segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O simbolismo dos super-heróis

Agradeço novamente a todos que compareceram a minha palestra O simbolismo dos super-heróis, na Livraria Cultura. Para quem não pôde ir, eis um resumo do tema abordado.


História em quadrinhos: coisa de criança? Um mero produto de consumo? Histórias fracas e superficiais, como filmes de ação sem profundidade? Fantasia, fuga da realidade? Nada disso! As histórias em quadrinhos possuem uma grande profundidade. Os super-heróis não são apenas seres com um uniforme legal, feitos para vender bonecos, jogos e lancheiras. Existe algo de muito profundo nos heróis clássicos das histórias em quadrinhos.

Super-homem e a mitologia

A mitologia é a fonte onde bebem os criadores de super-heróis. Desde Gilgamesh, um dos mitos mais antigos de que se tem conhecimento, existe no imaginário a noção de um ser parte humano, parte divino, dotado de grandes poderes. Se pegarmos a mitologia grega, temos Hércules como o exemplo mais popular de herói. E Super-homem tem várias semelhanças com ele. Qual é o poder do semideus? Uma força incomensurável. E um dos poderes do Super-homem, um dos mais notáveis desde sua criação, em 1932, por Jerry Siegel e Joe Shuster? A força incalculável. Hércules era filho de Zeus – pai dos deuses – e uma mortal. Seu sangue divino era o que lhe conferia poderes. O Super-homem, a seu modo, também tem o poder no sangue, só que em vez de ser divino, ele é alienígena, uma adaptação aos tempos modernos e suas crenças. A analogia divina pode ser observada, porém, no fato de que o Super-homem veio dos céus, e por isso tem poderes. Hércules, a partir de seu primeiro trabalho, passou a usar a couraça do leão da Nemeia como sua roupa e proteção, como retratado em diversas de suas esculturas (ao lado). O Super-homem tem um uniforme, usando inclusive um emblema no peito.
Falar do Super-homem é falar dos super-heróis de uma maneira geral. O primeiro herói a figurar nas páginas dos quadrinhos com superpoderes, o modelo para os super-heróis seguintes. Ele representa basicamente as características fundamentais do que torna um super-herói um super-herói. É seu arquétipo: justo, altruísta, luta pela liberdade e pela verdade. Ele é um exemplo para os personagens dos quadrinhos e para os leitores. Sempre agindo pelo bem e usando todos os seus poderes em busca de uma sociedade melhor. Mais importante que seus poderes é sua moral, afinal poderes os supervilões também têm, o que faz um herói ser herói é sua ética e comprometimento com a justiça.


A comparação Super-homem e Batman
Outro herói clássico dos quadrinhos, muito popular há anos, é o Batman. Também engajado na luta pela justiça, adotou critérios altruístas, mas possui algumas diferenças em relação ao “pai dos super-heróis”. Batman não possui poderes. Seu intelecto e treinamento é o que o tornam um herói. Quando a comparação entre Super-homem e Batman vem à tona essa é uma das justificativas para que o Batman seja considerado mais heroico. É fácil deter um assalto a banco, por exemplo, quando se é invulnerável e sua força, insuperável. Batman, se levar um tiro na boca, morre. Sendo assim, ele é mais corajoso. Certo, mas o Super-homem também enfrenta adversidades que estão compatíveis com ele, reais ameaças a sua integridade física. O poder é justamente o que faz com que o Super-homem enfrente diariamente ameaças que não estão na alçada do Batman, mais um justiceiro das ruas, um combatente do crime. O Super-homem seria, por esse motivo, mais heroico, pois seus poderes lhe permitem, em vez de salvar uma vítima do crime, salvar o mundo inteiro de uma ameaça planetária. Por outro lado, Batman precisou desenvolver suas capacidades e precisa treinar todos os dias, enquanto o Super-homem nasceu com suas poderes, veio de graça. Enfim... a lista dos defensores de um e dos defensores de outro é grande. Não quero defender nem um lado, nem outro, considero que a reflexão é o que é mais importante.
Ainda na comparação entre os dois, cabe lembrar da pintura Escola de Atenas, de Rafael, em que estão representados no centro Platão e Aristóteles (ao lado). Nela, Platão aponta para cima, simbolizando o mundo das ideias, os ideais mais elevados. Já Aristóteles, seu discípulo, demonstra com sua mão que está mais no plano terreno, que se preocupa mais em trazer soluções que tenham efeito nos problemas sociais em vigor. O que isso tem a ver com o Super-homem e o Batman? O Super-homem está para Platão da mesma maneira que Batman para Aristóteles. Enquanto o Super é um idealista, que representa praticamente o ideal de perfeição humana, Batman é um pragmático, que preocupa-se com problemas pontuais da sociedade. Ele não está interessado em dar o exemplo, e sim em combater o crime, deter a corrupção, enquanto o Super-homem representa a nobreza para que todos possam seguir seu exemplo. Os dois, nesse sentido, se complementam.

O pequeno Bruce e o pequeno Buda

Se vamos falar de Batman, vale relembrar sua origem. O pequeno Bruce vivia uma vida feliz e contente com seus pais, donos de um império industrial na cidade de Gotham. Um dia, seus pais foram assassinados na saída do cinema por um criminoso. O pequeno Bruce conheceu então a dor e o sofrimento e isso mudou completamente sua vida. Passou a treinar para combater o crime. Agora eu contarei uma outra origem... Siddhârtha Gautama era uma criança feliz no reino de seu pai. Porém, um dia, ao passear pelos jardins floridos reais, conheceu um ancião, um enfermo e um defunto. Entrou então em contato com a dor e o sofrimento e isso mudou completamente sua vida. Fundou o budismo e passou disseminá-lo, no intuito de fazer com que as pessoas pudessem cessar suas dores. Não quero, por meio dessa comparação, dizer que Batman é tão nobre ou importante quanto o Buda. Apenas trago essa semelhança para demonstrar como os princípios do budismo podem ser vistos na figura do Batman. Cada um a seu modo, ambos buscam o ideal de minimizar a dor alheia. Batman sacrifica sua vida milionária, em que poderia ter tudo o que quisesse, fazer o que quisesse, para combater o crime e fazer com que menos pessoas sejam vítimas da violência, como ele foi, quando criança.

A semelhança não para por aí. No filme Batman Begins, Bruce passou por um período de treinamento em algum lugar na ou próximo à China. É notório no filme, nos quadrinhos e em qualquer outro meio em que apareça o domínio do Cavaleiro das Trevas no campo das artes-marciais, outro elemento da cultura oriental, assim como o budismo. E em suas atitudes Batman segue, em certa perspectiva, o Nobre Óctuplo Caminho, que seria, de acordo com o budismo, o caminho que conduz à cessação da dor. Para citar alguns: retas intenções (estar bem-intencionado em todos os atos), retas palavras (não falar nem de mais nem de menos, apenas o necessário), reta conduta (de vida, sem excessos, sem inércia), reta atenção, reta concentração...


