqueiro Verde da Liga da Justiça. Até o temperamento dos dois às vezes é parecido.


Flash X Mercúrio

Existe alguma dúvida? Ambos são os velocistas mais conhecidos de cada uma das editoras. Hoje em dia (ou pelo menos até quando li) o Flash passou a ter uma série de outros poderes por causa da supervelocidade, como atravessar paredes e destruir um objeto (às vezes até uma construção) fazendo-a vibrar. Só que o Flash mudou com o tempo. Da mesma forma que o Super-homem em suas primeiras histórias não voava, apenas saltava alto, o Flash do passado também era mais limitado. Aliás, o Mercúrio parece ser exatamente esse Flash mais limitado. É apenas superveloz, sem poderes extras por conta disso, e nem é tão rápido quanto o Flash atual. Até o uniforme do Mercúrio, se você observar bem, também leva relâmpagos nos detalhes, símbolo do Flash.

Super-homem X Gladiador

Esse é uma referência mesmo, como existem tantas outras ao homem de aço. O Gladiador, para quem não conhece, faz parte da guarda imperial do império Shiar, que de vez em quando aparece nas histórias dos X-men. Em outras palavras, é um supercoadjuvante meeeeeessmo! Seus poderes: Voo, megaforça, megarresistência (até aí, é só um modelo básico), dispara raio de calor dos olhos e pode dar um supersopro. Opa! Super-homem total, não é? A diferença: o poder do Gladiador depende de sua confiança, enquanto o do Super depende do Sol. Mas, como disse, ele não é cópia, é uma referência mesmo. Reparem na capa da revista, onde está escrito “Homem e super-homem", em que a equipe enfrenta o Gladiador. E na capa da revista do Super-homem onde está escrito: "Super-homem enfrenta uma legião de super-heróis". Ambas foram feitas por John Byrne. Assim ele evidencia que o Gladiador é uma referência ao Super-homem. Seria a legião uma referência ao Quarteto Fantástico também? Um gênio como líder, um brutamontes, um que tem poderes ligados ao fogo e uma garota que fica invisível? Parece...

Caçador de marte X Visão

Das comparações que fiz, esses são os menos parecidos. Já é um exemplo de como dois personagens podem ser parecidos conceitualmente. Repare: ambos são, ao seu modo, alienígenas. O Caçador porque é de Marte, o Visão porque é um robô (Opa! Desculpe, um sintozoide). Ambos têm uma maneira fria de pensar e agir (estou falando do Visão de personalidade robótica mesmo, e não do Visão cheio de sentimentos que se casou com a Feiticeira Escarlate). Ambos são considerados sombrios e às vezes provocam calafrios nos próprios membros de suas equipes. Na aparência, os dois voam com leveza, usam longas capas e são “carecas” de olhos fundos e frios (compare as gravuras e diga se não são parecidos). O Visão, além de voar, tem certo controle sobre seu corpo, que o permite ficar intangível ou muito rígido. O Caçador de Marte também voa, também pode ficar intangível, é invulnerável e controla seu corpo, podendo moldá-lo. O Visão dispara raio dos olhos e o Caçador de Marte lê mentes, é nesse ponto que se diferenciam. Eu acredito que o Visão pode ter sido inspirado na figura do Caçador de Marte, o que não caracteriza uma cópia, pois eles são semelhantes, mas ao mesmo tempo possuem diferenças fundamentais. Digamos que seja um estilo de personagem... Particularmente, gosto dos dois.

Namor X Aquaman

Os dois reis do mar. Quer dizer, o Namor é o príncipe submarino, enquanto o Aquaman é um rei. Rei dos Atlantes, uma raça que na DC vive debaixo d’água, assim como os... Atlantes, uma raça que na Marvel vive debaixo d’água. Nada sutil, né? Ambos podem respirar tanto na água quanto na superfície. Ambos possuem força e resistência sobre-humanas. É verdade que o Aquaman pode convocar mentalmente animais aquáticos e o Namor, voar por causa de asas nos tornozelos (não sei o que é pior: o fato de que asas tão pequenas obviamente não o permitiriam voar ou imaginá-lo com grandes asas nos tornozelos), mas o Aquaman é claramente uma resposta à criação do Namor nos domínios dos mares das editoras. Existe alguma dúvida? Aliás, para quem veio até esse blog em busca da resposta para o probleminha de lógica, o Namor é a resposta. Dos cinco casos citados, os quatro primeiros personagens da Marvel foram criados depois dos da DC, o Namor é o único que a Marvel criou antes. Portanto, se houve cópia ou referência, os personagens da Marvel que foram inspirados nos da DC, com exceção dos mestres do oceano.
Existe ainda o caso do Monstro do Pântano da DC e o Homem-Coisa, da Marvel. Também há grande semelhança. Porém, isso envolveria falar de um outro personagem, ainda mais antigo... Deixo para vocês então um link para outro blog, que fala mais aprofundadamente sobre o assunto: http://www.uarevaa.com/2009/10/o-monstro-do-pantano-criatura.html