Karma, dharma e o Homem-aranha

Karma e dharma são conceitos em geral associados a reencarnação. Contudo, é possível pensar que esses princípios podem ter efeito também em uma única vida. Dharma, em bem poucas palavras, seria algo como a razão da existência de uma pessoa, o caminho a ser seguido. Karma é um efeito gerado a partir do momento em que a pessoa foge desse caminho. Agora peguemos Peter Parker, mordido por uma aranha radiotiva. Ganhou poderes, e logo seu tio Ben avisou: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. E o que Peter fez? Ignorou isso e passou a fazer fama e dinheiro com seus poderes, em cima dos palcos de luta livre. Quando um assaltante passou por ele no corredor, não se deu ao trabalho de tentar detê-lo, embora para ele fosse muito fácil. Mais tarde, o mesmo assaltante, em fuga, acabou matando seu tio. Esse foi o primeiro karma gerado na vida de Peter, um karma com um propósito muito importante: mostrar a Peter qual era sua missão de vida: ser o Homem-aranha. A partir daí Peter passou a combater o crime e outras ameaças com seus superpoderes. O dharma de Peter é ser um super-herói, a paritr do momento em que ganhou superpoderes.

Esse conceito não se restringe à origem do herói. Nas histórias do Homem-aranha são constantes os momentos em que ele pensa em largar o uniforme e levar sua vida, o que seria muito mais cômodo para ele. Cada um cuida da sua própria vida, por que ele tem que cuidar das dos demais? Basta ignorar seus poderes, fingir que não os possui. Esse é o tema central do filme Homem-aranha 2. Entretanto, como retratado no filme e nos quadrinhos que o inspiraram, toda vez que Peter tenta abandonar o uniforme o dever o chama. Alguém se fere, uma ameaça se faz presente, a criminalidade aumenta... Peter é responsável demais para fechar os olhos para isso. Largar o uniforme lhe traz desconforto e sofrimento, não é tão fácil quanto ele imaginava. Novamente, o karma lhe provoca para que volte ao seu dharma, ao seu caminho, e seja o Homem-aranha mais uma vez.


X-men: preconceito e coexistência


O mote principal das histórias dos X-men é claro desde o início: preconceitos. Os mutantes são seres que nascem com superpoderes e por isso são discriminados. Existem outros com superpoderes, mas só os mutantes são discriminados. Não faz muito sentido, não é? Pois é, o preconceito não é algo que faça muito sentido. É a rejeição àquilo que é diferente. É uma aversão a algo que é diferente de você, ou a algo que uma pessoa quer que seja diferente dela. Que sentido existe no preconceito contra pessoas cuja pela é negra? Menos do que em relação a pessoas que podem dominar sua mente com um superpoder, ou destruir sua casa com uma rajada ótica.
Apesar do preconceito, Charles Xavier tem o sonho de uma coexistência pacífica entre mutantes e humanos sem poderes. Fundou uma escola que serve de guia para jovens mutantes, onde eles aprendem não apenas a controlar melhor seus poderes, mas também a ideologia da tolerância, a concepção da harmonia social. Sem preconceitos, sem conflitos, mesmo que pessoas normais (não são todas) tentem apedrejar os mutantes nas ruas. Bater de volta não é solução. Seu arqui-inimigo, Magneto, reage de maneira antagônica. Para ele, é guerra! Se são atacados, os mutantes devem atacar de volta, impor-se, lutar pela comando das sociedades, pois eles, em sua visão, são superiores, o próximo degrau da escala evolutiva. Em outras palavras, enquanto Xavier é um agente da paz e da harmonia, Magneto é um agente da guerra e da imposição.

Os vilões também nos ensinam lições

Qual é a importância dos vilões nas histórias? Por que eles existem? Os heróis nos dão o exemplo a ser seguido, então os vilões nos demonstram o exemplo a não ser seguido. Magneto representa um conceito sofisticado de vilão. Não é perverso, completamente mal. Nem é simples, desses que simplesmente querem dominar o mundo. Magneto tem um ideal e luta por ele. Em sua visão, não há como evitar uma guerra entre humanos e mutantes, e por esse motivo é melhor atacar logo, antes que seja tarde demais. Mais real, não acham? Quando criança, Eric e sua família sofreram nos campos de concentração nazista (como retratado na obra ao lado: Magneto - testamento). Isso lhe gerou um grande trauma e o medo de que acontecesse novamente. A partir do momento em que desenvolveu seus poderes, tomou como meta que nunca mais seria subjugado. Assim, quando a população e o governo, procurando um bode expiatório, passaram a perseguir mutantes, Magneto passou a atacar a sociedade. Sem perceber, Magneto se tornou aquilo que mais temia. Se Hitler é quem personifica o nazismo, com seu discurso de superioridade racial, Magneto tornou-se exatamente o que mais odiava, pregando o discurso da superioridade mutante.
Vilões simples, que são essencialmente maus ou elaboram planos de dominação mundial, são fáceis de se perceber, e é muito difícil que nos identifiquemos com eles. Por outro lado, quando se analisa Magneto e outros vilões mais elaborados, nós podemos ver como uma pessoa pode se tornar um vilão sem querer, sem perceber. Vale lembrar também que o vilão é, por definição, o oposto do herói. Se o herói é definido, entre outras características, por seu altruísmo, o vilão é caracterizado por seu egoísmo.

Além de demonstrar a riqueza que existe nos super-heróis e em suas histórias, essas reflexões servem para que nós nos situemos enquanto cidadãos do mundo e seres humanos. Nos quadrinhos existem basicamente três tipos de personagens: os heróis, os vilões e os figurantes, pessoas de pouca ou nenhuma importância para a história, sempre a mercê dos perigos, esperando serem salvos. Cabe a nós perguntar: com quem que nós mais nos identificamos? E com quem que nós mais queremos nos identificar?

Livros sugeridos
Os super-heróis e a filosofia, William Irwin (coordenação);
Batman e a filosofia, William Irwin (coordenação);
Nossos deuses são super-heróis, Christopher Knowles.

Filmes sugeridos
Homem-aranha (a trilogia);
X-men (a trilogia).

Quadrinhos sugeridos
Terra-X (Marvel);
Marvels (Marvel)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

M S P 5 0 e +

Ano passado Mauricio de Sousa completou 50 anos de carreira. Para comemorar o feito, convidaram 50 artistas brasileiros para fazerem algo, em seu próprio estilo, com os personagens de Mauricio, e o resultado foi o ótimo encadernado MSP 50.
O elenco de peso chamado incluía quadrinhistas, cartunistas, caricaturistas e desenhistas já consagrados e belas surpresas emergentes para homenagear a festividade. Interessante notar que, desde aquela primeira tirinha do Franjinha e Bidu, em 18 de julho de 1959, o próprio traço de Mauricio se modificou bastante, e a maior graça neste encadernado foi ver justamente personagens tão conhecidos nossos em versões as mais diversas possíveis (vejam os diferentes Chico Bento abaixo).

Chico Bento, nos traços de
Vitor Cafaggi, Erica Awano, Lelis,
Benett (em cima) e Julia Bax (os dois de baixo).

Infelizmente alguns artistas não impuseram seu estilo pessoal e resolveram imitar o próprio desenho do grupo Mauricio de Sousa, não sei se por não entenderem a proposta ou se foi a escolha deles para homenagear o desenhista, como foi o caso de Spacca e Antônio Cedraz, em sua história sobre Cascão e a seca. Ou, quem sabe, uma crítica velada? Explico isso melhor no fim do post.
A abertura, com Laerte, já inaugura o uso da metalinguagem que vai permear grande parte da obra. Falando em recorrência, o Astronauta foi, de longe, o mais ubíquo, dentre o rol de personagens a serem utilizados, figurando em 7 das 50 historinhas.

Astronauta, por
Marcelo Campos/Renato Guedes, Jean Okada, e Fábio Moon/Gabriel .


Alguns artistas, obviamente, ficaram em suas áreas e preferiram fazer apenas uma caricatura ou uma charge, parabenizando os 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa, o que torna ainda mais rico e diversificado o encadernado, como foi o caso de Dalcio Machado, Baptistão, Fernandes, Cau Gomez e Angeli. Quanto a esses dois últimos, uma consideração extremamente pessoal minha. A charge de Angeli mostra um personagem genérico dele (punk narigudo) com uma tatuagem do Bidu nas costas. E só. Pra mim, ou isso demonstra preguiça, falta de inspiração, ou mesmo falta de interesse de um dos mais conhecidos cartunistas do Brasil. Não sei, talvez seja só eu mesmo, cansado das egotrips mais-do-mesmo semanais de Angeli. Pois bem, comparem com a de Cau Gomez. É o conceito é quase o mesmo, mas a execução. Po, em apenas duas imagens, Cau Gomez consegue nos passar uma verdadeira história, apresentando um personagem com personalidade, ao mostrar um carinha grande sendo tatuado com o rosto da Mônica, e dando toda uma comicidade na sua narração. Excelente! Pessoalmente acho que Angeli deveria tomar o exemplo de seu colega... Valeu, Cau, muito boa!
Horácio,
o tiranossauro herbívoro existencial,
de Raphael Salimena.

Agora, algumas rápidas considerações sobre algumas das histórias destacadas e seus autores:

O Horácio de Raphael Salimena é visualmente muito massa, e a história não deixa por menos o tom que o dinossaurinho verde sempre teve. Daniel Brandão nos traz uma nostálgica visão sobre os 50 anos com toda a turma da Mônica já envelhecida. Lelis apresenta um estilo de pintura muito bem ilustrado. O traço meio "sujo" e underground de Orlandeli casou bem com a figura do Capitão Feio, numa história bem atual sobre seu sumiço e... retorno?
Capitão Feio e sujo pelo traço "feio e sujo" de Orlandeli.


Antonio Eder se permite uma auto-homenagem (como já havia feito anteriormente com o Gralha) bem divertida e com muitas referências a elementos astrológicos, matemáticos, abstratos, brincando bastante com a própria linguagem dos quadrinhos. Muito boa!

Antonio Eder subvertendo,

mais uma vez, a ordem de leitura dos quadrinhos.


Ivan Reis, desnecessário dizer, tão acostumado com capas e colantes, fez questão de mostrar super-heróis em seu conto, e é claro que eles não eram páreo para uma menininha dentuça e seu coelhinho... falando nisso, o grande desenhista da DC nos mostra uma Mônica e uma Magali lindas! (diferentemente do coitado do Cebolinha...)
Mônica e Magali,
belíssimas na arte de Ivan Reis, e um Cebolinha nem tão belo assim...


Yabu também puxa uma sardinha pra seu lado e apresenta um diferente conceito sobre a turma, interessante, sobre um futuro distópico e cheio de anagramas, hehehehe. Muito boas também as aparências de Franjinha e Marina mais realistas, por Otoniel Oliveira, falando justamente sobre desenhos.
Yabu inovando conceitos e brincando com anagramas
sobre a menina mais forte do mundo e o dono da lua.


Uma das melhores versões deste encadernado, na minha humilde opinião, foi a de Samuel Casal para a turma do Penadinho. Invertendo as cores de modo a que as sarjetas (espaço entre os quadrinhos) e a própria página ficassem em preto, conseguiu imprimir um tom mórbido ao pessoal do cemitério, muitíssimo bem estilizados, homenageando ainda el dia de los muertos mexicano. Riquíssimo. Excelente!

Todo o estilo de Samuel Casal para a turma do Penadinho.


Pra quem curte o estilo mangá, Erica Awano faz um belo trabalho, limpo, bonito. Fábio Lyra nos presenteia com um conto psicodélico, lisérgico, bem anos 70, com Rolo, Tina e o Louco. Falando no Louco, sempre adorei o personagem, e fiquei feliz em ver que muitos quadrinhistas representaram-no neste especial de aniversário, como Jean Galvão, ou Laudo, ou mesmo em participações especiais como o "curupira" da história de Julia Bax. Ainda sobre insanidades, há que se destacar o trabalho louco de Rafael Sica com o Cebolinha. Achei meio sinistro, e até meio pesado perto do tom das outras histórias, mas essa é apenas uma interpretação que tive. O conto é interessante também por isso, por abrir várias possibilidades, e não consigo deixar de imaginar uma cebola de verdade ao ver os olhos espiralados do Cebolinha...
Cebolinha mentalmente perturbado,
numa história - curiosamente, sem o Louco - de Rafael Sica.


O grande Fernando Gonsales, de quem sou fã confesso, famosíssimo por Níquel Náusea, sacaneou o próprio traço para mostrar como, mesmo não sabendo desenhar, tem sempre alguém, em algum lugar, desenhando a Turma da Mônica por aí. E quem é que nunca fez isso quando lia esses gibis na infância? Falando em infância, me chamou bastante atenção a turma do Cabeça Oca de Christine Queiroz, que não conhecia. Adorei a personagenzinha da Mariana: "A Maiana é a Monca!", muito bom! A história de Guazzelli também é sensacional. Sutil, inovadora, não apresenta nenhum personagem de Mauricio de Sousa, mas faz uma ótima homenagem envolvendo o planeta Marte... E finalmente, mas não menos importante, a belíssima história, no belíssimo traço de Vitor Cafaggi (do excelente Puny Parker), sobre um passarinho verde!

A singela e sensível homenagem de Vitor Cafaggi a Chico Bento.



A variedade de estilos é ponto alto, seja no traço anguloso e retilíneo de José Aguiar, seja no curvilíneo e redondo de João Marcos, seja no preto e branco de Mascaro, nos tons pastéis de Fido Nesti ou mesmo no colorido de Jô Oliveira.
O problema da obra, belíssima em seu conjunto, concepção e realização, é devido a toda a polêmica que envolve os Estúdios Mauricio de Sousa e a questão dos créditos de seus trabalhos. Apesar de possuir mais de 50 roteiristas e desenhistas em sua equipe, nenhum destes é creditado como autor ou artista nas revistas da Turma da Mônica. Deem uma olhada: em todas elas há apenas a assinatura de Mauricio de Sousa (apesar de, há anos, Mauricio ser criticado por ter abandanado o desenho para se tornar unicamente empresário). Questionado sobre isso, Mauricio se defende alegando que isso é para evitar acirramento de vaidades entre os da sua equipe, e também devido a problemas de copyright, pois, segundo o próprio, "um artista tendo seu nome na frente de um personagem pode, mais tarde, reclamar algum tipo de direitos sobre ele. Claro que perderá na justiça, mas é algo que não há necessidade no meu pessoal. Assim, nas minhas revistas isso não acontecerá." Engraçado que, há décadas, as grandes editoras norte-americanas trabalham indicando os devidos créditos a seus autores...
O traço torto de Fernando Gonsales
é explicado (?) em sua participação no especial de 50 anos.

Por isso minha dúvida lançada lá em cima: teriam alguns artistas aproveitado a deixa e feito uma leve cutucada na própria edição de homenagem a Mauricio de Sousa? Teria sido por isso que Fernando Gonsales, na voz de Bidu, teria escrito "Na verdade, sou um falso Bidu! Não fui desenhado nos Estúdios Mauricio de Sousa!"? Bom, talvez não.
E a ironia cabe aqui. O mais interessante do encadernado MSP 50 é justamente vermos ilustrações originais, versões novas, com traços diferenciados e pontos de vista tão singulares, com conceitos novos, de personagens tão conhecidos, pelas mãos de vários e competentes artistas nacionais, devidamente creditados.

Independente dessa polêmica toda, Mauricio de Sousa ainda é, de longe, o mais bem-sucedido quadrinhista brasileiro, e sua Turma da Mônica Jovem foi a maior jogada editorial de 2008, tornando-se indiscutivelmente o maior sucesso do mercado de quadrinhos brasileiro nos últimos anos, superando as vendagens inclusive da primeira tiragem da Turma da Mônica na década de 70.

Domingo, dia 15 de agosto - ontem! -, foi lançada durante a Bienal do Livro em São Paulo a coletânea MSP + 50, reunindo outros 50 nomes dos quadrinhos nacionais para darem suas versões e visões sobre os personagens de Mauricio de Sousa. Se repetir o nível da primeira, vai ser muito bom, e eu não duvido de que seja! Prévias aqui e aqui.





-Cube papercraft sugerido: Horácio (feito por mim mesmo, hehehe).

-Blog sugerido: Horacio Esperante (em português e em esperanto, feito por um colega brasiliense, para quem gosta de Horácio e quiser aprender um pouco mais sobre la universala lingvo).

-"HQ digital" sugerida 1: homenagem da Turma do Penadinho à morte do Michael Jackson (prévia oficial não finalizada disponível online).

-"HQ digital" sugerida 2: conto sobre encontro entre Franjinha, Astronauta, Piteco e outros (prévia não oficial não finalizada disponível online).

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Metáfora espanhola

  Eu me perdi em Madri. No caminho para me encontrar, dei a sorte de passar em frente a uma loja especializada em quadrinhos. Pedi que me mostrassem revistas de autores espanhóis. Entre as opções, lá estava Paco Roca...


Perdido

  O encadernado que levei era Las Calles de Arena, que começa justamente com o personagem principal tentando pegar um atalho para chegar a um lugar mais depressa. Ele se perdeu exatamente da mesma maneira que eu. Só que não consegue sair dali por um bom tempo. Lá começa a passar por uma série de acontecimentos absurdos e personagens surreais. Essas histórias, que compõem sua jornada para sair do bairro, são extremamente metafóricas. Uma das primeiras pessoas que ele encontra é um senhor que está tentando sair do bairro, assim como ele, só que há anos. Tem a filosofia de que "es muy importante la planificación", no intuito de estar pronto para tudo. E, por ter medo de fracassar, ele nunca começa a viaje, pois nunca acredita estar plenamente preparado.
Em um outro momento, o personagem central (que não se lembra do próprio nome, pois saiu de dentro dele um doppelgänger, um ser que perdeu sua identidade tentando achar a lógica do barrio e por isso se dedica a robar la personalidad de los demás) encontra um vampiro, vivendo há séculos e colecionando coisas. Este novo personagem é absolutamente apegado a todas as bugingandas que guarda.  Tem por todas, como diz, “mucho aprecio”. Considera todos os objetos recordações preciosas para sua vida.
 
  À medida que a história vai avançando, percebe-se que uma certa mulher parece ter várias gêmeas, que executam diversos serviços básicos no bairro. Depois o personagem principal descobre a história de um coronel, cuja mulher morreu, e ele reproduziu um clone dela. Entretanto, o clone não o amava. Então ele continuou a reproduzi-los, chamando a todas de Eva...

  Cada história, cada personagem tem sua mensagem. E mesmo dentro delas existem frases extremamente interessantes e reflexivas, como quando o vampiro diz que não fez muita coisa durante seus séculos de vida, pois tem todo o tempo do mundo; e a senhora que, perguntada qual religião segue, diz que faz rituais a uns, preces a outros, pois nunca se sabe cuál puede ser al final la verdadera.

Arrugas

  O motivo que me convenceu a levar a história do Paco Roca foi porque ele ganhou o prêmio espanhol de quadrinhos em 2008 por uma obra chamada Arrugas. Então pensei: deve ser boa também. Minha mãe voltou da Europa agora e me trouxe o encadernado de presente. A história é bem mais curta, mas tem a mesma qualidade e estilo do autor.
  Arrugas fala sobre envelhecer. O personagem principal, Emilio, é levado a um asilo logo no início da história. Ele sofre de Alzheimer. Porém, além de tratar da doença na obra, o autor a usa para falar da velhice. Ele convive com diversos outros idosos, que possuem outras doenças. Porém, a metáfora é a de que todos eles vivem no passado. Pellicer, por exemplo, vive falando da época em que foi atleta olímpico, a medalha de bronze o tempo inteiro no peito, enquanto anda de um lado para o outro... com a ajuda de um andador. A senhora Rosário acredita a todo instante estar dentro de um trem a camino de Estambul.

  A história também é repleta de frases interessantes, reflexões sobre a vida e sobre envelhecer. Miguel, melhor amigo de Emilio no asilo, e um tanto crítico em relação a tudo, questiona a necessidade de tantas pílulas e dietas e proibições, dizendo ser apenas o prolongamento de uma malvivir, já que não fazem nada no asilo além de comer, dormir e se prostrar em frente a uma televisão que exibe programas que nenhum deles quer ver.

  A qualidade da obra de Paco Roca, que agora considero como um dos melhores autores de história em quadrinhos que conheço, está na metáfora, está no detalhe, nas frases. Um resumo de suas histórias seria talvez desinteressante, pois é no transcorrer delas que se vê a riqueza que têm. Para gostar de Paco Roca, é necessário lê-lo. Arrisco-me também a dizer que, se ler, vai gostar.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Jacob, o vilão de Lost

Neste post vou retomar o conceito original do blog. Dei a ele o nome de Ficção HQ porque poderia não me ater às histórias em quadrinhos, mas ao produto de ficção que, de alguma forma, pode ser relacionado a heróis, vilões e quadrinhos. Por exemplo, a séria de TV Lost, que acabou recentemente. Existe um monte de blogs falando sobre o capítulo final. Uns defendendo engajadamente, outros atacando vigorosamente. Mas esse não é o assunto que eu quero abordar... O que vejo, com o final da série, é que o vilão é justamente aquele que posou de bonzinho. Há spoilers sobre o fim da série... Quem ainda não tiver assistido, melhor não ler.


Irmãos gêmeos

Jacob e seu irmão nasceram na ilha e rapidamente foram raptados por uma mulher, que não se sabe exatamente quem é, nem de onde veio, só que ela é uma assassina (matou a mãe dos garotos) e mentirosa (disse desde o início que era a mãe deles). É exatamente essa mulher misteriosa quem vai criar os gêmeos e ensinar tudo que eles sabem sobre a ilha. Ou melhor, tudo que eles continuam sem saber.


Desde o início, o garoto de preto (personagem sem nome da série) queria conhecer o mundo, sair da ilha. Sua madrasta nunca permitiu, dizendo que ele não poderia pois o contato com os homens o corromperia. Mesmo assim, ele queria. Buscava suas origens, tinha uma curiosidade um tanto natural sobre sua própria História. Jacob, por outro lado, era mais submisso. O garoto comportado, por assim dizer, que até tinha curiosidade, mas não desobedecia a autoridade. O de preto estava decidido, e foi morar com os seus na ilha. Reparem que ele faz o papel do questionamento. Por que não se pode sair da ilha? E sua madrasta cumpre um papel doutrinário, privando o garoto da obtenção de outras fontes de conhecimento (tanto os outros homens na ilha, quando o mundo em si). Essa história de manter uma pessoa dentro de certos limites (para seu próprio bem) lembra a história de alguém? Um certo Siddhartha, talvez, que se mantinha ignorante quanto aos problemas do mundo por não poder ir além do próprio jardim...
Ouvi dizer por aí que uma das principais temáticas de Lost é a fé. Os personagens que caem no avião são, em sua maioria, pessoas céticas, que passam por certas provações. Porém, que tipo de fé é essa a qual o garoto de preto é submentido? Fé cega? Fé que não se pode questionar? Fé que depende de não se conhecer o mundo para que não seja abalada? O que o homem de preto busca é esclarecimento. Jacob nada questiona, já seu irmão é um pensador. Note ainda que existe uma diferença entre os dois: o garoto é inventivo. Ele olha as coisas, entende seus mecanismos e faz invenções. É mais inteligente, e é um cientista. Mas não um cientista sem fé. Pelo contrário, seus conhecimentos são um tanto intuitivos. Suas invenções não são de resultado certo, apenas algo que ele espera que funcione. Ele não procura respostas filosóficas na ciência, apenas usa os conhecimentos com finalidade prática. Ou seja, não se trata de ciência X religião, pois a ciência, no caso do personagem, não aparece em contraponto com a religião. O homem de preto poderia, de qualquer forma, ter sua fé, embora não se contentasse em simplesmente adotar a fé que lhe foi ensinada pela madrasta. E que mal há em procurar o conhecimento? Contudo, ele está destinado a ficar preso à ilha, por decreto de uma estranha que matou sua mãe, tomou-o como filho e agora quer determinar o que ele pode ou não pode fazer, sem sequer apresentar um motivo.


O Homem de preto

Tudo bem, até aí é a história de origem desse personagem. E uma mesma origem pode formar um vilão ou um herói, dependendo da maneira como ele se desenvolve. O garoto foi morar com os seus, cresceu e seu único objetivo era... voltar pra casa. Parece um vilão para você? Uma pessoa que quer voltar pra casa? Uma pessoa que quer conhecer o mundo, em vez de se restringir a um pequeno pedaço de terra? Ele não quer dominar o mundo. Ele não quer usar a tal energia misteriosa em seu próprio proveito. Ele não quer explorá-la, não quer ganhar dinheiro com ela. Nada disso... Seu único objetivo era sair da ilha. E o único objetivo de sua madrasta era impedi-lo. Sabem por quê? ... Não foi uma pergunta retórica. É sério, se alguém sabe, me explique. Proteger a tal fonte da ilha? A luz amarela? Se ele pudesse simplesmente ter ido embora, ele nunca teria nem que usar a tal fonte para tentar sair de lá. E não me venha dizer que ele poderia voltar à ilha depois, mudar de ideia e usá-la, pois ele ficou rodando a ilha inteira à procura da tal fonte por anos e nunca a encontrou. Aliás, uma amiga minha salientou bem um ponto: que diabo de fonte é essa que precisa ser protegida das pessoas se as pessoas não são capazes de enxergá-la ou chegar até ela? Mas digamos que é necessária uma proteção extra, já que se pode fazer um buraco no chão e utilizar o eletromagnetismo... Beleza, o Jacob está lá pra isso.


A fumaça preta

O Jacob já explicou para os sobreviventes da ilha que o "Locke" não poderia sair porque ele é o mal. Por que ele é o mal? Ele não achava que seu irmão era o mal. Ele só passou a impedir a saída dele porque a madrasta impedia. Aprendeu a fazê-lo e, sem qualquer questionamento, seguiu o exemplo. Proteger a fonte? Proteja! É até melhor que não exista ninguém na ilha, fica mais fácil. Seu irmão nunca deu qualquer sinal de querer voltar pra lá. Mas ele pode querer, no futuro? Corrompido pela ganância dos homens do restante do mundo? Fica tranquilo, ele não consegue achar a fonte.
Entretanto, acredito que quando Jacob diz que seu irmão não pode sair, ele está mudando de motivação. Ele quer impedir porque seu irmão virou uma fumaça preta à prova de balas, que pode sair por aí matando as pessoas. Aliás, na minha interpretação da história, a luz amarela que provém da porta daquela igreja metafísica do último episódio é a mesma da ilha. E, sendo assim, a tal fonte da ilha nada mais é que o portal entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Um portal que deve ser protegido mesmo. Nessa perspectiva, o homem de preto não poderia sair porque ele já morreu. Porém... o que é necessário lembrar, independente da maneira como se vê as coisas, é que, se o problema de o "Locke" sair da ilha é porque ele se transformou em uma fumaça preta, foi o Jacob quem fez isso com ele. Foi o Jacob quem lançou seu corpo dentro da fonte e fez com que o irmão se transformasse em uma fumaça preta perigosa, ou no elo entre os dois mundos. Então, a culpa é toda do Jacob. Foi ele quem transformou o irmão em um ser ainda mais amaldiçoado.


Mais algumas facetas do vilão Jacob

A partir desse ponto, a temática principal da história passa a ser o confronto entre Jacob e o irmão sem nome. Aparentemente, um confronto entre o bem o e mal, sendo que o bem está representado pelo personagem que se veste de branco, e o mal pelo que se veste de preto. Daí em diante, pode-se dizer que o "lostzilla" se tornou um vilão, porque parou de medir consequências para sair da ilha. Passou a matar pessoas em sua forma esfumaçante no intuito de se ver livre do seu campo de concentração pessoal. Só que, volto a reiterar: foi o Jacob quem transformou seu irmão nesse monstro. Só que o próprio Jacob é um ignorante. Ele não sabe dizer por que as pessoas não podem sair da ilha. Ele não sabe dizer o que é a tal fonte. Ele não sabe dizer por que seu irmão não pode abandonar a ilha. Ele apenas segue as crenças de sua madrasta, cegamente, sem questionamento, como na parábola dos cinco macacos e o jato de água fria. Ele apenas segue ordens. E combate ferrenhamente sua contraparte: aquele que busca o conhecimento.
Além disso, analisemos um pouquinho o que o Jacob fez por conta desse confronto com o monstrinho criado por ele mesmo. Ciente de que o homem sem nome o mataria para sair da ilha, ele foi em busca de um candidato que o substituísse. Passou a acompanhar a vida das pessoas que poderiam estar aptas a essa função (embora, no caso dele, só tenham ido o irmão e ele mesmo). Então ele passou a induzir os acontecimentos. Provocou, indiretamente, a queda do avião e fez com que dezenas de pessoas caíssem na ilha, sofressem e brigassem. Uma certa parcela dos seus candidatos simplesmente morreu para que o Jacob dissesse: "É... acho que esse não estava apto a cumprir a missão. Vejamos se os outros penam mas sobrevivem...". É essa a concepção de herói da história? Uma pessoa que prende o irmão na ilha por seguir cegamente os mandos da madrasta assassina? Que o transforma em um monstro? E que depois traz dor e sofrimento a dezenas de pessoas para ver qual passa no teste de impedir que o monstro que ele criou saia da ilha e proteja uma fonte de luz que ninguém consegue encontrar, sem saber exatamente o motivo por que faz isso? Não sei quanto a vocês, mas essa é a minha visão de vilão.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Iron Easter Eggs

Antes que façam trocadilhos infames com o título do post, cabe esclarecer o que são easter eggs. Em inglês, significam literalmente ovos de páscoa, mas nesse caso específico, é o nome que se dá a surpresas ou qualquer coisa oculta, geralmente em tom de brincadeira, em aplicativos, softwares, programas, jogos, páginas, músicas, filmes, etc., intencionalmente para que os usuários ou consumidores procurem e achem. Tentarei aqui expor alguns easter eggs escondidos nos dois filmes do Homem de Ferro.
Bom, começo com um dos mais conhecidos. A imagem do escudo do Capitão América. Causou o maior rebuliço, vários sites postavam a imagem que, durante o filme, era quase impossível de se perceber. Mas estava lá, no cantinho, entre um monte de tranqueira, no laboratório de Tony Stark.

O que era pra ser apenas uma brincadeira inserida por um dos especialistas em efeitos especiais, numa apresentação de trailer só pra equipe do filme, acabou agradando Jon Favreau e Kevin Feige, que decidiram manter a cena desse jeito. Contrariamente ao que esperavam, muita gente percebeu, o que causou o maior frisson em fóruns pela internet. O diretor decidiu, então, dar mais força pra brincadeira e inseriu uma cena inteira no segundo filme apenas para mostrar que o escudo, bom, não era bem um escudo, apenas uma tranqueira mesmo, e sua única utilidade deu o tom da comicidade na tela (muitos no cinema não entenderam a piada, obviamente).
Outra aparição digna de nota é a do Mandarim. Pois é, ele apareceu no primeiro filme! De modo bem sutil, mas apareceu. Não apenas na forma da organização Dez Anéis, a qual pertence o vilão que o sequestrou nas montanhas logo no início da história (vide a imagem que abre este post acima, e repare no painel ao fundo). Ao que parece, na novelização que fizeram do filme, Raza (é o nome do vilão) fala “…the man whose ring I wear.” Reparem bem na mão de Raza: um anel.

Nada de mais, certo? Certo, não fosse o fato de que, após trair Raza, com quem estava mancomunado, a primeira coisa que Obadiah Stane faz é retirar o anel do mesmo e tomá-lo para si, passando a usá-lo em sua mão até o fim do filme.
Ora, Mandarim é o arqui-inimigo do Ferroso, conhecido principalmente por manipular dez anéis energéticos altamente poderosos, tanto individualmente quanto em conjunto. Teria esse anel de Raza sido dado a ele pelo Mandarim em pessoa? Por isso Stane o tomou para si, sabendo de seu poder? Talvez na história adaptada para as telas os anéis não contenham poder físico em si, mas sim poder de influência, de status, de posição. Usar um dos dez anéis é garantia de posição de liderança na organização Dez Anéis? Bom, passemos ao segundo filme e, olhem só, outro inimigo de Stark, no caso Justin Hammer (em excelente atuação de Sam Rockwell), traz consigo, em todas as cenas, um pequeno detalhe em sua mão direita (no dedo mínimo, mais especificamente):
Podemos tirar duas conclusões disso: a primeira é que, possivelmente, a produção dos filmes do Homem de Ferro vem plantando pistas e dicas sobre o surgimento e ascensão do grande inimigo do Latinha, preparando o terreno sutilmente em dois filmes para depois mostrar o grande vilão por trás de toda a trama, aquele que poderia estar manipulando as cordas de todos os antagonistas de Tony Stark como um mestre titereiro, por detrás das cortinas. E a segunda conclusão é que, com esse ritmo de um anel por filme, vai ser preciso mais sete ou oito filmes para finalmente chegarmos ao chefão final, o big boss a ser derrotado na última fase...
Porém, o diretor realmente está muito a fim de colocar o Mandarim num dos filmes do Homem de Ferro, e parece que o fará exatamente no terceiro da série: "I look at Mandarin more like how in 'Star Wars' you had the Emperor, but Darth Vader is the guy you want to see fight". Jon Favreau falou também sobre a dificuldade de se inserir um vilão tão ligado à magia como o Mandarim num universo tão tecnológico como o do Homem de Ferro, porém, com o filme de Thor* vindo aí, e posteriormente o filme dos Vingadores** unindo a versão mítica do deus nórdico com a tecnologia do nosso playboy...
Há muitas formas de se fazer isso, e eu quero muito ver como farão, torcendo por um bom roteiro e uma boa trama. Apenas mais uma imagem para deixá-los com uma pulga atrás da orelha, retirada do primeiro filme (reparem bem na mão de Rhodes, deixada intencionalmente à mostra nesta tomada):
*Falando no Deus do Trovão... um dos easter eggs mais legais em Iron Man 2 foi apresentado na cena em que Tony visita Ivan Vanko (Mickey Rourke, perfeito também em sua caracterização) na prisão. A câmera vem acompanhado Stark pelos corredores até que Stark segue e esta para de repente, mostrando uma cena ocorrendo ao fundo. Numa das celas, um sujeito loiro, alto, é fotografado (veja aqui, aos 1min18s do vídeo). A tomada é muuuuito rápida, mal dá pra se ver o sujeito na cela sendo fotografado.


A pergunta é: pra que deixar a câmera parada, enquanto Stark prossegue, e registrar essa cena? A resposta talvez esteja na última do filme. É, a famosa cena pós-creditos. Revejam-na. Eu pergunto: qual é o último som da filmagem, que encerra em definitivo o filme? Pois é, um trovão. E qual foi o elemento mais conspícuo na cena brevíssima da prisão? Um flash (em inglês, um "relâmpago"). Captaram a associação? Isso tudo em conjunto me faz crer que o sujeito preso não é o Sawyer, de Lost... **Falando nos Vingadores... Eu achava que, na cena em que Tony conversa com Nick Fury sobre a Iniciativa Vingadores, estaria estampada dentro do arquivo a foto do Thor. Mas não mostraram nada de seu conteúdo. Mas mostraram (?)*** muito mais coisas fora da pasta. Retirei essas imagens do blog Cave Beneath the Mansion, em que aparecem mais bem explicadas, e acrescentei algumas outras. No quadro ao fundo podem ser vistos lugares específicos do globo circulados. A S.H.I.E.D. estaria observando ou catalogando "avistamentos" nesses locais para sua iniciativa, agora que Tony sabe a resposta da pergunta que Fury lhe fez no primeiro filme: "Você acha que é o único super-herói no mundo?". As suposições seriam (veja no quadro): Interior dos EUA: localização do martelo de Thor (marcado no primeiro quadro talvez a cratera onde o encontraram). Costa Oeste: o próprio Homem de Ferro. Costa Leste: Hulk (e a repórter no quadro seguinte estaria falando da destruição perpetrada pelo Hulk no campus da universidade). No Círculo Polar Ártico (Groenlândia ou Islândia): o corpo congelado do Capitão América. Meio do Oceano Atlântico (Atlântida?): Namor. No último quadro é mostrado interior da África (Wakanda?), com possível Pantera Negra, e centro da Europa (Alemanha?), em que muitos supõem se tratar do Caveira Vermelha.
Há ainda os pertences do pai de Tony, Howard Stark, e as tralhas em seu baú. Há quem veja, na foto acima, um mapa da Antártida. E o que diabos há de tão interessante assim no continente gelado? Hmmm, Terra Selvagem, alguém disse? Será? Apesar de mais ligada à cosmologia mutante, a "região perdida no tempo" apareceu recorrentemente no run de Brian Michael Bendis à frente dos Vingadores, relacionada inclusive à própria S.H.I.E.L.D. e algo de podre dentro da instituição, e poderia render boas histórias.
Uma última aparição especial: no primeiro filme, enquanto Tony pilota a armadura Mark 2 e decide ver quão alto ele pode chegar, é possível ver que o atual recorde de altitude é do Lockheed SR-71 "Blackbird", que, por coincidência (ou não) é o mesmo modelo do jato pilotado pelos X-Men, o X-Jet.

*** Uma ressalva a ser feita aqui, por isso a dúvida se realmente são easter eggs ou não. Há um fenômeno perceptivo conhecido como pareidolia, caracterizado por se achar significados e significantes em estímulos aleatórios ou vagos (como achar imagens de figuras religiosas em vidros), também conhecido como o vulgar "achar pelo em ovo". Há que se ter cuidado, porque quem procura acha o que está procurando, mesmo que aquilo não esteja lá, e pode bem ser o caso dessas imagens nos filmes, de simplesmente significar NADA.

Mas, se significar algo mesmo... bem, talvez estejamos caminhando para um futuro com um possível seriado da Marvel na televisão? Julguem vocês e me digam sobre a possível imagem do corpo congelado do Capitão encontrado numa cena deletada do filme Incrível Hulk (que pode ser vista inteira aqui, no blog Alternative Prison). Montagem, fake? Easter egg? Pareidolia?





Seriado sugerido: Fringe.
Trilogia de filmes sugeridos: Matrix.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O pior inimigo do Batman

   Ele está presente nos piores momentos do Batman. Destrói o personagem como nenhum outro, atacando da forma mais vil possível: acabando com a reputação do herói. Não, eu não estou falando do Coringa. Este é o melhor inimigo do Batman, a ponto de roubar a cena do Cavaleiro das Trevas nas telonas. Estou falando do PIOR inimigo do Batman: o Robin.

    A tradição dos parceiros mirins data de vários anos. A principal influência foi a Família Marvel, que acompanhava o Capitão Marvel, na época um personagem de estrondoso sucesso que colocou no chinelo a até então insuperável popularidade do Super-Homem. O Capitão ainda era da Fawcett, e constituía basicamente o único personagem popular da editora. Aí alguém (provavelmente um espertinho do marketing) teve a brilhante ideia de multiplicar o personagem para multiplicar as vendas, criando versões do mesmo personagem, com a diferença de serem mais novos, mulher ou até animal. O problema é que deu resultado (as pessoas realmente parecem gostar de mais do mesmo), o que desencadeou um processo de criação de outras "famílias" pelo universo super-heroico afora. Daí que o Super-homem também teve seu Superboy, Supermoça, Krypto (o supercão) e por aí vai. O mesmo ocorreu com o Batman.

   Só que o tempo passou e os personagens apêndices foram sendo descartados, até mesmo porque os quadrinhos aos poucos deixavam de ter um público infanto-juvenil para ter um público adulto. E essa visão de personagens adolescentes podia ser muito divertida para quem podia fantasiar-se no papel daquele herói juvenil, mas não se encaixava em um cenário mais adulto. Simplesmente não é crível! Assim, nas reformulações da DC, os personagens foram transformados ou, de alguma forma, aposentaram. O Krypto nunca existiu (para isso existe um recurso chamado continuidade retroativa). O Kid Flash envelheceu e assumiu o lugar do Flash, quando este morreu. Um dos poucos casos de mirins na Marvel, o Bucky, não foi "ressuscitado" junto com o Capitão América quando este foi trazido de volta ao universo da editora (pelo menos não na época). O primeiro Robin - Dick Grason - envelheceu e tornou-se o herói Asa Noturna. Legal... A DC estava se ajustando. O problema é que o Robin é um fantasma que persiste!

   Pense comigo: você um super-herói. Portanto, sua preocupação é proteger as pessoas. Você, herói, enfrenta ameaças a própria vida em nome desse ideal. Arrisca-se, machuca-se, enfrenta situações extremamente difíceis, de grande impacto físico e psicológico. Entretanto, você não é uma pessoa qualquer, é um herói, dispõe-se a enfrentar tudo isso e manter-se em sua incessante luta contra a vilania e a injustiça, por ter enraigado dentro de você um grande senso de dever e responsabilidade. Aí aparece um adolescente na sua frente e diz que quer ser seu parceiro. Você diz que tudo bem? Vai expor um adolescente a todo esse impacto psicológico, a toda espécie de dano físico e constante risco de morte? O Bucky em si é uma incoerência narrativa, assim como qualquer outro mirim.


   O Robin é ainda pior, porque o Batman não tem nada a ver com parceiros-mirins. Aliás, o Batman não gosta de parceiros. Mesmo na Liga da Justiça, ele não está sempre presente, e quando está, fica nas trevas, à parte dos outros membros. Em muitas ocasiões, deixa de se envolver em algum problema porque está cuidando dos seus próprios (ou seja, Gotham City). E com frequência age paralelamente ao grupo, traçando seus próprios planos (muitas vezes, de contingência), agindo de sua própria maneira etc. Ele é um cruzado solitário! Mas... tudo bem. Ele também age constantemente com a equipe e até tem um histórico de parceria com o Super-Homem. Um Robin é outra coisa... Primeiro, porque o Batman não gosta de parceira, só faz por necessidade. Segundo porque ele não precisa de alguém para guardar suas costas (na Liga, ele que guarda as costas dos demais). Terceiro, ele é sorrateiro, move-se nas sombras. É meio ridículo fazer isso acompanhado de um pivete com um uniforme todo colorido. Quarto, ele é responsável. Assume cargas até maiores do que pode suportar, para não arriscar os demais. Quinto, ele é sombrio. Não combina com um trapezista jovial... Enfim! São vários os motivos, dentro do perfil do personagem, que faz com que ele não tenha um parceiro mirim.

   Já ouvi que Robin se mantém pelo simbolismo que ele representa na vida do herói. A infância de Batman foi arrancada dele na ocasião da morte de seus pais. Ali, a criança morreu. O Robin representaria, então, a infância perdida do Batman (veja aqui neste post do Rodrigo uma visão interessante sobre "a função" do Robin). Legal... Só que essa infância está em constante ameaça. Se a questão é preservar a infância, ou mesmo resgatá-la, mais um motivo para o Batman pensar: "De jeito nenhum! Eu até posso ter algum parceiro, mas em hipótese nenhuma um adolescente. Não quero que ele perca a infância que eu não tive". E não é isso que o Batman faz? Tenta dar a oportunidade para que as pessoas tenham o que ele não teve? Sua motivação não é algo como evitar que outros passem pelo sofrimento que ele passou?


   A morte de um dos Robins pelas mãos do Coringa é uma prova do risco a que o Batman expõe qualquer um de seus parceiros mirins. O Coriga matou Jason Todd (o segundo Robin) às marretadas (Batman - morte em família). E isso não foi, na minha visão, apenas mais uma maluquice do palhaço. Foi um aviso! O Batman está realmente disposto a assumir essa responsabilidade? Na visão de Grant Morrison, aparentemente, o herói sabe disso. Em uma alucinação, Batman sonha com um futuro em que o Coringa diz: "Quantos Robins preciso matar pro velhote se tocar...?" (Os Melhores do Mundo nº15).
   Tudo isso, porém, só caracteriza a incoerência e a falta de verossimilhança na existência e persistência do Robin. Não o coloca na posição de pior inimigo. Por que, então, eu disse isso? Simples: onde o Robin aparece, estraga tudo. E não estou falando das aventuras. Vamos começar de bastante tempo... A antiga série de TV do Batman. Era ele e o Robin, não era? Foi um clássico da TV, tudo bem, mas não é exatamente a visão mais fidedigna do Cavaleiro das Trevas. E mesmo os fãs de Batman fazem piadas da série, não só porque ela é antiga, mas por ser paspalhona mesmo. Aliás, um dos grandes chamarizes para as piadas é justamente quem? Vamos pegar também a primeira sequência de filmes do Batman que lançaram... O primeiro foi bom. Muito bom! O segundo também foi legal, manteve a mesma linha. Foi no terceiro - Batman Eternamente - que a coisa começou a desandar... E qual é o personagem que surge nele? O quarto foi uma bosta, digna de pena! Seu título? Batman e Robin. Teve até um desenho animado relativamente recente... Não estou falando do Batman do futuro, mas passava na mesma época na TV. Era um outro, em que as histórias, embora voltadas para o público infantil e principalmente adolescente, eram um pouco sombrias, criavam um clima (atenuado) de terror. Os vilões, em sua maioria, foram reformulados. Era até legalzinho. Estava indo bem, até quem dar as caras na história? Novamente, o Robin mata as histórias do Batman. Até Batman - Bravos e Destemidos, que tem uma abordagem mais infantil e faz referências à visão mais antiga e menos sombria do personagem, corre o risco de extinção no caso de o Robin aparecer. Vamos torcer para que esse fantasma não assombre a nova sequência de filmes do homem-morcego. Não sei se resistiria a um ataque tão devastador...



terça-feira, 1 de junho de 2010

Tempestade Selvagem de Alan Moore

WildStorm, para quem não sabe, é a editora de Jim Lee (assim como a Top Cow é do Marc Silvestri), remanescente da Image Comics, e que atualmente se encontra de posse da DC. A Panini, espertinha como é, lançou um encadernado no Brasil para apresentar o que esta editora vem fazendo ultimamente, e escolheu um TPB só com histórias de Alan Moore para este selo. E não é que o mago barbudo consegue fazer jus à propaganda de seu nome? Vejam bem, não são histórias excelentes, as melhores já escritas pelo inglês, mas são legaizinhas, algumas até bem bacanas. Uma boa diversão. A arte é que, de modo geral, peca e não acompanha bem os roteiros.

A primeira história é com o personagem Majestic (sobre quem sei pouco, mas nada que a internet não resolva), apenas mais uma hipóstase do Super-Homem. Mas aqui Alan Moore nos apresentou o personagem nos últimos dias de vida... sua e do próprio universo! Como um dos últimos seres sencientes a restarem vivos enquanto a entropia toma conta de tudo o que existe, Majestic narra uma história em que ainda cabe o amor nesse fim dos tempos, e em que Moore demonstra um bom conhecimento de cosmologia (vide entropia e morte térmica do universo). Destaque especial para os últimos seres vivos a testemunharem o fim da vida, como por exemplo: uma estirpe inteligente de sífilis infectando um dos nove sobreviventes, um supercomputador criado para calcular os nove bilhões de nomes possíveis de Deus e perto do fim de seus cálculos, e um espírito abstrato da aritmética desgostoso pois todos os números possíveis estão se reduzindo a zero. Uma homenagem que Moore faz a contos de ficção científica, em especial a The Nine Billion Names of God, de Arthur C. Clarke, e principalmente a Last Question, de Isaac Asimov. Na verdade esta é a terceira versão deste conto que conheço, e todas são muito boas. O final é surpreendente (adoro twist endings, talvez seja um resquício saudosista meu de Além da Imaginação - Twilight Zone). Esta história é a preferida do Guilherme, parceiro e brother in arms deste blog
Outra história trata sobre Deathblow, ou algo assim. Apesar de ser uma história muito mais visual que narrada, tem-se a impressão de se passar muito rápido por ela. Talvez seja proposital para a proposta desejada por Moore, para deixar o leitor perdido como os personagens, não sei. Uma típica história de sobrevivência num ambiente hostil, alienígena, de não saber onde está ou por que está ali. Uma boa sacada do autor foi de já nos apresentar uma possível "resposta" para o enigma vindo de uma ideia do vilão, mas esta não ser a verdadeira. Muitos que leram, eu inclusive, são levados a acreditar nesta hipótese por ser a mais plausível até então. Falar mais estragaria a surpresa. Achei a história mediana, com um tema recorrente (coff,coff, Resident Evil, coff, coff, entre outros), e essa questão de ser muito visual a fez perder pontos para mim.
A última história é bem curta, relacionada a eventos que talvez quem conheça mellhor o passado dos WildCats - não é o meu caso - goste e até entenda mais. Não há muito para contar pois não é bem uma história fechada, necessita de algum entendimento anterior. Destaque para a interação entre os personagens, e só. Há pouco mais a ser dito.

O contrário pode ser dito quanto à história de Vodu: a melhor! Na minha humilde opinião, é claro. Alan Moore conseguiu pegar uma personagenzinha fraca e subaproveitada, clichê, e resgatar para ela uma bagagem maior (que o próprio criador da mesma nem sequer chegou a cogitar). Inserindo-a num contexto cultural riquíssimo, redefiniu e norteou toda uma mitologia própria e um background para a Vodu. Uma pena que tão logo a personagem voltou a aparecer nos quadrinhos da editora, tudo isso foi esquecido... Tomando de partida o nome artístico da garota, o mago inglês jogou-a em Nova Orleans e inseriu elementos típicos da religião vodu (não confundir com o voodoo perpetrado por marinheiros ignorantes e supersticiosos e vendido em filmes de terror B norte-americanos), em algumas coisas parecida com a Santería. Para quem conhece um pouco sobre o assunto, as pistas vão sendo deixadas aos poucos pelo autor, nos nomes, nas formas e nos falas das pessoas que a personagem vai conhecendo quando chega à cidade. É estimulante captar e seguir as dicas para tentar descobrir a identidade dos envolvidos.

O início do capítulo 2, Erzulie, mostra o quão poderosas e acima das questões mundanas essas entidades são, e o quanto os seres humanos são apenas marionetes para elas. E é assim que Priscilla, a Vodu do título, passa pela história: nada de super-heroísmo, apenas uma garota sensual (a cena da dança é bem sugestiva!) recém-chegada servindo aos desígnios de forças maiores. Ótima história, sem colantes coloridos, e excelente oportunidade para aprender um pouco mais sobre tão rica e diversificada religião. Uma pena que nesta edição a Panini não tenha incluído todas as capas da minissérie, são muito boas...



Filme sugerido: Identidade (Identity, 2003), com John Cusack.

Conto sugerido 1: The Nine Billion Names of God, de Arthur C. Clarke.

Conto sugerido 2: Last Question, de Isaac Asimov.

Música sugerida: Santeria, da banda Sublime.

Assunto sugerido: religião vodu e voduísmo.